POR EGAS DANIEL, economista
O ponto de partida mais importante é este: já não estamos apenas perante “risco geopolítico”. No início de Março de 2026, a escalada transformou-se em conflito militar aberto, com ataques dos EUA e de Israel ao Irão, retaliações iranianas, alargamento regional da instabilidade e perturbações relevantes no Estreito de Ormuz.
Reuters reportou que o conflito começou com ataques aéreos EUA-Israel cerca de seis dias antes de 5 de Março, tendo depois evoluído para novos bombardeamentos e resposta iraniana contra Israel e alvos no Golfo.
O FMI advertiu, a 3 de Março, que o impacto macroeconómico mundial dependerá da duração do conflito, dos danos em infra-estruturas e, sobretudo, da persistência do choque energético” (Reteurs, 2026; IMF, 2026).
1. ENQUADRAMENTO MACROECONÓMICO DO CONFLITO
O canal central desta guerra é energético e logístico. O Estreito de Ormuz continua a ser um dos principais estrangulamentos da economia mundial. Segundo a EIA, em 2024 e no primeiro trimestre de 2025 por ali transitou mais de um quarto do comércio marítimo mundial de petróleo e cerca de um quinto do consumo global de petróleo e derivados; além disso, cerca de um quinto do comércio mundial de GNL também passou por Ormuz. A UNCTAD acrescenta que o estreito suporta cerca de 11% do comércio mundial total, o que mostra que o problema não é apenas petróleo, mas também o custo do comércio internacional, seguros, fretes e fiabilidade logística (EIA, 2025; UNCTAD, 2025).
A gravidade económica decorre de um ponto cego frequente nas análises superficiais: não é preciso uma interrupção total e prolongada para haver dano macroeconómico relevante. Basta que os agentes passem a precificar risco de escassez, atraso, destruição de activos, subida de seguros marítimos e necessidade de desvio de rotas. Foi precisamente isso que Reuters e a presidente do BERD sublinharam em 5 de Março, ao notar que o fecho de Ormuz já estava associado a uma subida de 12% do crude e a menor apetite por investimento, mesmo antes de se observar uma ruptura global plena do abastecimento (Reuters, 2026; EBRD, 2026).
2. IMPACTO ECONÓMICO GLOBAL, OS MECANISMOS
2.1 Petróleo, gás e inflação mundial
O primeiro efeito é a subida do preço da energia. Em condições normais, a IEA estimava oferta petrolífera confortável para 2025 e 2026, com crescimento da oferta global e preços relativamente contidos, tendo o FMI regional assinalado que, fora do pico temporário associado às tensões Israel-Irão em Junho de 2025, o petróleo tinha permanecido maioritariamente na banda de 60 a 70 dólares por barril desde meados de 2025. Isso significa que o choque actual incide sobre um mercado que vinha relativamente bem abastecido, mas que continua vulnerável a um estrangulamento geopolítico.
Em termos analíticos, isto é importante, porque sugere que o conflito não cria escassez estrutural imediata, mas sim um prémio de risco e um potencial défice se a disrupção persistir (IEA, 2025; IMF, 2025). Leia mais…

