Artes & Letras

O fantasma de Boal

Pode um fantasma assombrar a vida dos habitantes de uma vila? A resposta, incrivelmente, é sim. Especialmente se for o fantasma de um senhor chamado Augusto Boal. Mas quem

é Boal? Bem… Boal é simplesmente o “pai” do Teatro do Oprimido, técnica que se propõem a transformar o espectador (ser passivo) em protagonista da acção dramática (sujeito criador), estimulando-o a reflectir no passado, transmutar a realidade no presente e forjar o futuro. Neste tipo de teatro é fundamental a interacção com o público que é convidado a interagir com os actores na busca de soluções que visam eliminar a opressão que recai sobre determinado personagem.

Augusto Boal (1931 – 2009), director de teatro, dramaturgo e ensaísta brasileiro, é uma das mais importantes figuras do teatro contemporâneo internacional. Fundador do Teatro do Oprimido, que alia o teatro à acção social, suas técnicas e práticas difundiram-se pelo mundo, notadamente nas três últimas décadas, sendo largamente empregadas não só por aqueles que entendem o teatro como instrumento de emancipação política mas também nas áreas de educação, saúde, entre outros. Por conta dessas actividades sociopolíticas, Boal foi preso em 1971 e torturado. Viveu largos anos no exílio na Argentina, Peru, Equador, Portugal e França. O exílio, de certa forma, ajudou a espalhar o conceito do Teatro do Oprimido pelo mundo.

Em Moçambique o Teatro do Oprimido foi introduzido pelo entusiasta Alvim Cossa depois de um curso de formação no Centro de Teatro do Oprimido – CTO Rio, Brasil. Rapidamente, Cossa formou outros tantos “curingas” e em pouco mais de 5 anos o teatro do oprimido está disseminado por todo o país, cumprindo um importante papel na educação cívica junto das populações.

Como se sabe, a participação comunitária é fundamental para consolidar a democracia e permitir que as comunidades sejam intervenientes válidas no processo de desenvolvimento em curso no país, contribuindo com seu saber para o combate à pobreza absoluta e às doenças “da pobreza”, que assolam o país, melhorando o acesso à informação e promovendo uma educação comunitária virada para a saúde pessoal, colectiva e ambiental.

Por outro lado, para que esta participação se torne efectiva, é necessário um trabalho educativo que, inclusive ajude a comunidade a entender os aspectos envolvidos nas relações inter-humanas, pessoais e ambientais. Na vida quotidiana, com frequência há situações de opressão, discriminação e preconceitos que não são discutidos e, menos ainda, resolvidos.

Não foi por acaso que Augusto Boal, o pai do Teatro do Oprimido, definiu-o como um movimento estético mundial, não violento, que procura a paz e não a passividade, em que os cidadãos agem na ficção do teatro para se tornarem, em seguida, protagonistas das suas próprias vidas.

Ora, chegaram-me aos ouvidos histórias de arrepiar envolvendo actores de teatro que usam as ferramentas do “Oprimido” na busca de soluções para alguns problemas que afligem as populações. Alguns actores, nalguns distritos, foram considerados “personas non gratas” por terem denunciado algumas anomalias. Outros foram acusados publicamente de “serem da oposição”.

As represálias são pesadas. Num vilarejo bem próximo de Maputo actores de um grupo foram condenados a não receber atendimento hospitalar porque “falaram mal da saúde no distrito”. Agora só podem ser atendidos na capital porque é lá onde residem “há ordens superiores para não serem recebidos pelo pessoal local”. Não fosse pela gravidade da sentença, era caso para rir a bandeiras despregadas mas, infelizmente, é verdade.

Parece que em algumas partes do país a crítica frontal é considerada “acto do inimigo, um atentado as nossas conquistas”. Não se pode apontar erros. Não se pode denunciar maus tratos aos doentes ou práticas desonestas de alguns professores. Não se pode sugerir mudanças. Não se pode apontar o dedo a nada. Não se pode denunciar o polícia corrupto, o “cantineiro” que exorbita os preços, o administrador que é prepotente. Fazê-lo, significa estar contra o progresso, contra o combate à pobreza. O silêncio, para algumas mentes pervertidas, vale ouro. A palavra, népia.

Na realidade, ao censurarem os artistas – porque isso é censura da mais pura e baixa – estão a dizer-nos (os tais poderosos) que não podemos e nem devemos ser cidadãos. Temos que ser marionetes, uns brinquedos, umas múmias. É uma estupidez de todo o tamanho dizer que uma pessoa está contra o desenvolvimento do país só porque teceu algumas críticas contundentes contra coisas que estão visivelmente a correr mal.

Entretanto, deixemos que o fantasma de Boal faça o seu trabalho: atormentar os espíritos pequenos e tacanhos e, na mesma proporção, exaltar os homens de bem.

Este fazer de conta que os problemas não existem – que alguns dirigentes pregam – prejudica o exercício da cidadania, que pressupõe a discussão colectiva dos problemas sociais. Não há vergonha maior meus senhores!

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