Desporto

Cândido, Coluna e Manuel Jorge serviram o desporto sem se servirem dele

Na galeria restrita dos homens do desporto que serviram a causa, primeiro como atletas e depois como dirigentes, servindo-a sem se servirem dela, cabem, de corpo inteiro, os recém-falecidos Cândido Coelho, Mário Esteves Coluna e Manuel Jorge.

O ATLETA DO SÉCULO

Serão sempre insuficientes as lágrimas dos “alvi-negros” e da “Nação Desportiva” em geral, para chorar o desaparecimento este ano de Cândido Coelho que foi, simplesmente, o maior e mais eclético atleta que vestiu aquela camisola e um dos três melhores do século, a nível nacional, a par de Lurdes Mutola e José Magalhães.

De crónico vencedor nas pistas em várias especialidades pois era decatlonista (atleta que compete em 10 provas, sob pontuação) ele fazia também basquetebol, hóquei em patins, futebol e futebol de salão, sendo por isso conhecido como o senhor dos cinco anéis.

Em pleno fulgor das suas capacidades e com contrato assinado com o Benfica de Lisboa, o “Becas” decidiu-se por permanecer no país, pois a sua ida para Portugal aconteceria por alturas em que o nosso País proclamava a Independência Nacional.

Assim sendo, dividindo as pistas e os campos com a balalaica, iniciou uma carreira de dirigente desportivo e mais tarde de treinador de futebol, com um inédito título à frente dos “alvi-negros”, conquistado logo no final da 1.ª volta.

MONSTRO SAGRADO

O seu passado fala por si, numa carreira mundial ímpar no Benfica de Lisboa, onde foi bi-campeão europeu e na Selecção portuguesa.

O seu regresso a Moçambique deu-se em “contra-mão” relativamente a muitos cidadãos aqui nascidos. Coluna, ao invés da vida confortável que o seu nome e prestígio lhe garantiriam na Europa, preferiu vir partilhar das dificuldades que o seu país vivia no pós-Independência.

Como treinador conseguiu, à frente do Textáfrica, sagrar-se primeiro campeão nacional de Moçambique. Depois foi uma pedra importante em vários projectos, tanto no Ferroviário como na Selecção Nacional, com uma passagem pela Presidência da FMF que trouxe prestígio e dividendos para o País.

A sua larga experiência, explanada sempre com calma e a partir da sua voz pastosa, beneficiaram muitos treinadores e atletas. A simples presença do Monstro Sagrado no banco ou na direcção das equipas, honraram e foram motivadoras para chamar à atenção do Mundo para a nossa realidade.

MANUEL JORGE

Fundador e 1.º Presidente da FMF, organizou e fez convergir para Moçambique os olhos de África e do Mundo, nos primeiros (e difíceis) passos do desporto-rei desta Pérola do Índico.

Tudo era novo e desconhecido naquela altura. O país vivia ainda a efervescência da Independência Nacional e o futebol, num mar de dificuldades, era uma das formas de afirmação do nosso surgimento no “planeta” das Nações.

Adepto confesso do Desportivo de Maputo, a quem dedicou uma grande parte do seu saber, primeiro como futebolista e depois como dirigente, acabou sendo a “lanterna” que iluminou e abriu espaço para a caminhada do nosso país no pós-independência.

Manuel Jorge, poliglota, com uma posição e um cargo numa empresa de prestígio, sacrificou muitas horas do seu descanso, usou toda a sua capacidade para (re)conciliar vontades e adversidades entre clubes, árbitros e dirigentes, colocando sempre em lugar próprio a sua paixão pelo clube “alvi-negro”.

Cândido Coelho, Mário Coluna e Manuel Jorge. Três ícones que nos deixaram recentemente, três homens do desporto cujos nomes não se apagarão da memória de quem realmente ama a nossa terra e o nosso desporto. Daqui vai o alerta para que os municípios e outras entidades se recordem deles, tentando imortalizar os seus nomes em avenidas, praças ou estádios, ao nível das suas obras.

 

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