TEXTO DE NEYMA DE JESUS
A madrugada de 30 de Janeiro de 1981 tornou-se memória incontornável para Moçambique e a República da África do Sul. O dia ainda não tinha nascido quando a violência atravessou fronteiras e a cidade da Matola foi abruptamente rasgada pelo ruído da guerra. A operação das Forças de Defesa da África do Sul foi autorizada pelo então primeiro-ministro do regime do apartheid, Pieter Botha, numa verdadeira violação da soberania moçambicana.
O objectivo era atingir membros refugiados do Congresso Nacional Africano (ANC), particularmente do seu braço armado, o uMkhonto we Sizwe (MK), que encontravam em Moçambique abrigo e retaguarda na luta contra o regime segregacionista sul-africano. Segundo explica Amisse Saíde, técnico do Centro de Interpretação da Matola, Moçambique acolheu o militantes do ANC, para, neste território, além de traçar estratégias, servir de ponto de passagem para Zâmbia, Zimbabwe, Tanzania e outros países.
Na brutal investida, três casas que serviam de refúgio transformaram-se em alvos e algumas vidas foram interrompidas, como as de treze membros do ANC, um português alegadamente confundido com Joe Slovo (uma das vozes mais firmes contra o apartheid), e três soldados sul-africanos. Reza a história que os atacantes entraram disfarçados, trajados de uniformes moçambicanos e executaram bombardeamentos simultâneos contra três residências situadas em diferentes pontos da cidade.
A agressão, que teve impacto além-fronteiras, soava como mais uma prova da violência sistemática de um regime que tentava, a todo o custo, sufocar os movimentos de libertação da África Austral. Os militantes mortos foram sepultados a 14 de Fevereiro, no Cemitério de Lhanguene, sob peso da dor colectiva e da solidariedade moçambicana. “Essa data foi declarada como Dia da Amizade, Solidariedade e Cooperação entre Moçambique e África do Sul”, diz Amisse Saíde. Desta forma, aquele ataque permanece vivo na história dos dois países e do mundo e figura como uma marca indelével na memória do povo sul-africano.
DOCUMENTAR E MANTER VIVA A HISTÓRIA
O facto vivido foi de tal modo simbólico que mereceu um monumento e centro de interpretação para documentar e manter viva a história. Assim, foi erguida na cidade da Matola uma infra-estrutura que, mais do que um espaço físico, representa um território de memória e transforma dor em consciência histórica.
Inaugurado a 11 de Setembro de 2015, de acordo com o guia, o monumento foi construído para guardar história político-social e cultural da relação entre Moçambique e África do Sul. A estrutura é composta por três obeliscos de cor vermelha, erguidos para representar as três casas que foram alvo do ataque de 30 de Janeiro de 1981. “As três casas estão distantes uma da outra. Uma representa a casa da Matola ‘C’, outra da Matola ‘A’ e a última está perto das salinas”.
Explica ainda que “a cor vermelha representa o sangue derramado naquelas casas onde os militantes do ANC foram surpreendidos a dormir, mas não totalmente desprevenidos, daí aqueles riscos vermelhos que significa que houve cruzamento de armas, houve troca de disparos”. Leia mais…


