Desporto

As confissões de um “papaieiro”

Que os orçamentos alocados pelo Estado não chegam, já todos sabem; que as infra-estruturas se estão a degradar, também não é novidade; que os jovens são mais tentados em optar pelos “games” ou pelas drogas, ninguém duvida; que o cimento nos está a asfixiar, está à vista de todos.

Mas há que começar por escalpelizar o assunto, a partir da figura central: o adepto, de cujas intenções às acções vai um enorme espaço.

E porque é verdade que os nossos resultados a nível internacional têm sido maus, a movimentação exígua e o interesse no geral pelo desporto morno, aqui trazemos, na 1.ª pessoa, as ideias do “dito cujo”. Ele costuma a marcar presença nos campos e nas Assembleias Gerais do clube, em que nunca perde a ocasião de agitar o ambiente. É, em permanência, o líder dos descontentes, falando em nome da maioria.

PRIMEIRO O BENEFÍCIO

Vejamos então a curiosa entrevista que lhe fizemos e diga, estimado leitor, se não vê similaridade com alguém que conhece.

– É sócio ferrenho de algum clube?

– E como! Sou sempre o primeiro, quando o meu clube perde, a pedir a cabeça do treinador, ou mesmo a do Presidente.

– E tem as quotas em dia?

– Para que serve a integração? O meu clube vive do orçamento da empresa integradora, tutelada pelo Estado, que vive dos nossos impostos. A contribuição monetária que dou, quando muito é ao Centro Social do clube, onde a cerveja tem uma sobretaxa de 5 meticais!

– Assiste aos jogos?

– Quase sempre, sobretudo quando estou “txonado” e nenhum “brada” me convida a beber um copo. Às vezes saio de casa, equipado a rigor, mas se o pessoal da zona está reunido numa cantina a que chamamos de Parlamento, mesmo com o bilhete no bolso, desvio a rota. Prefiro ver o jogo pela televisão, ao lado de uma “loirinha” bem gelada.

FÃ DO CR 7

– Já aceitou algum convite para fazer parte de uma Associação, Federação ou coisa do género?

– Fiz parte da Direcção, mas logo desisti. Afinal aquilo não dava mola e nem sequer ganhei uma viagem à Suázi. Trabalhar assim não dá, pois entretanto a minha malta está a “tchilar” nas barracas e eu a perder tempo a ensinar as criancinhas a correr…

– Mas são os nossos filhos. A propósito:costuma ver o Cristiano Ronaldo na TV?

– O CR7? Aí, pode haver um funeral, que não perco por nada deste mundo um jogo Real-Barça. Quer que lhe diga quais são os 22 titulares?

– Não. Eu preferia que me dissesse quem é o nosso campeão de salto em altura…

– O quê? Isso é perder tempo. Estes gajos não prestam. Na Europa é que vale a pena. E nos Estados Unidos, nem falo. Aqueles é que são atletas, altos e fortes! Afinal tu és pobre e não vês televisão?

– Mudando um pouco o rumo da conversa. Tem filhos? Eles praticam desporto?

– Claro. São dois rapazes e gostam de natação. De vez em quando trazem umas medalhas para casa, mas ainda não tive tempo de os ir ver a nadar. Falaram-me de um torneio Petromoc que movimenta muita miudagem. Convidei os meus “bradas”, para lá irmos mas nem sequer me deram uma resposta. Um deles chamou-me de maluco. Mesmo assim, por acaso um dia destes decidi ir à Piscina Raimundo Franisse, pois o meu filho mais novo ia tentar bater o seu recorde. Só que pelo caminho vi a minha “segundinha” numa barraca a tomar uns copos e não resisti, mudei de rumo.

– Mas era um bom incentivo para o miúdo, ver o pai na bancada…

– Pois era. Mas entre uma boa causa e uma saborosa causa, acompanhada de um bom papo, qual seria a sua opção?

FUTEBOL E MOLA

– Como é que o amigo pensa que se pode então dar à volta para melhorar o nosso futebol?

– É preciso “mola”. O Governo tem que investir. Não há outra maneira. Você sabe quanto ganha o Mourinho, o Messi?

– Calculo. Mas é necessário começar pela base, reconstruir o país, investir no futuro, como outrora se fez com Eusébio, Coluna, Matateu e outros.Não há milagres…

– É pá! Estou velho, já fiz a minha parte. Agora deixem-me curtir uns copos e gozar a vida. Você acha que vou perder um fim-de-semana a assistir uns putos infezados que nem sabem dar um pontapé na bola?

Renato Caldeira

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