Desporto

Chidenguele abre caminho para chegar ao Moçambola

Embora não seja essa a intenção imediata da direcção presidida desde 25 de Maio de 1978, data da sua fundação, por Rogério Pereira da Silva, o Clube de Desportos de Chidenguele pode figurar, a curto prazo, no “Moçambola”, prova máxima do calendário futebolístico nacional.

Entrega dos jogadores e treinadores, pagamento a tempo e horas de salários e prémios de jogo, infra-estruturas adequadas e infra-estruturas invejáveis são factores que muito concorrem para o futuro melhor do clube que vem sendo construído de ano para ano e de pedra a pedra.

O clube de Chigenguele tem disponíveis dois campos, um relvado para jogos e outro pelado para treinos, balneários separados para jogadores, treinadores, árbitros e público, um lar para os atletas, estes maioritariamente forasteiros, um centro social e uma carrinha de 30 lugares, tudo de invejar por maior parte dos clubes do Moçambola 2014.

Não se trata de um clube qualquer. Foi o primeiro clube de Gaza a ter estatutos reconhecidos. Há dez anos que organiza a festa do Natal da Criança. A pequenada recebe material escolar e é proporcionada música por artistas nacionais. Este ano o festival será especial, por ser o décimo, devendo iniciar às 8 horas e terminar às 17 horas.

O Clube de Chidenguele não pratica somente futebol. Vela, canoagem e concursos de pesca desportiva também são movimentadas. Está em preparação, em parceria com o Clube Marítimo de Maputo, uma regata de vela e canoagem na Lagoa de Nhambavale, que acolheu provas dos X Jogos Africanos de 2011.

Em Outubro o clube vai organizar um concurso internacional de pesca desportiva de margem, em homenagem ao sócio e dirigente Hélder Rito, falecido a 29 de Maio de 2014.   

Temos condições

para ser campeões de Gaza

– Jorge Muchanga, treinador

Jorge Muchanga, mais conhecido por Jorgito, treinador principal, diz que por tudo que a direcção faz para não faltar nada ao grupo de trabalho, com salários e prémios de jogos pagos a tempo e horas, já este ano o clube merece título de campeão provincial para consequente participação na “poule” de apuramento para o “Moçambola” de 2015.

“O presidente do clube, Roberto Pereira da Silva, não nos pediu título, mas que dignificássemos a camisola. Porém, nós julgamos que, apesar de termos arrancado mal, vamos a tempo de disputar lugares cimeiros”, entende Jorgito, para quem Chidenguele “é o exemplo de um clube que cumpre com tudo que promete, sem atraso.”

Jorgito refere que “o atraso na classificação deveu-se a adaptação de certos jogadores e lesões. Tudo faremos para cumprirmos com o nosso principal objectivo, que é oferecer título provincial ao clube, com olhos postos no Moçambola. Temos condições para isso. Estamos no clube certo, com infra-estruturas próprias e com um presidente que vive a vida da colectividade vinte e quatro horas. É imperativo para qualquer treinador com ambição querer a curto prazo chegar ao Moçambola.”

Por vezes os clubes dispõem de todas as condições, mas falta-lhes jogadores de qualidade. No Clube de Chidenguele não falta nada, garante o “mister” Jorgito.

“O clube tem bons dirigentes, boas condições de trabalho e bons jogadores. Assim está criado o básico para se chegar ao Moçambola. Temos que retribuir o esforço da direcção, na pessoa do presidente Rogério.”

Jorgito revela que a primeira aposta “era formar uma equipa consistente, para daqui algum tempo disputar o título provincial, mas pessoalmente, avaliando o nível dos adversários e qualidade das nossas condições e jogadores, sinto que isso pode ser agora.”

O constrangimento do Clube de Chidenguele apontado pelo treinador “ é de haver mais gente apoiante das equipas forasteiras que a nossa, mesmo a jogar em casa. Algumas pessoas, incluindo antigos dirigentes, festejam nossas derrotas. A isto se associa a arbitragem tendenciosa, que faz com certos adversários mandem em nossa casa. Gostaríamos que nos apoiassem e nos deixassem jogar.”

Jorge Muchanga iniciou-se no futebol na escola de jogadores de Zixaxa, cidade de Maputo. De 84 a 85 representou Mahafil, tendo de 86 a 90 jogado pelo Desportivo de Maputo de juvenis a seniores. Passou para CETA, na altura clube satélite do Desportivo, onde fez quatro épocas. Voltou para o Mahafil por duas épocas. Em 1997, no Nova Aliança de Maputo, termina a sua carreira de futebolística.

Ainda jogador juvenil frequentou curso de treinador do primeiro nível. Em 1992 ganha BEBEC pelo Bairro de Xipamanine. Inicia carreira federada no Desportivo, pela mão do então dirigente Carlos Duarte, já falecido. Até 2000 treinou todos os escalões de iniciação até júnior. De 2000 a 2002 trabalhou no Estrela Vermelha de Maputo. 2003 a 2011 no Munhuanense Azar. 2012 -2013 no Atlético de Mecanhelas, no Niassa. 2014 ingressa no Clube de Chidenguele.       

Gostaria de ser

profissional da bola

– Francisco Manhiça, melhor marcador

Francisco Frederico Manhiça, alcunhado de Chikene, é dos melhores jogadores que desfilam no plantel do Clube de Desportos de Chidenguele. É um ponta de lança. No campeonato provincial de Gaza desta época em nove jogos marcou cinco golos, o que não lhe satisfaz. Por isso, promete mais, porque diz-se capaz. Já foi melhor marcador dos campeonatos juvenis a jogar pelo Albasini, Mahafil, Atlético e segundo melhor goleador no Costa do Sol.

Chikene, autor do primeiro golo da goleada de 4-0 com que Clube de Chidenguele bateu domingo a equipa de Massingir, diz que tem estado a jogar a pensar em um dia “aparecer destacado no futebol profissional, o que passa por primeiro levar o Chidenguele para o Moçambola, que é a maior montra do nosso futebol, o que é possível, porque somos um grupo de trabalho muito talentoso e bem atendido.”

O pequeno craque de 20 anos considera que o ambiente de Chidenguela, uma pequena vila que cresce debaixo de árvores, é bom para um atleta.

“Esta acalmia que se vive aqui nos permite pensar apenas no futebol. Quando acordamos só pensamos em treinar. Nada nos atrapalha. Isto é tão pequeno que não dá para exageros”, sublinha Chikene que iniciou no futebol através do BEBEC representando Polana Cimento, em Maputo, no ano de 2005. Fez iniciados no João Albasini.

Em 2009 representou Mahafil. Em 2010 vence Taça Maputo pelo Atlético Muçulmano, em juvenis sagra-se campeão provincial. No campeonato nacional realizado em Vilankulos marcou três golos.

Devido ao seu jeito de jogar e marcar golos, foi convidado pelo treinador Artur Comboio para ingressar na equipa júnior do Costa do Sol, com qual em 2012 vence torneio de abertura, campeonato da cidade e Taça Maputo. No campeonato nacional, na cidade da Beira, o Costa do Sol foi eliminado nas meias-finais pelo Vilankulos.

No seu primeiro ano de sénior, 2013, Chikene representou Kape-Kape, treinado por Nordino.

Chikene parou de jogar no meio da época de 2013 para tirar cursos de inglês e informática. Fez a informática primeiro nível. Ficou para trás o inglês.

Diz ter concorrido para Universidade Eduardo Mondlane, onde queria frequentar a administração pública ou sociologia. Chegou ao Clube de Desportos de Chidenguele pelas mãos do treinador Jorgito, este ano.    

O presidente “faz tudo”

O presidente do Clube de Desportos de Chidenguele é um caso raro no nosso futebol. Ocupa o cargo desde que se fundou o clube a 25 de Maio de 1978. Portanto, é presidente 36 anos consecutivos, primeiro como jogador presidente. Em Moçambique deve ser único com esta longevidade. Sua vida se confunde com a do clube.

As Assembleias-gerais para prestação de contas são anuais. E de quatro em quatro anos há eleição de novos corpos gerentes do clube, sempre com Rogério candidato, como será em Fevereiro de 2015.

A outra característica que o distingue doutros presidentes de clubes moçambicanos é fazer tudo. Rogério é o empreiteiro, o mestre, o pedreiro de todas as obras que são erguidas no espaço do clube. Dois outros espaços estão por explorar. É ele quem corta a relva do campo. Quando é preciso pintar é ele quem pinta, quando é preciso colocar fechadura na porta, é ele quem o faz, etc., etc. Desse modo Rogério não permite que os desempregados locais façam algo de ganha-pão no clube. Trabalha com um grupo de pessoas sobre os quais deposita alta confiança. Mas quem o discorda de qualquer maneira ou o tenta trair tem a porta aberta para sair a correr.

Costuma-se dizer que só quem trabalha recebe críticas. É isso mesmo que acontece com Roberto Pereira da Silva, o Pinto da Costa do Clube de Desportos de Chidenguele. Embora se reconheça que graças a ele o clube anda “limpo” e de boa saúde, muitos o consideram de “imperador” que não ouve a opinião dos outros, sobretudo daqueles que em nada contribuem para a vida da colectividade.

Clube de Chidenguele tem 150 sócios, vive muito à custa das doações de um grupo de sócios residentes na capital do país, que são os seus patrocinadores. Dos sócios locais não chegam dez que conseguem pagar mensalmente a quota de dez meticais.

Rogério Pereira da Silva, que se fazia acompanhar doutro fundador do clube, Fernando Simões, depois do jogo de domingo passado, revelou ao domingoque o seu maior sonho “é ser campeão provincial de Gaza. O resto é o que Deus quiser.” 

Na mesma ocasião presenciamos a entrega de três mil e quinhentos meticais pelo sócio fundador Fernando Simões para as despesas de deslocação da equipa na próxima jornada do campeonato provincial. O outro sócio fê-lo para a deslocação da equipa hoje para Chókwè.

Quando o futebol arrasta o turismo

Durante toda a semana só se falava do jogo entre Clube de Chidenguele  e Vespas de Massingir, em mais uma jornada do campeonato provincial de Gaza, primeira volta. Nós reportávamos tudo o que se dizia desse embate, ao mesmo tempo que percebíamos da paixão dos locais pelo futebol.

“Diz – me lá senhor, um jogador que fica a beber até às quatro horas do dia do jogo pode render?”, questionava uma dona de quiosque que nos afiançou haver muitos jogadores que amanhecem nas barracas que circundam o Clube de Chidenguele.

Mais tarde, a mesma senhora, já na presença do treinador principal do Clube de Chidenguele, Jorgito, irmão do falecido Cabral, ex-jogador do Desportivo de Maputo, falecido recentemente, dizia haver um professor “que tem estado a ameaçar chumbar todas as suas alunas que estiverem a namorar com os jogadores do Clube de Chidenguela.

Ficamos sem saber se essa atitude visava proteger jogadores ou suas alunas. Porém, maus resultados que por vezes assolam a equipa, como as duas goleadas de 4-0 consecutivas que sofrera, inquietam os adeptos de futebol local.

Quando o jogo é ao domingo, as pessoas primeiro vão às suas igrejas. Até as 15 horas fica-se com a sensação de que ninguém quer ir ao jogo. Muitos se dirigem ao campo quando está a iniciar o desafio. Dois cidadãos de origem asiática são tidos dos primeiros a entrarem para o campo, tal como os vimos.

Facto muito curioso, mas benéfico para o futebol, é não ver ninguém a embriagar-se para entrar ao campo de jogos. Quase todos entram para o campo sem álcool no organismo.

Depois do jogo o que se assiste na vila de Chidenguele é o contrário, é coisa espectacular. Quase ninguém se dirige à casa. Começa qualquer coisa que se pode denominar de “feira de álcool”, que se prolonga até à madrugada, com uma miscelânea de música produzida pelas barracas e restaurantes. É toda gente a beber e a se divertir doutras maneiras, em um ambiente tipicamente turístico, tal como é Chidenguele no seu todo, aquele belo pedaço de terra pertencente a província moçambicana de Gaza, onde cabem turistas nacionais e internacionais, ricos e pobres.

 No domingo que estivemos lá, foi dia diferente para Clube de Chidenguele, que possui bons rapazes de futebol, pois, ganhou por 4-0 ao Vespas de Massingir, em partida ajuizada pelo árbitro Ainad Ussene, agora filiado na comissão provincial de árbitros de futebol de Gaza.

 A goleada fez dobrar o prémio de jogo dos atletas e treinadores. O presidente do clube havia prometido dobrar o prémio se a equipa atingisse a marca de 4 -0. O prometido pelos jogadores e pelo presidente foi cumprido.

Para nova festa, em Chidenguele, até próximo jogo! 

Manuel Meque

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