Artes & Letras

Tocar com Earl Klugh vai ser uma cena “cool”

Maputo acolhe na próxima sexta-feira um concerto de jazz com o guitarrista norte-americano Earl Klugh. Cremildo Caifaz é o convidado especial. Klugh quer fazer um dueto com o nosso compatriota.

 Será para interpretarem “Collaboration”, tema originalmente interpretado por George Benson e Klugh. Caifaz diz que não nos deixará ficar mal na fotografia!

Cremildo Caifaz irá “fazer de George Benson” no concerto de Earl Klugh. O convite, formulado pelo próprio Klugh para que os dois guitarristas interpretem o tema “Colaboration” de Benson representa um desafio agradável e também uma honra para o nosso compatriota.

Earl Klugh é um músico único. Fiel ao seu estilo e a sua guitarra de caixa, ele tem uma história e uma produção musical sem igual no mundo do smoth jazz. É incomparável. Fiquei satisfeito pelo convite e vou fazer o meu melhor, em nome da minha terra”, diz Caifaz.

Acrescenta queserá um grande prazer tocar com Klugh. “Quando tomei conhecimento de que tinha me convidado para tocar com ele uma das músicas fiquei extremamente satisfeito. É que conheço todos álbuns dele, cresci a ouvi-lo”, entrega.

Caifaz diz que será uma coisa fantástica, “não só por tocar com o Earl mas também por tocar com aquela banda espectacular dele. Ele é uma estrela, e é respeitado pelo mundo. É uma grande honra esta oportunidade. Vou fazer boa figura”.

Por enquanto os ensaios também estão a correr de vento em pompa. “Aliás quero dizer algo: estou a ensaiar com miúdos que sinceramente são os próximos músicos que irão vibrar na praça”.

Trata-se de Vando, baterista, Realdo Salato, baixista, e nos teclados está Thapelo, sul-africano. 

O guitarrista moçambicano diz que irá destilar alguns temas originais onde predomina a mistura de estilos, harmonias de jazz num contexto africano como sempre. Caifaz interpretará duas músicas novas e outras tantas extraídas do seu disco, “Ciconia Ciconia”.

UMA VIDA MUSICAL

Radicado na Alemanha já lá vão trinta anos, diz que fazer música longe de ser um trabalho, é uma forma de desfrutar a vida. Caifaz foi para Alemanha no âmbito dos acordos bilaterais entre Moçambique e aquele país europeu. Fê-lo um pouco movido pelo espírito de rebeldia dado que o pai preferia que ele se formasse em algo diferente da música. Logo ele que aos 15 anos já trauteava uma viola de caixa…

Foi mesmo para fugir desse imbróglio que fui para Alemanha. Meu sonho era ser artista. Tocar guitarra. Felizmente na Alemanha rapidamente me juntei a outros artistas moçambicanos e alavanquei a minha carreira”, recorda-se.

Na Alemanha, como era de praxe, aprendeu a língua mas a meio do percurso foi escolhido, pela Embaixada moçambicana, para ir a Berlim e formar uma banda musical para animar as datas festivas moçambicanas mas pouco depois tocavam nas festas angolanas, cabo-verdianas, etc. Na altura estavam mais de 30 mil moçambicanos na Alemanha.

Imitávamos Bonga, Rui Mingas, Wazimbo, Fany Mpfumo, Os Tubarões… quando os africanos quisessem uma banda, éramos nós a tocar. Faziam parte da banda o Mamboquel, Acácio Sitóe, entre outros… isso foi de 86 até 90”, recorda-se.

Depois caiu o muro de Berlim. Milhares de moçambicanos retornaram. Caifaz optou por ficar: “Sim. Minha ambição foi sempre fazer música. Para mim não existe mais nada senão a música. Se não pudesse fazê-la, eu deixaria de existir”.

Assim começou a trabalhar com vários grupos antes de estabelecer a sua banda.

Eu tinha decidido ficar mais quatro anos. Pensava que depois desse período regressaria a Moçambique. A ideia de ficar por lá até hoje não estava nos meus planos só que as coisas foram acontecendo e até hoje estou lá”, diz Caifaz.

Foi conhecendo mais pessoas no cenário musical. Juntou-se a uma banda constituída por moçambicanos e sul-africanos designada “Makweru”. Os músicos moçambicanos desta banda também tinham feito parte da antiga de Gito Baloi chamada “Phongolo”.

Éramos uma banda de reggae e tocamos em todo mundo. Abrimos shows de grandes bandas de reggae. Chamavam-nos para todos festivais da Europa. Foi um período de muita aprendizagem e também de conhecimento. Fomos a Jamaica. Tocamos no Brazil. Andamos pela Europa. Foi interessante”, diz Caifaz.

Depois da experiência do Reggae, chegou a fase em que começou firmar-se mais no mundo do Jazz, “porque nas noites sempre toquei este estilo em discotecas. Depois apareceu-me uma oportunidade de tocar em cruzeiros e fiz isso durante 12 anos. Viajava muito. Ficava três meses em cruzeiro e depois saía. Nesta fase também aprendi muito sobre a música Jazz e as suas nuances.

Acrescenta que“especializei-me em tocar em trio nos cruzeiros. Isso aproximou-me mais ao meu gosto musical. Gosto daquelas sonoridades mais fora do normal e tento conciliar com o estilo moçambicano e africano. Toquei muito com africanos de Gana, Zâmbia, Congo. Tento conciliar o estilo africano e a harmonia jazz. É daí que nasceu o meu estilo musical.

A marrabenta, a Kwela, Kwassa-kwassa, jazz estão presentes na música de Caifaz. Reconhece, entretanto, que mantém viva a música africana e moçambicana em particular para não ficar perdido.

Não tenho ambições de satisfazer só o lado intelectual do jazz. Quero mais o lado africano presente na minha música. É por isso que gosto muito do Earl Klugh porque o seu Jazz é diferente e agrada muito o ouvido”, sentencia.

Sobre o estágio actual da nossa música, Caifaz é peremptório: Acho que está a acontecer muita coisa. Há muitos talentos no nosso país. O que eu acho é que talvez haja uma certa estagnação em relação a exploração dos novos talentos. Quer dizer os novos possivelmente não têm aquela atenção que os ditos grandes já têm. Sendo assim sugeria aos mais velhos a darem uma mão aos que estão a emergir, de forma a saberem guiarem-se melhor e até a ter um certo espaço.

Acrescenta que “estou cá há semanas e sempre que vejo um programa ouço sempre os mesmos nomes. Não quero aqui dizer que os outros estejam a fazer mal, não. Apenas notei que não consigo ouvir nada de novo apresentado no mesmo nível que os outros antigos. Mas tenho de reconhecer que não sou capaz de analisar isto completamente pois estou do lado de fora. Mas isso faz me querer na minha banda estes novos talentos porque eles também precisam de aparecer por que ao fim ao cabo cada um é uma personalidade”.

Belmiro Adamugy
belmiroa.damugy@snoticias.co.mz

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