Artes & Letras

Teatro de ninguém

Em 1993, o grupo de teatro Mutumbela Gogo apresentou o espectáculo teatral “Os Meninos de Ninguém”. A peça teve um sucesso extraordinário na época. Duas décadas depois, algumas rugas à mistura, os meninos de ninguém voltaram ao palco do Avenida, cenário da sua estreia.

 Vale recordar que naquele mesmo ano, 93, também estavam em cena as peças “Makandene” do Tchova Xita Duma, “Coração d`Lagoa” do Gungu e “A Morte de Vovó Phata” de Voz Verde. Grandes obras que atraíram milhares de espectadores. Qualquer uma daquelas peças, hoje, voltaria a fazer sucesso, à par das “30 mulheres de Muzeleni” de Lindo Lhongo, “Lágrimas” de Kanyembe ou “Adriano o Professor” de Zomola.

Estes são alguns clássicos do nosso teatro… sem dúvidas!

Maputo fervilhava. Respirava-se cultura. O teatro florejava, na década 90. Havia espectáculos teatrais todos os fins-de-semana. Nas escolas havia grupos culturais e o teatro tinha um lugar de destaque. Espaços para a exibição dos espectáculos existiam em número razoável. A Casa Velha, o Tchova Xita Duma, A Escola Comercial, o Matchedje, Francisco Manyanga, o Avenida, Cine África, AMASP, Gil Vicente, Scala, 700… só para citar alguns exemplos.

Agora, contam-se pelos dedos de uma mão os espaços para o teatro… o emblemático Xenon foi para o breu. Há poucos meses o Charlot também caiu seguindo a rota de Tivoli, Império, Olímpia, São Gabriel e São Miguel… isto só em Maputo porque o cenário repete-se por todo o país.

Ficamos mais pobres certamente.

Sabe-se que Teatro deriva do grego théatron, que significa mais ou menos "lugar de onde se vê". Há os que vêem e os que são vistos. Mas todos são feitos da mesma matéria, conquanto de diferentes cores e penteados, de todos os espécimes de educação e de formação, com variadas experiências e finalidade na vida.

E se, em palco, todo o colectivo pende a ser uma comunidade regrado, sem a qual não funciona, já o mesmo não se pode dizer dos que estão na plateia. A ilusão de uma sociedade sem cruas divisões sociais, está ainda longe de ser uma realidade palpável porém une-os o desejo secreto de partilha – ainda que cada um se encontre enclausurado em si mesmo – de sentimentos e conhecimentos. Jean-Jacquesdisse:“o teatro, que nada pode para corrigir os costumes, muito pode para mudá-los.”

Como pode alguém viver sem aquela multiplicidade de impressões que durante algum tempo nos preenchem os sentidos, e que não volta a acontecer, senão na nossa mente assim engrandecida para o resto das nossas vidas? No verdadeiro teatro, este é o sentimento que, no final, une os que o fizeram àqueles que a ele assistiram.

Por isso mesmo o teatro é o detergente da vida. Lava e aromatiza. Os que o atropelam e combatem não podem ter as mãos limpas. Os que teimam em destruir os lugares onde, de forma saudável, crianças, jovens e adultos podem divertir-se de forma lúdica. Mesmo se o tema é o cinema, praticamente já não há espaços para esse efeito. Sobra muito pouco… questiona-se como pode uma cidade, com dois milhões de pessoas, viver só de duas ou três salas de cinema/teatro?

Pode ser que a fartura de problemas na sociedade seja uma das razões para os fazedores de teatro não desistirem; para que sejam propulsores da vida. A verdade é que subsistem muitos dramas que castigam os homens. Não devia ser assim. É verdade que Frank A. Clark disse uma vez que “se você encontrar um caminho sem obstáculos, ele provavelmente não leva a lugar nenhum.” Mas bem que podia servir, pelo menos, para nos levar a alguma sala de teatro.

Num mundo cada vez mais fragilizado, com conflitos sociais prementes, pode ser que o quesito cultura, no caso o teatro, não figure na linha da frente das prioridades mas certamente que deveria merecer alguma atenção. O teatro ensina filosofia, política, economia; ensina cultura. Dá chaves para os cidadãos reflectirem sobre factos passados, presentes e projecta o futuro. Não virão, depois, exigir, dos artistas coisas e loisas…

Diz-se que a letargia tem a ver com o facto de o verdadeiro teatro ser uma espada apontada para o coração dos poderosos; uma zagaia apontada para os guardiões da crueldade, dos desonestos. A rir também se castigam os costumes, diz-se. O teatro só pode ser praticado quando há generosidade de dar. Caso contrário, acobarda-se. Por isso e muito mais, o teatro, as artes, deviam estar na primeira fila das preocupações das autoridades, que têm a obrigação de o apoiar com clareza.

Mas é possivelmente mesmo por estas razões que eles tanto o desprezam, quando não o combatem abertamente. Promover o bem dos outros é coisa que não está normalmente nos seus planos.

Os artistas no geral e os homens do teatro merecem todos encómios. Aprenderam a navegar no meio das tormentas. Não esmorecem perante as dificuldades. A reposição dos Meninos de Ninguém é disso um exemplo. Irónico. São mesmo meninos de ninguém lançando um grito perante a passividade de quem de direito. Interpretaram ao pé da letra um velho provérbio africano que questiona há séculos: Se você está construindo uma casa e um prego quebra, você deixa de construir, ou você muda o prego?

Não precisa ser muito esperto para adivinhar a resposta…

Belmiro Adamugy

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