Desporto

Se dispor de terreno construo campo de futebol

José Fernandes da Silva Tavares,  patrão do Futebol Clube da Beira (FCB), colectividade que participou na poule de apuramento para o Moçambola 2014, na qualidade de vice-campeão de Sofala de 2013, diz dispor de condições para construir um campo de futebol, com balneários e centro de estágio, mas aguarda pela disponibilização de terreno pela edilidade.

Em entrevista ao domingo, na Beira, José Fernandes fala da necessidade de descongestionamento de futebol naquela que é a segunda maior urbe do país, com três clubes no “Moçambola”, o que passa por apostar na construção de mais campos.

Ele entende que num futuro próximo a Beira pode apresentar-se no campeonato nacional com mais equipas, em resposta à qualidade de futebol que se pratica na cidade.

José Fernandes é um português vivendo em Moçambique. Praticou futebol, mas um “acidente de percurso” o retirou dos campos. Desde 2010 é treinador de futebol do segundo nível europeu. O ano passado levou a equipa do FC Beira, criada em 2013, no Bairro de Chingussura, a poule da Zona Centro, com os custos de todas as despesas a seu cargo.

“Investia e fazia o acompanhamento técnico, complementando o trabalho da equipa técnica”, explica.

Para este ano tem traçado como principal objectivo do FC Beira “a qualificação para o Moçambola de 2015”. Conta com os conhecimentos de Betinho (antigo jogador do Matchedje de Maputo, campeão de 87 e 90).

“Quero um clube sustentável, que não dependa somente de mim”, confessa.

“Por mês pago quatro mil meticais pela ocupação do campo da Universidade Católica (ai onde era Irmãos Maristas, mais tarde EFEP da Beira). Se aquele terreno fosse do clube, eu já estaria a construir bancadas e balneário, mas não posso fazer isso no espaço alheio”. 

Sendo o FC Beira, uma colectividade pertença do Município da Beira, com cores e bandeira semelhantes, José Fernandes diz ter encetado esforços de dialogar com as autoridades municipais beirenses para a obtenção de um terreno onde possa erguer o campo do clube que ele considera ser de “todos os beirenses”. 

“Há dois anos que venho esperando da audiência com o presidente do Município da Beira, ao qual lhe quero manifestar o interesse que tenho de construir um novo campo para esta cidade, o que passa por lhe pedir terreno para o FC Beira. No mesmo recinto vou criar espaços para o alojamento de jogadores, com quartos e salas de refeições. Para essas obras não me faltam patrocinadores”, garante.

Neste momento o FC Beira tem a sua sede no Bairro de Chingussurra, mas Fernandes vem trabalhando para a sua transferência para a baixa da capital de Sofala. Na direcção do clube conta com “a indispensável colaboração de César, que exerce as funções de secretário, e na condução técnica da equipa com a colaboração de Betinho, duas pessoas humildes e sérias”.

DO TÊXTIL PARA FC BEIRA

José Fernandes foi treinador do Têxtil do Púnguè até a uma semana do inicio do Moçambola de 2013. Hoje, afastado daquele clube, desabafa dizendo que “ tem gente que não faz nada para o futebol”.

Porém, já percebeu que não é só no Têxtil onde esse tipo de gente existe, pelo que afirma “ aqui há pessoas que só querem aparecer no futebol sem fazer nada pelo seu desenvolvimento. Eu quero fazer algo pelo futebol moçambicano para que quando for embora deixe bom exemplo”.

Quando abraçou o projecto do FC Beira diz ter injectado dinheiro para até um dia ouvir que tinha sido vendido.

“…Depois vieram bater a minha porta, aceitei até levar a equipa a poule, tendo o município apoiado com 97.000,00Mts para a sua filiação. Antes da recepção desse valor, alguém tirou do seu bolso (?) essa quantia por empréstimo que lhe seria reembolsado”, refere.

José Fernandes lembra-se de um episódio caricato, por parte de alguém do clube. Conta que nessa altura havia sido vendido o jogador Leandro à Liga Muçulmana de Maputo.

“Foi com o valor da venda do jogador que alguém deu por empréstimo dinheiro ao clube. Quer dizer, emprestou-se ao clube o dinheiro da venda do jogador Leandro. E até hoje não sei do paradeiro dos dois equipamentos dados pela Liga no âmbito da compra do jogador”.

Sem favores clubes 

de Maputo não serão

sempre campeões

A ambição de José Fernandes é levar o FC Beira ao Moçambola, mas de forma limpa, porque não quer que seja através de viciação de resultados.

“Vou lutar para que FC Beira chegue ao Moçambola. Mas ao meio da época ou no fim quando notar que não tenho condições para lá estar, não vou a poule”, deixa claro.

“Na poule do ano passado tivemos uma falta de comparência por culpa da Federação Moçambicana de Futebol (FMF) que não respondeu ao nosso pedido de adiamento de jogo devido a tensão política que não garantia segurança de circulação”, esclarece.

 Se de tanto ambicionar chegar ao Moçambola admitia negociar resultados com os árbitros ou com jogadores doutros clubes, José Fernandes responde que “ não admito viciação de resultados. Eu sei que os outros se preparam para isso. Da forma como um determinado clube subiu para o Moçambola deste ano, qualquer outro o faria mesmo sem uma boa equipa. Eu não gostaria de ir ao Moçambola por indicação. Há coisas más no futebol que devem ser evitadas”.

No seu entender, os que sobem devem fazê-lo por mérito próprio. “Moçambique deve apostar num futebol cada vez mais limpo. Na poule do ano passado tivemos pontos com todos, menos com o Ferroviário de Quelimane. Em Quelimane quisemos não regressar ao campo depois do intervalo. Ficamos quinze minutos parados. O Textáfrica teve que não regressar ao campo…”

Sempre com o cuidado de não ofender a ninguém, José Fernandes fala do que julga que pode estar a acontecer no nosso futebol ao mais alto nível, ainda na senda de resultados viciados.

“Olha, se não houvesse esquemas, talvez houvesse campeões que ninguém os imagina. Era difícil a Liga Muçulmana não ser campeã. O Ferroviário da Beira não o foi por culpa própria. Se não houvesse esquemas os clubes de Maputo não seriam sempre campeões nacionais”.

Debruçando-se sobre o a composição do Moçambola, o nosso entrevistado adverte para o facto de a prova vir a ser disputada só por ferroviários no futuro.

“Da maneira como as coisas são desenhadas, o país corre o risco de ter uma liga de futebol só com ferroviários. Nessa altura, os outros clubes formarão a sua liga”, vaticina.

José Fernandes, 43 anos, está em Moçambique desde Agosto de 2011. Desenvolve actividades no sector de construção. Diz-se lutador e que vai à luta em tudo que sabe que é capaz.

“Tenho coração maior que a alma”, diz. Enquanto estiver ao serviço do futebol moçambicano quer formar jogadores “que possam ir jogar em Portugal ou em qualquer lado do mundo sem favores. Meu sonho é um dia puder ajudar a Selecção Nacional de Moçambique a fazer um pouco mais do que tem vindo a fazer. É preciso potenciar jogadores como Avelino que foi mal trabalhado no Têxtil, mas pode vir a ser muito útil à selecção”.

Manuel Meque

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