Editorial

A derrapagem do Metical

O dólar, moeda de referência nas transacções comerciais internacionais, ganhou uma certa pujança no mercado e está a apertar os calos do Metical. Dito por outras palavras, o Metical encolheu e, por via disso, o custo de vida ficou mais caro… e, nessa razia, nem produtores, nem consumidores escapam da barbárie.

 O consumidor, último elo na cadeia de produção, está a ressentir-se, em primeiro lugar, da alta de preços. O produtor está aflito na aquisição de insumos para a produção. A entidade reguladora da política monetária do país, nomeadamente o Banco de Moçambique, vai fazendo o seu jogo de cintura para que a situação não descambe em tragédia. É só nos lembrarmos – com as devidas ressalvas – da Crise Financeira Internacional e das suas consequências em economias bem mais robustas do que a nossa.

O ponto é que o mercado nacional está a registar um fenómeno chamado Deflação, facto que aumenta o valor real do dinheiro. Isto é, compra-se a mesma quantidade de bens com mais dinheiro. A deflação está normalmente associada a períodos de recessão. O processo pode ser iniciado, ou agravado, pela baixa oferta de moeda. Quer dizer, falta dinheiro em circulação, seja por causa dos juros altos, que tornam o crédito proibitivo, seja pela falta de investimentos. No nosso caso, parece resultar da robustez do dólar que, por via disso, passou a ser mais caro. E não se pense que só afecta aqueles que usam o dólar; qualquer cidadão, mesmo aquele que nunca pegou um dólar, também é vítima. Mais grave é que essa bola de neve costuma afectar todos os sectores da economia, do agricultor até ao consumidor, além de abalar a própria estrutura social.

Numa economia altamente deficitária e largamente dependente do que se produz no estrangeiro – lembrar que tudo vem de fora, desde o tomate, parafusos, até ao telefone celular – o custo de importação desses bens passou a custar mais meticais. Neste momento, um dólar custa perto de 40 Meticais. Quer dizer, é preciso desembolsar mais Meticais para comprar os a mesma quantidade de produtos. Veja-se o caso do combustível: O barril de petróleo anda em torno de 60 dólares no mercado internacional. Este preço é bom quando um dólar custa 30 meticais. Entretanto, o dólar está a roçar os 40 meticais, pelo que é preciso desembolsar mais meticais…

O que estará a acontecer?A explicação pode ser encontrada nas recentes notícias que indicam que as cidades de Maputo, Beira e Nampula, que são os maiores centros de consumo estão a registar deflação, que é a variação negativa de preços, quando o ideal é uma inflação baixa de modo que os preços subam à medida dos rendimentos dos consumidores para que se possa assegurar margens positivas aos produtores. O facto é que este fenómeno económico faz cair as margens dos produtores provocando, naturalmente, a perda de capacidade produtiva que, por seu turno, catalisa a perda de capacidade competitiva. Por fim o agente económico entra em falência. Por outras palavras, uma deflação nunca é coisa boa para o produtor e nem mesmo para a economia de ponto de vista estrutural.

Há ainda a associar a este nosso “tumulto financeiro”, o facto de os Estados Unidos da América terem reduzido a factura de importação do petróleo e, por outro, a queda dos preços de carvão no mercado internacional. Por outro lado, somos um país eminentemente importador e isso coloca-nos indubitavelmente numa situação de vulnerabilidade sempre que um fenómeno económico se regista mesmo a milhares de quilómetros de distância. É importante ver que, numa economia cada vez mais globalizada e globalizante, todos os países buscam estimular caminhos de integração, não apenas para expandir os respectivos mercados internos, mas para aumentar a própria capacidade de defesa. Ora, neste contexto, as crises são partilhadas quase sempre involuntariamente. Os economistas, se calhar por isso, investem tempo e energias na busca de um “modelo correcto e equilibrado”, quando a situação social e a crise internacional não permitem “modelos”, mas sim opções e políticas que possam estimular a produção interna. Mas há outras coisas que nos devem preocupar; previsões recentes reduzem pela metade o crescimento em alguns países. A despeito da dificuldade de avaliação, não há dúvida que a crise provocou e provocará fortes impactos negativos na produção e no comércio mundial. E Moçambique, porque parte desse sistema mundial, não está imune aos problemas resultantes.

crise que o metical está a experimentar propicia-nos um momento para a reflexão e com ela alicerçarmos, como Nação, a prosperidade almejada. Mas não haja ilusões. A saída para a crise é um grande investimento em todos os segmentos de produção e uma definição clara daquilo que o país pode efectivamente produzir de forma competitiva! De outro modo, continuaremos a semear ventos…

 

 

 

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