“Ensino Bilingue em Moçambique: Um espaço para o Exercício da Cidadania Linguística” é título da obra académica co-organizada por Feliciano Chimbutane e Christopher Stroud, que resulta de vários anos de investigação sobre a sociopolítica e a filosofia do multilinguismo, com especial enfoque no Ensino Bilingue Baseado na Língua Materna (EBBLM).
O trabalho, que reúne contributos de investigadores da Universidade Eduardo Mondlane e da Universidade de Estocolmo, foi lançado há dias em Maputo, sob a chancela da Ethale. Para abordar a relação entre o Ensino Bilingue (EB) e a cidadania, o jornal domingo entrevistou Feliciano Chimbutane, que explica os contornos de uma pesquisa que – entre vários – tem o objectivo de avaliar até que ponto aquela modalidade de ensino “pode contribuir para a democratização da nossa sociedade, de uma forma geral (…) ou para a expansão daquilo que é a agência, a participação na escola para contribuir para e transformação da sociedade”.
O foco está, de forma especial, no EB e no multilinguismo no sentido muito amplo do termo. Assim, “o que defendemos não é um multilinguismo que coloca o português e as línguas bantu em vasos não comunicantes”.
Nessa perspectiva, sustentam que é fundamental que se trabalhe para que as línguas moçambicanas e o português tenham o mesmo espaço, a mesma importância e o mesmo valor, “porque é isto que nós dizemos que é multilinguismo, não excluir uma ou outras”, mas, sim, “todas elas serem parte deste mosaico cultural que é Moçambique….Portanto, é fazermos a moçambicanidade com o português, que é parte da nossa identidade (apesar de algumas pessoas considerarem que não), e com as línguas moçambicanas”, até porque “a nossa identidade é mestiça, e é isto que o EB procura promover”, sublinha.
A obra traz um conceito interessante. Afinal, o que significa cidadania linguística?
Este conceito de cidadania linguística está a ser proposto por Cristopher Stroud, que é um dos co-organizadores deste livro. De uma forma geral, é um termo que é usado para descrever situações em que os falantes usam a língua ou outras formas de comunicar – incluindo a arte – para atingir transformação social, política e educativa. Portanto, usa-se a língua para participar ou exprimir a sua agência para contribuir para a transformação da sociedade.
De forma específica, como é que o EB deixa de ser apenas uma estratégia de ensino e passa a ser um acto de cidadania?
No nosso programa de pesquisa que dá origem a este livro, uma das coisas que procuramos saber é exactamente até que ponto o EB pode contribuir para a democratização da nossa sociedade, de uma forma geral, ou pode contribuir para a expansão daquilo que é a agência. Por que nós dizemos isto? Porque, como muitos sabemos, em Moçambique o ensino é basicamente em português, quer para crianças que chegam à escola falando português, quer para crianças que chegam sem falar esta língua. Leia mais…

