Desporto

Agonia no ninho da águia

O gigante Desportivo de Maputo está a passar dias de fel. Há muita fome e incertezas no clube fundado a 31 de Maio de 1921 para aglutinar pretos e brancos na luta contra o jugo colonial português. Hoje a batalha é pela sobrevivência.

O Desportivo vendeu o campo principal de futebol mas continua com enorme património. Tem três campos de desporto de salão, três campos de futebol de relva, sendo dois de relva natural e um de relva sintética destinados para a Academia, duas piscinas, uma para crianças e outra para adultos.

Tem ainda um campo relvado em construção em Bobole, no distrito de Marracuene. Os campos relvados que nos referimos acima até são de luxo, e estão adjacentes à sede do clube, mas são de pequenas dimensões e não de futebol onze. São mais para treinos e aprendizagem de técnicas de habilidade com a bola.

Dispõe ainda do Sdand da Rifa, em litígio de propriedade com o Banco de Moçambique, sob arbitragem do Conselho Municipal de Maputo. O clube sempre explorou a infra-estrutura, mesmo sem o respectivo Direito de Uso e Aproveitamento da Terra (DUAT).

 Movimenta cerca de 450 atletas, dos quais 85 seniores e a maioria de formação em modalidades como futebol, atletismo, basquetebol e hóquei em patins. Emprega 110 trabalhadores, e a folha salarial aponta para cerca de 1.7 milhão de meticais por mês.

São cerca de 22 a 23 milhões só de salários por ano, o que está a sufocar a colectividade, dado que as receitas anuais rondam a seis milhões, o que quer dizer que por ano o défice está na ordem dos 16 a 17 milhões de meticais.

É este o clube que foi visitar a Vice-ministra da Juventude e Desporto, Ana Flávia Azinheira, com sede de encontrar razões para a pública crise financeira no ninho da águia.

PRÉDIO PARA SACUDIR A CRISE

Em 2002, depois de pegar a máquina calculadora dias e noites, a direcção encabeçada por Michel Grispos concluiu que a saída para a realidade que o clube vivia era alienar o campo de futebol.

Decisão tomada, decisão cumprida! Os sócios foram chamados e deliberaram. E que sócios? Umas dezenas, que brevemente serão novamente convocados para chancelar um novo negócio, desta vez para a construção dum prédio de 20 andares no espaço hoje ocupado pela piscina principal e outros compartimentos.

Tudo porque o dinheiro do campo acabou (ver texto lado) e as necessidades persistem. E até cresceram, originando atraso de salários, corte de água e consequente encerramento da piscina e do departamento de natação.

A venda do campo foi justificada como garante futuro da sustentabilidade financeira do clube e resposta a exigência de prática de futebol de alta competição somente em recintos relvados. “Devíamos ter o nosso próprio campo relvado”, recorda-nos Michel Grispos, presidente do clube.

Mas o processo não foi tao fácil como se conjecturava e prolongou-se até 2012, com muito dinheiro a ser desviado para compensações de famílias que viviam no talhão do Desportivo e no novo recinto de Bobole.

– Infelizmente só encontramos espaço em Marracuene na zona de Bobole. Começamos pela implantação da relva. Em 2012 descemos de divisão e em 2013 aquilo que eram os nossos suportes financeiros, que garantiam entradas na ordem de seis milhões, dos quais quatro eram da conjugação mcel e Milleniumbim, afastaram-se, e recorremos a fundos próprios. E isso está a atrasar a conclusão do nosso campo.

É neste cenário que Michel Grispos e sua equipa recordam-se da máquina calculadora usada em 2002 e fazem novas contas que agora lhes conduzem a construção dum prédio de 20 andares.

– O Desportivo tem um projecto imobiliário que não iria pôr em causa os espaços desportivos. Essa é a nossa grande arma para garantir a sustentabilidade financeira do clube. A academia dá 1.4 milhão de meticais por ano, mas no universo de despesas que temos torna-se insignificante. Por isso temos um projecto de 20 andares para implementar, com espaços para shopping, arrendamento para habitação, escritórios, até para estacionamento de carros.O que pensamos é criar um efeito multiplicador.

 O projecto estava bem encaminhado mas sofreu revés nos últimos meses devido a barulho envolta do clube. “Quando há barulho as pessoas não põem dinheiro”, referiu-se o presidente do clube.

Grispos recordou que diferentemente doutros clubes históricos de Maputo – incluindo Matchedje e Estrela Vermelha – o Desportivo não tem cobertura duma empresa integradora, o que sufoca a sua contabilidade.

Ainda assim, a colectividade tem dado resposta nos campos e pavilhões ganhando competições em várias modalidades, com destaque para o basquetebol, atletismo e hóquei em patins.

Enquanto não há certezas, o clube socorre-se de rendas de espaços, venda de equipamentos, créditos e bilheteira, esta última que muitas vezes não responde sequer aos custos de organização do espectáculo (jogo de futebol).

 – Em cada treino, a equipa de futebol paga entre mil, cinco a sete mil e quinhentos meticais. Nos jogos os custos são mais elevados. Em termos de quotização não há nada. São cerca de 50 mil meticais. Há jogadores de basquetebol que recebem 50 mil meticais, e essa barulheira em redor do clube acabou fechando as portas e no fim do dia quem sofre são os 110 funcionários que trabalham no Desportivo.

Piscina num prédio de 20 andares

O Presidente do Desportivo, Michel Grispos, anunciou um projecto imobiliário nas instalações do clube, o qual, vai implicar a destruição da actual piscina e outros compartimentos.

Tal como referiu, a natação terá espaço num dos andares, uma vez estar prevista a construção duma piscina olímpica. Grispos explicou que o projecto tem como finalidade conferir sustentabilidade financeira à gestão do clube.

A vice-ministra da Juventude e Desporto, Ana Flávia Azinheira, não se apaixonou pelo projecto.

Vale a pena recuperar aqui o diálogo mantido entre os dois gestores, sendo a Vice-ministra o primeiro interlocutor.

– Honestamente não concordo com a eliminação da piscina do Desportivo. Se para termos desporto no Desportivo precisamos destruir esta piscina, então já não somos desportistas. Esta piscina formou Mariza Gregório, Tânia Anacleto, tem história. É preciso avaliar melhor. Esta pressão imobiliária não pode hipotecar o desporto moçambicano.

– Quero esclarecer que em nenhum momento dissemos que vamos eliminar a piscina. A piscina continuará a existir.   

Disse que a piscina ia para um andar. Num andar não vais ter prancha, nós queremos aquele espectáculo que se faz na prancha.

– O salto não está a ser útil. Nós estamos aqui há muito tempo nunca vimos alguém a usar a prancha.

– Num piso vocês não vão ter salto, e vocês precisam desta piscina.

– Nos vamos ter uma piscina olímpica como a piscina do Zimpeto, piscina que não vamos precisar que todos os períodos de inverno retiremos a água, limpar e voltar a encher. É uma piscina que vai estar quente durante o período de inverno, numa temperatura ambiente durante o período do verão. Vamos ter um ginásio, um posto médico melhor do que temos agora Senhora Vice-ministra, vamos ter rentabilidade financeira. Ninguém vai conseguir gerir este clube…

– Penso que são propostas vossas que serão debatidas e aprovadas em fórum próprio, mas sugiro que tenham sempre em mente a família do desporto.

– Temos

– Penso que o Governo vai estar próximo, a Inspeção Geral também vai tomar conta deste processo. Penso que é um processo que merece análise, mas a minha opinião pessoal é essa.

Pressão imobiliário não

pode hipotecar o desporto

– Vice-ministra da Juventude e Desporto, Ana Flávia Azinheira

A Vice-ministra da Juventude e Desporto, Ana Flávia Azinheira, recomendou aos clubes de Maputo para não enveredarem pela venda de instalações desportivas à busca de sustentabilidade financeira.

A governante falava depois de visitar sucessivamente os clubes Estrela Vermelha, Piscina Raimundo Franisse, Desportivo e Maxaquene.

Não era sem sentido. É que no Estrela Vermelha e no Desportivo foi informada que ambos clubes alienarem seus campos de futebol e estão a erguer novos no distrito de Marracuene. Nos campos da cidade vão nascer prédios.

– Estamos preocupados com a venda dos espaços, resolvem-nos pontualmente um problema, mas se falo dum plano a médio e longo prazos, o desporto moçambicano vai ficar hipotecado. Três, quatro, cinco clubes estão a transferir campos para Bobole, e a Cidade de Maputo como é que fica?

Exortou os gestores dos clubes a identificarem outro tipo de soluções. “Que se encontrem outras alternativas tendo em conta o seu foco principal, que é o desporto. É preciso que os dirigentes, nossos gestores, não estejam mais preocupados com projectos imobiliários e que encontrem parcerias que irão beneficiar o desporto. Não podemos fugir daquilo que nós somos”.

Desafiou as direcções dos clubes a buscarem conhecimento desportivo dos gestores formados em academias nacionais e estrangeiras. No entender da dirigente, as instituições de ensino estão a formar gestores desportivos que podem ajudar a encontrar alternativas.

Tal como referiu, “é possível gerir sem vender os espaços desportivos. Temos que encontrar alternativas que não sejam perder os nossos espaços”.

– Estamos em crise desportiva, em crise de resultados, em crise de gestão, estamos em crise no nosso desporto e é preciso voltarmos a rever a Lei de Desporto, as nossas competências. Não é por causa das dificuldades que vamos perder a identidade.

Recomendou aos clubes para intensificarem acções de formação nas várias modalidades, porque só dessa forma o país pode recuperar o desempenho internacional atingido no passado.

– Os clubes estão como um cemitério, só tem fantasmas. O desporto está cada vez mais distante de nós. Gostaria que mudássemos este cenário. Vamos tentar ter outra visão. É preciso encontrar alternativas de sustento.

Acabaram dois milhões de dólares

e continuam sem campo

Decorria o ano de 2007 quando denunciamos nas páginas deste jornal o negócio do campo do Desportivo para uma firma interessada em instalar no recinto um projecto imobiliário.

O negócio foi concretizado e o clube “alvi-negro” recebeu USD 2.281.753,00 (dois milhões, duzentos e oitenta e um mil, setecentos e cinquenta e três dólares norte americanos).

A venda do campo foi totalmente consumada em 2012 e três anos depois o clube já não tem dinheiro para pagar salários de funcionários, facturas de água, equipamentos, prémios, entre outras necessidades.

Agora, a ideia, conforme revelou Michel Grispos, é vender parte das instalações do clube para mais um projecto imobiliário, com a diferença de, desta vez, o Desportivo ter outro tipo de benefícios no prédio a ser construído.

Os sócios do clube serão brevemente chamados para carimbar o novo negócio. Enquanto isso não sucede, a equipa principal de futebol – rosto do clube – vai se treinando no pelado da Texlom, município da Matola, depois que se concluiu não ser viável o vaivém quotidiano a Bobole, distrito de Marracuene.

Custódio Mugabe
custódio.mugabe@yahoo.com.br

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Artigos Relacionados

Botão Voltar ao Topo