Desporto

Moçambola deve levar alegria para todo povo

– Ananias Couana, candidato a presidente da Liga Moçambicana de Futebol (LMF)

Ananias Couana é o candidato da continuidade do actual elenco da Liga Moçambicana de Futebol, devendo ser confirmado em Novembro próximo sucessor de Alberto Simango Jr., ora eleito para dirigir a Federação Moçambicana de Futebol (FMF).

Couana integrou os elencos que dirigiram a LMF nos últimos anos, portanto, não é estranho aos problemas dos clubes e da própria LMF, conforme fez questão de sublinhar em conversa mantida com o domingo.

A sua candidatura resulta duma vontade maioritária dos membros do elenco cessante, os quais, encontram em Couana capacidades para prosseguir com o projecto iniciado há sensivelmente oito anos. 

Sr. Couana, confirma a sua candidatura a presidente da Liga Moçambicana de Futebol?

Confirmo a existência duma vontade colectiva em torno da minha figura para ser candidato a presidente da Liga Moçambicana de Futebol. A Assembleia Geral que vai eleger o próximo elenco ainda não está marcada, portanto, ainda não sou candidato.

No seu entender, que aspectos imediatos há a melhorar na relação com os clubes. Pergunto-lhe considerando que integra o actual elenco.

Em termos da relação com os clubes, sentimos que devemos continuar a melhorar. Há alguns anos os campos apresentavam-se em piores condições, hoje a realidade é diferente para melhor. É verdade que não é a Liga que vai reabilitar e construir campos, mas a nossa forma de estar deverá pressionar os clubes a melhorarem as infra-estruturas. Queremos, por exemplo, que gente de Maputo regresse aos campos de forma massiva, não apenas quando jogam Maxaquene e Costa Sol. Temos que trazer ideias próprias para que o futebol seja atractivo, e ai contamos muito com a comunicação social. A antevisão dos jogos é importante. Não estamos a dizer que é problema da comunicação social, mas devemos reflectir sobre o papel de cada agente. Em Quelimane ou Nacala não se coloca esse problema, e não é porque as pessoas não tem mais nada a fazer, como já ouvi. Então se o jogo é no domingo o que fazem noutros dias da semana? As pessoas têm coisas a fazer e demostram que vivem intensamente o futebol, apesar de às vezes excederem-se. Tem reacção de gosto do futebol. O Moçambola deve ser alegria para todo povo moçambicano, em todos cantos do país, mesmo nas províncias que não tenham um representante na prova.

ATRAIR MAIS PARCEIROS

Concorda que as más arbitragens afastaram o público dos campos, sobretudo na Cidade de Maputo?

É preciso fazermos um diagnóstico, com dados estatísticos claros. Se estamos a dizer que queremos trazer mais pessoas aos campos, temos que ter primeiro quantas pessoas vão hoje e que numero pretendemos atingir daqui a um, dois ou três anos. Só ai poderemos um dia dizer que o indicador foi atingido. Ao fazermos esse diagnóstico poderemos estar claros do papel de cada agente. Se for a arbitragem temos que melhorar. Se o défice for na comunicação social, então esta tem de fazer o seu papel de melhor forma. Se for o clube, nos acessos e qualidade dos recintos, temos que melhorar. Se é a falta de golos, que se formem melhor os finalizadores. Portanto, temos que diagnosticar razões para melhor actuarmos, porque o espectáculo de futebol está presente nos jogos do Moçambola. A Liga sempre fez o seu trabalho com os árbitros, comunicação social e associados, mas entendo que é uma acção contínua a ser melhorada.

O orçamento do “Moçambola” tem sido deficitário. Como ultrapassar esta dificuldade?

O orçamento disponível não permite fazer investimentos. É um orçamento para realizar a prova imediatamente, de forma apertada. Assim não podemos ter um plano de investimento, não temos capacidade de entrar na instituição e sentirmos que é aqui onde se gere o futebol profissional de Moçambique. Entendo que é preciso investimento para melhorar as condições das instalações onde funciona a própria Liga. A infra-estrutura é um desafio. A Liga tem de ter instalações próprias, se não forem próprias, tem de ser melhoradas. 

O trabalho que vamos fazer tem de nos conduzir a isso. Isso significa trazer mais patrocinadores de qualidade. Teremos que espreitar a política do Governo em relação a política social das empresas, em que áreas devem actuar. Temos que ir buscar mais patrocinadores ou parceiros.

Como encara o desafio popular de um “Moçambola” mais abrangente, com clubes de todas províncias?

É possível, mas temos que pensar no modelo de qualificação ao “Moçambola”. O campeonato que se joga em todas províncias é o provincial. Temos que pensar como os clubes se qualificam e como são despromovidos. Os clubes devem estar preparados para manter-se no “Moçambola”. Oportunidade todos têm. Maputo já teve oito clubes no “Moçambola” e hoje tem cinco. A competitividade tem de ser maior, se os lugares forem cativos a competição vai certamente reduzir. A manutenção é, em si, uma competição aliciante para os clubes. Contudo, é uma discussão em aberto, mas vamos esperar o modelo da segunda liga da federação. A nível da LMF, julgo que temos que consolidar o “Moçambola” para depois pensarmos numa segunda liga. Aumentar o número de clubes também acarreta infra-estruturas. Há cidades com apenas um campo disponível. Este ano o Ferroviário de Nampula iniciou o campeonato sem campo em toda Cidade de Nampula. O aumento de clubes tem de nos levar a pensar também nas infra-estruturas. Se a ideia de campos municipais se materializar, com iluminação e todos acessórios, vamos repensar. A Taça da Liga BNI, por exemplo, tem tido jogos quarta-feira à tarde, mas podia ser à noite se tivéssemos campos iluminados.

MOÇAMBOLA TEM BOM NÍVEL

A Liga tem fama de ser uma entidade transparente e idónea. Está preparado para manter esse nível?

É positivo e é por isso que nos convidaram a avançar para o trabalho. É um terreno que conhecemos, não movediço, são valores ganhos pela transparência, honestidade e abertura. Se as leis moçambicanos permitirem que o cidadão comum audite as contas, melhor ainda. Vamos manter esse espirito de transparência na gestão dos fundos, que na essência são canalizados aos clubes. As assembleias terão que ser regulares. Podemos até melhorar os padrões de apresentação de relatórios porque temos empresas de auditoria internacionalmente reconhecidas. Se houver necessidade duma auditoria própria do Governo estaremos sempre disponíveis.

Está satisfeito com a qualidade do Moçambola?

Muitas vezes, a questão da qualidade do futebol praticado em Moçambique  é colocada por pessoas que não se apresentam nos campos. Nós que vamos assistir os jogos notamos que apesar do estádio não estar cheio, vemos que há grandes jogos de futebol. Mas não é só no futebol, há tendência geral de dizer que o que é moçambicano não é bom. Infelizmente, nos finais dos jogos, há treinadores com tendência de dizer o que no jogo não foi bom do que fazer a leitura do próprio desafio. Um dos nossos desejos é ver os jogadores a falarem mais de futebol, porque são os actores principais do espectáculo. É necessário aplicar os regulamentos. Houve melhorias em termos do próprio traje dos atletas e técnicos, os treinadores tem estado disponíveis para falar no final dos jogos. Os regulamentos devem ser analisados para verificar se há ou não necessidade de revisão. Devemos verificar se os instrumentos normativos ainda respondem à realidade actual. Há necessidade de revisão dos regulamentos. Nós ainda penalizamos jogadores por seis ou quatro anos. E depois o que acontece? Temos que reflectir e aprender do que acontece a nível internacional. Já vimos jogadores pelo mundo fora a cumprirem penas só numa prova, podendo jogar noutra. Temos que revisitar alguns regulamentos. Portanto, o “Moçambola” tem um bom nível, mas junto-me a todos aqueles que defendem que devemos continuar a nos esforçar para melhorar ainda mais, exportando mais jogadores e também importando atletas de qualidade. A nossa qualidade tem de ser referência internacional, primeiro na nossa região.

Alargar a cooperação internacional

Como encara o desafio de inserção internacional da LMF?

Temos a nossa história que é ligada aos portugueses, que facilmente nos apoiam. A nossa perspectiva é de nos abrirmos aos outros e irmos buscar o que é de bom e adaptarmos á nossa realidade. Significa que queremos fortalecer a cooperação com outras ligas, não só saberem que Moçambique tem uma Liga, um campeonato, é preciso que haja um relacionamento com termos concretos de cooperação. Temos aqui na zona os países da região, fala-se mais do comércio, de segurança, mas há uma componente social pouco explorada. Por que, por exemplo, a Taça Cosafa é dos países da SADC e entre as ligas não há uma conversa? Na Europa apontamos a cooperação com Portugal. Vamos definir em que áreas em termos institucionais podemos colaborar.

Ganhar o desafio
das transmissões televisivas

Com Ananias Couana abordamos também as transmissões televisivas dos jogos, cujo retorno tem sido reclamado pelos clubes envolvidos no “Moçambola”. O nosso entrevistado defende que a qualidade das próprias transmissões pode internacionalizar o campeonato moçambicano.

– Não podemos olhar as transmissões televisivas somente do ponto de vista financeiro para os clubes. Queremos transmissões televisivas de qualidade. O nosso desejo é que quem estiver em casa, no lugar de assistir um canal duma liga estrangeira, sintonize o “Moçambola” com uma transmissão de qualidade. Para isso é necessário que os clubes, a liga e as próprias televisões se organizem devidamente para atingirmos os padrões internacionais. Não é qualquer tipo de transmissão televisiva que vai para os canais internacionais. Há a questão da qualidade do sinal. A cooperação é importante para superarmos este desafio.

Fotos de Jerónimo Muianga

Custódio Mugabe
custódio.mugabe@yahoo.com.br

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