Economia

Dragar para sobreviver

A Companhia de Desenvolvimento do Porto de Maputo (MPDC) está a investir desde o ano passado (2014) e até ao final deste ano um total de 355 milhões de dólares americanos na modernização e expansão das suas infra-estruturas com o objectivo de permitir aumentar a carga portuária, a capacidade do cais, espaço de armazenamento e melhoria das ligações ferroviárias e rodoviárias.

O Porto de Maputo tem pela frente um enorme fardo. Precisa urgentemente de ganhar profundidade para permitir a atracagem de navios de grande calado que são elementos essenciais para se tornar competitivo. De outro modo, será tido como inexpressivo no mercado regional.

Osório Lucas, director geral da MPDC, afirma até que “a dragagem não é uma escolha, é quase que um imperativo de sobrevivência” pois, o canal de acesso ao Porto de Maputo possui apenas 11 metros de profundidade, o que só dá para navios de 70 mil toneladas, quando as embarcações que demandam este terminal requerem pelo menos 14 metros, ou seja, capazes de embarcar acima de 80 mil toneladas.

A expectativa que existe ao nível daquela empresa é que quando estas obras forem concluídas os navios passem a escalar o porto de forma directa, ou melhor, sem ter que passar por outros portos da região para completar o carregamento, o que pode alterar as regras do jogo na relação comercial entre Moçambique e a África do Sul e com a China e Índia.

Numa altura em que os preços dos minérios estão a baixar no mercado internacional, há um desafio muito grande de tornar o nosso porto muito competitivo”, afirma Osório Lucas que insiste que só a dragagem pode oferecer um novo folego a este porto.

Até ao momento, e fruto da tal falta de profundidade, os navios que escalam o Porto de Maputo carregam uma parte da mercadoria neste recinto e depois partem para o porto de Richards Bay, na África do Sul, para completar a tonelagem requerida.

Por outro lado, observa-se que os portos de Richards Bay e de Durban, que são bem maiores e muito próximos do de Maputo, manuseiam carga a granel, nomeadamente carvão mineral, magnetite, minério de ferro, assim como carga geral e contentorizada, o que coloca imensos desafios ao MPDC para manter “a cabeça fora da água”.

Na escala de investimentos em curso, Osório Lucas afirma que a dragagem é a maior preocupação e, no quadro dos preparativos para a realização desta obra, foram recentemente concluída a dragagem de manutenção dos cais, actividade que permite ter a certeza de que todos possuem têm a profundidade requerida. 

Outro projecto previsto para o ano em curso está ligado à construção duma estrada que estará localizada por trás do porto que vai permitir que as viaturas entrem para os terminais e saiam por trás sem congestionarem o tráfego na Estrada Nacional número 4 (N4), com incidência para o troço que vai da Portagem de Maputo até à “Brigada Montada”.

O número de camiões que entram nesta cidade e neste porto é desafiador. São 800 camiões em permanente movimento. Estamos a trabalhar com a empresa Caminhos de Ferros-de-Moçambique (CFM) e o governo para traçar um plano para se investir numa linha férrea que vai ajudar a reduzir este fluxo. Já estamos a passar do plano para a acção”, disse.

Acrescentou que investir na infra-estrutura que vai permitir a redução do número de camiões trará alguns benefícios de natureza ambiental, tendo em conta que em média 800 camiões entram diariamente no porto, o que, como se sabe, redunda sempre na emissão de gases, derrame de óleos, entre outros.

Expandir também é imperativo

Dados em nosso poder indicam que ao longo do ano passado foi concluída a expansão de algumas bancas de ferrocrómio o que vai garantir uma capacidade adicional de 31 mil metros quadrados. Ao agregar à capacidade inicial, aquele terminal ficou com cerca de 60 mil metros quadrados, o que representa um incremento de 1.2 milhões de toneladas para quatro milhões de toneladas só de ferrocrómio.

Segundo Osório Lucas, os 60 mil metros quadrados correspondem a pouco mais do que as linhas férreas de Ressano Garcia, Goba e Limpopo fizeram juntas no ano de 2014.

Ainda no âmbito da expansão que está em curso no Porto de Maputo, estão a ser criadas condições para a paragem de camiões e reduzir os níveis de poluição através da pavimentação das áreas ao longo dos armazéns. Por outro lado, foi concluída a expansão do terminal de viaturas.

Assinamos um acordo com o governo que vai permitir a expansão do terminal de contentores de cerca de 150 mil unidades para 200 mil contentores por ano e num futuro próximo chegaremos a 300 mil unidades”, disse Osório Lucas.

Deste modo, o terminal de contentores ganhou mais 300 metros de cais com as reabilitações estruturais, nomeadamente do terminal intermédio para enchimento e desembaraço de contentores, reabilitação do cais 3 e 4 e do cais dedicado aos navios utilizados para o transporte de carga.

Por outro lado, a MPDC rubricou um acordo de cedência de espaço para a empresa Maputo-Sul que está a desenvolver o projecto de construção da Ponte Maputo-Catembe e que pretende erguer três pilares dentro do recinto portuário.

Outro feito conseguido no ano passado pelo MPDC foi o terminal de cabotagem (que estava fora dos seus limites) que passou desde o mês de Junho a ser gerido pela empresa. Aquele terminal serve para atracação de navios que circulam na costa em actividades de âmbito nacional, enquanto o Porto de Maputo é internacional e está virado para importação e exportação.

Um terminal de cabotagem deve, em princípio, acomodar cargas que vão, por exemplo, até o porto de Nacala, Pemba, ou seja, para porto nacionais e, dado o estado em que se encontra e a limitação de espaço, estamos a pensar no que podemos fazer para melhorar a capacidade deste terminal”, referiu.

Entre as ideias que estão em cogitação, consta a pretensão de fazer com que o terminal de cabotagem acolha navios de passageiros e a criação de condições técnicas para que as operações de embarque desembarque sejam realizadas com maior segurança, contrariando o actual cenário em que desembarcam no mesmo espaço que os navios de carga.

O terminal de cabotagem tem uma profundidade de sete metros, mas vai permitir a transferência duma série de operações, tornando a utilização do Porto de Maputo ainda mais eficiente. Por outro, com a prestação de serviços de cabotagem na nossa economia vai tornar os serviços de transporte de Maputo para o resto do país e vice-versa mais baratos e oferecer aos importadores mais alternativas”, garantiu Osório Lucas.

A nossa Reportagem apurou que foram realizadas duas operações de transporte de mercadorias a partir do Porto de Maputo para Nacala e Beira que provaram que esta via é 40 por cento mais barato que o transporte rodoviário.   

Desafios continuam

Um dos desafios resultantes do crescimento do Porto de Maputo está ligado à protecção do meio ambiente, pois este lugar manuseia minérios diversos que atraem poeiras, o que seria diferente se trabalhasse apenas com contentores.

Com vista a evitar a degradação do meio ambiente está a ser implementado o plano de gestão ambiental e foram tomadas algumas medidas para reduzir o impacto das poeiras, nomeadamente alterar a posição de alguns terminais, plantio de árvores e irrigação de algumas zonas dentro daquele recinto.

De salientar que em 1971 o Porto de Maputo atingiu o recorde de 14 milhões de toneladas, um feito ultrapassado em 2012 com 15 milhões de toneladas. Já no ano de 2013 foram manuseados 17 milhões de toneladas e, até Novembro de 2014, tinha atingido uma cifra de 19 milhões de toneladas, o que significa que o porto registou um nível de crescimento, de 2013 para 2014, na ordem de dez por cento, de ponto de vista de volumes.

O MPDC movimenta 541 trabalhadores directos e cerca de três mil estivadores por dia. Em todos os terminais são cerca de dois mil trabalhadores directos e perto de 10 mil estivadores por dia.

Fotos de Jerónimo Muianga

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