Desporto

A mulher não é muito respeitada no desporto

Ilda Maria Caixeira Manjate é uma mulher de futebol no desporto moçambicano. Cara feminina da Liga Moçambicana de Futebol (LMF), de que é delegada de jogos do “Moçambola”, tarefa que abraçou depois de se reformar da arbitragem, onde foi assistente de 1992 a 2005.

Quis o destino que fosse árbitra de futebol e não de basquetebol, a única modalidade que experimentou praticar nas aulas de Educação Física, isso em Pemba, onde viveu com os pais de 1968 a 1974.

Mais de si é contado pela própria nesta interessante entrevista decorrida num estabelecimento comercial familiar, na Matola Rio, onde se afirma empreendedora. Grita por mais respeito pela mulher no desporto nacional

Não tendo sido atleta como é que abraça a arbitragem do desporto rei, que é o futebol?

Apaixonei-me pela arbitragem de futebol em conversas de bichas dos TPU (Transportes Públicos Urbanos). E quem me convida a entrar para arbitragem é o árbitro Ricardino Chongola (já falecido), numa altura em que nesta actividade só havia uma mulher, Angélica Zibia.

Fez curso?

Sim. Fiz curso em 1992. Os meus instrutores foram Ricardino Chongola, Jeremias Rassul (falecido) e um tal Rungo que agora parece que vive em Inhambane.

Pascoal Rungo.

Sim. Esse mesmo.

Foram ou eram bons instrutores?

Os três eram bons instrutores, mas Rungo tinha certos problemas no campo de jogos, não conseguia ser bom instrutor e bom árbitro ao mesmo tempo.  

Fez o curso com quantos valores?

No curso obtive 14 valores. O meu primeiro jogo aconteceu no campo do Ferroviário da Baixa. O árbitro principal foi Ricardino Chongola. A outra auxiliar foi Angélica Zibia. Era jogo das camadas de formação, em masculinos. Nessa altura trabalhava-se em trio e não em quarteto.

APOIO DE ARÃO JÚNIOR

Depois do curso não precisou de ajuda de alguém?

Tive sempre a mão e ajuda do árbitro Arão Júnior, o meu instrutor de prática. Ele é que sempre me acompanhou em todos os jogos que fiz. Cabia a ele explicar o que fazer, como correr e como reagir a uma e outra situação. Foi ele quem informou à direcção da arbitragem que já podia fazer jogos.

Chegou de ser árbitra principal?

Não! Eu sempre fui auxiliar. Fizemos um trio de mulheres, eu, Olga e Angélica. Apitamos um jogo das selecções da Cidade de Maputo e da Cidade da Matola, jogo que antecedeu ao dos “Mambas”, no Estádio da Machava. A Olga é hoje delegada técnica da Federação Moçambicana de Futebol.

Que achou da sua carreira?

Digo que a minha carreira correu bem. Tive alguém que me ensinasse como correr, como comportar-se dentro do campo e perante colegas.

 Não chegou de sentir discriminação no tratamento público e dos colegas? Ou seja, na arbitragem a mulher é tratada como o homem?

Felizmente, pertenci a um bom grupo de trabalho. Os homens nos aconselhavam para não termos medo, que qualquer jogo era igual ao outro. Passamos a partilhar o mesmo balneário com os homens.

Afinal?!…

Sim, é isso mesmo, o balneário era o mesmo para homens e mulheres. Não havia balneário de homens e outro de mulheres. Era único. É o que ainda acontece.

Não gostariam que as mulheres tivessem próprio balneário?

Isso seria pedir descriminação. Assim temos uma maior relação de amizade e companheirismo, sem pensar em outras coisas. Repare que no nosso país ainda não houve casamento entre árbitros.

Não percebi bem. Nunca uma mulher árbitra se casou com um árbitro?

Nunca vi. Nunca ouvi dizer. Pode haver amizade, mas casamento nunca houve. Na arbitragem homens e mulheres têm uma relação de trabalho muito forte.

Quando errasse os homens não diziam que era o normal das mulheres? 

O público é quem dizia isso. Os colegas me consolavam como se fosse do mesmo género.

Nunca sentiu dificuldades em conciliar o estatuto de mãe e de árbitra, que deve se ausentar quase todos os fins de semana para apitar aquele e outro jogo?

Quando comecei a ser árbitra já era mãe de um rapaz e uma menina. Eles gostavam. A minha família é desportista, apesar de só eu querer levar a coisa até ao fim. Tenho uma irmã que foi pilota de carros de corrida, a Maria de Céu. Tive duas que jogaram andebol, Arlete (falecida) e a Joaninha. A Felisbela fez dança. Os rapazes não se fizeram ao desporto nem à cultura. Na verdade, nem sempre que os meus filhos precisassem que eu estivesse perto deles era possível. Por vezes tinha que estar no campo as seis da manhã para realizar jogo das sete.

O DESPORTO AJUDA MUITO

Os seus filhos já podem ter a mãe mais perto. É mesmo isso?

Terminei a carreira de arbitragem, mas não me retirei do desporto. Em 2005 fui vice-presidente para o futebol de praia na Associação de Futebol da Cidade de Maputo. No mesmo ano fui convidada pela Liga Moçambicana de Futebol para participar na gestão do projecto Futebol Sem Sida. Em 2009 entrei para a Faculdade de Educação Física e Desporto da Universidade Pedagógica. Passei a ter pouco tempo livre

Fez que curso na UP?

Fiz o curso de Gestão desportiva. Em 2010 concorri para delegada de jogos de “Moçambola”, na Liga Moçambicana de Futebol. Até agora sou delegada. Recordar que também fui delegada de jogos ao nível da cidade de Maputo, de 2005 a 2009. 

Já defendeu?

Terminei o curso em 2012. Este ano é que vou defender.

O que mais lhe anima no futebol?

O que gosto é fazer aquilo que as outras mulheres julgam que é só para os homens. Eu não acho o futebol uma coisa difícil e dura para a mulher. Para mim trabalhar com homens é coisa muito simples. O homem para com a mulher é mais amigo, é mais companheiro. É isso que sinto no desporto. Hoje quando tenho uma dúvida, ligo para Arão…

Sempre, sempre Arão!

É que foi graças a ele que sei muta coisa de arbitragem.

 Como árbitra ganhou o quê?

Ganhei muitas medalhas. Tenho medalha da DHL, tenho medalhas das cidades e província de Maputo. No fim da carreira recebi um troféu de recordação. Mas o que mais ganhei foi o curso de gestão desportiva que financiei com o dinheiro da arbitragem. Fiz parte da Missão Moçambique nos Jogos Africanos de 2011. Todo dinheiro que ganhei direccionei para os mesmos estudos. Estudei com o dinheiro do desporto. Isso me cativa bastante em continuar no desporto.

Quanto recebia quando árbitra?

Não era fácil saber. Eram várias as camadas de formação. Recebíamos no fim da primeira ou da segunda volta. Mas também não eram valores elevados, eram valores simbólicos.

Manuel Meque

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