Editorial

Das tragédias aos bombeiros voluntários

Esta semana, mais uma tragédia se abateu sobre nós. A queda de andaimes de um prédio de 20 andares em construção provocou a morte imediata de cinco pessoas que se encontravam a trabalhar no local. Os andaimes que caíram projectaram um grupo de trabalhadores do décimo sexto andar para baixo, resultando nas mortes aqui referidos e em vários feridos graves e ligeiros.

Fora de querer avançar quaisquer causas sobre o acidente, para isso o Governo criou uma comissão para investigar o assunto, queremos nos quedar sobre o trabalho dos bombeiros nestas circunstâncias.

Pelo que foi relatado na Comunicação Social, o acidente ocorreu lá para o princípio da tarde e os Bombeiros do Serviço Nacional de Salvação Pública (SENSAP) terão levado bastante tempo para chegar ao local, fazendo com que fossem os próprios trabalhadores, sem preparação específica para isso, a realizar os primeiros socorros. Conta-se também que, os bombeiros, quando chegaram ao local, eram em número que não alcançavam os dedos de uma mão.

Assim, o trabalho de remoção de ferros e entulhos continuou a ser feito pelos colegas das vítimas e também funcionários e estudantes de instituições vizinhas do local do acidente. Depois veio a noite e a escuridão e já sem visibilidade, não se podia continuar, sendo o trabalho deixado para o dia seguinte.

Qual é aqui a nossa asserção?

É de que temos que nos preparar melhor para estas e outras situações relacionadas com a protecção civil. Hoje são fogos e quedas de andaimes, amanhã podem ser sismos e outras calamidades que exigem forte intervenção. Nestes casos, a defesa da vida não se compadece com amadorismos.

Todos sabemos que o Serviço Nacional de Salvação Pública (SENSAP)  é uma instituição pública de carácter paramilitar que garante a prevenção de riscos, o combate a incêndios, socorro e salvação de pessoas e bens em caso de sinistros, quaisquer que sejam.

Assim, o SENSAP é de facto um organismo coordenador, fiscalizador e regulador das actividades de segurança contra incêndios e outros riscos, não descurando as acções preventivas e interventivas e que pode até coexistir e trabalhar com várias outras entidades, por exemplo, se houver corpos de salvação nos municípios, se houver corpos de salvação privativos ou voluntários, que concorram para a concretização do mesmo fim.

Estamos a falar de pessoas formadas ou que possam ser formadas, para que, no espírito humanitário, possam, de forma voluntária e sem interesse lucrativo socorrer pessoas em risco de vida. Não é o que aconteceu com os voluntários trabalhadores e vizinhos que estiveram a remover desesperadamente escombros à procura de vítimas naquele prédio em construção na baixa da cidade de Maputo.

Ali, toda a gente viu que os bombeiros que temos, são incapazes, por falta de meios materiais e humanos, de acorrer com a brevidade que as circunstâncias exigem, aos sinistros.

Já foram anunciadas medidas tendentes a operacionalizar corpos de bombeiros, à semelhança do que acontece por esse mundo fora. Algumas destas medidas até foram operacionalizadas, como por exemplo, a formação de mais membros deste corpo, a aquisição de mais meios e outras. Mas ainda não chegam para actual realidade e o tempo urge. Atrasar a solução do problema pode redundar em catástrofe.

Pensamos que é já o momento de operacionalizar com afinco a existência de bombeiros voluntários. Muitas mãos preparadas constituíram um meio eficaz para salvação de vidas que se perdem, às vezes, porque o adequado socorro não chegam a tempo.

Infelizmente não somos gente que prime pelo voluntariado, o que se deve não propriamente à índole do nosso povo, por natureza solidária, mas ao circunstancialismo que estamos atravessando em que o egoísmo, ou se quisermos, a egoíte (doença do eu) é quem mais ordena. Deve-se, também, e, em grande medida, ao ambiente em que se desenvolve a educação, recheada de bons conselhos, mas a decorrer em contexto vicioso. Mas há sempre gente boa para dar o corpo ao manifesto, a julgar pela turba de gente que acorreu para ajudar no sinistro da queda de andaimes.

 É vulgar nas universidades, ou mesmo em cursos de orientação profissional, aconselhar opções aos candidatos, não em função do seu impacto social, mas porque se pode ganhar mais dinheiro.

Infelizmente a nossa juventude não é mobilizada para grandes causas em prol da colectividade e, no entanto, o seu coração é generoso. O problema está mais nos adultos, na vida que levam, nas motivaçõs que os animam, que nos jovens.

Tudo isto a propósito dos bombeiros voluntários que não temos, mas que existem e até abundam em alguns países, com desempenho notável a favor da comunidade.

O bombeiro não se ocupa apenas de extinguir incêndios. Até neste capítulo se ocupa, primeiro que tudo, em preveni-los.

Um bombeiro é um homem ou uma mulher com treino e equipamento adequados para combater incêndios, socorrer pessoas em situação de perigo, acudir-lhes em tempo de catástrofes naturais e salvaguardar bens materiais em risco de se perderem.

Há países em que os bombeiros voluntários estão espalhados por quase todas as sedes dos municípios.

São os soldados da paz na zona em que se encontram a desenvolver a respectiva actividade. Estão na linha da frente dos primeiros socorros em casos de acidentes sejam eles quais forem. Possuem, em geral, formação genérica em primeiros socorros, em enfermagem, em condução de ambulâncias e formação adequada no combate a incêndios. São uma espécie de vigilantes, sem confundir a sua missão com a dos polícias, da segurança nocturna e diurna dos cidadãos.

Pensamos que seria possível caminhar nesta direcção, que os meios, embora modestos, iriam aparecer com o tempo, como aparecem para outras actividades. E, enquanto não se puder caçar com um cão, em cada um dos municípios, caçar-se-ia com um gato. Não rende tanto, mas já é alguma coisa. Importa, porém, começar.

 

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