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Manu Dibango e Moreira Chonguiça fazem história na música africana

Por admin

Era uma vez, em 2000, na ilha Robben, em Cape Town, quando um menino moçambicano, de nome Moreira Chonguiça, encontrou o “leão de África”, uma lenda da música Africana – Manu Dibango. Receoso e cheio de medo, ganhou coragem e aproximou-se do “leão”. O “leão que tinha o saxofone na mão, não rugiu. Apenas olhou e disse “aproxime-se”. Foi o início de uma relação de amizade, de colaboração e o despertar da paixão comum que os dois nutrem por África e pela música.

Desse encontro resultou a colaboração em uma música no disco de Moreira Chonguiça – “Citizen of the world”. Mas porque os instrumentos que os dois usam fala(ra)m mais alto que o seu ego, houve continuidade da relação, cujo fruto são dez temas inseridos num disco intitulado M&M (Moreira Chonguiça e Manu Dibango). São temas universais, do jazz tradicional mas tocados ao ritmo das veias e raízes africanas com predominância de Camarões e Moçambique.

Feito o disco com a produção do jovem Moreira e arranjos finais de Manu Dibango, os organizadores do Cape Town Jazz Festival, que este ano vai na décima oitava edição, quiseram fazer história ao serem eles os primeiros a lançar o disco e mostrar ao mundo que é possível tocar e cantar África de forma feliz, sem inclinação para dança, mas para reflexão intelectual.

Assim aconteceu. A dupla M&M foi figura de cartaz do festival que movimenta para a cidade do cabo centenas de turistas, apreciadores do jazz de várias partes do mundo, assim como os sul-africanos, e abriu o festival. Eles actuaram no palco  Kippies – o principal. Aliás, neste palco foram agendadas lendas da música africana. São  os casos do sul-africano Tsepo Tsola (mais velho, mas que ainda empresta a sua voz e talento), do americano Kamasi Washington (jovem que demonstra maturidade e que através do saxofone tira o jazz da zona do conforto, misturando disco jockers e animação em palco), o decano sul-africano Jonas Gwangwa e seus amigos. Para o segundo dia do festival desfilariam no Kippies – Camilo Lombard para mostrar as inovações do Cape Town, a sul-africana Judith Sephuma e os americanos  Andra Day, o grupo  Jazz Funk Soul com Everette Harp, Jeff Lorbel e Paul Jackson Jr.

Moreira e Manu Dibango tiveram mais de uma hora em palco para tocar e lançar o álbum conjunto M&M. Percorreram vários temas do disco sob o olhar e aplauso da plateia mista que se fazia presente, em cheio, no Convention Centre. “Take Five”, “Tutu”, “Unga hlupeni nkata”, “In a sentimental mood”, são alguns dos temas que atraíram a plateia.

Desfilaram como convidados Tracy Butler (sobrinha do Jonathan Butler) que fez coros na música do lendário Fany Mpfumo intitulada “Unga hlupeki nkata”. Jaco Maria, voz moçambicana inconfundível, que reside na África do Sul, foi o convidado que emprestou o seu talento como voz principal na música de Fany.

Com 83 anos, Manu Dibango tocou vibrafone e soprou saxofone com mestria e vivacidade, acompanhado do jovem Moreira Chonguiça que, emocionado, ainda não acredita que fez um álbum com o “leão de África”.

Os outros palcos do Convention Centre, Basil “Manenberg” Coetzee, Rosies, Moses Molelekwa e Bassline acolheram actuações que faziam a miscelânia do puro jazz  à moderna maneira de tocar. Foi assim que Ernie Smith, Mango Groove, Buddy Wells Sextet, Siya Makuzeni, Pops Mohamed, Stta, Soweto String Quartet, The Rudimentals, Thandiswa Mazwai Dope Saint Jude  – todos da África do Sul; Digable Planets, Darren English, Taylor Mcferrin & Marcus Gilmore, En Vogue, The Internet, Rudresh Mahatappa Bird Calls – dos Estados Unidos da América; Tom Misch, Laura Mvula – da Grã-Bretanha;  Escalandrum – Argentina; Jameszoo – Holanda;  entre outros, alegraram durante dois dias a plateia de Cape Town.

Nota importante do festival é a qualidade organizativa que vai desde o bom som, protocolo, serviços de limpeza e segurança, assim como os postos de emprego, em maioria, que são criados pelo evento e o grandioso contributo para a economia e turismo sul-africano.No final da actuação, Manu Dibango era um homem feliz. “Estamos todos de parabéns por este sucesso. Devo dizer que apesar da minha experiência de viagens pelo mundo fora, sinto-me cada vez mais africano e gosto de África. Este disco é o exemplo vivo de que muita coisa podemos fazer em África e por África. Que a música persista como veículo de formação e mudança de mentalidade dos africanosˮ, disse.

 

Moreira Chonguiça, que durante a sua actução, transmitiu a mensagem do não a xenofobia, diss: “Estou feliz. O disco M&M é uma realidade. É uma aprendizagem, responsabilidade e privilégio cantar e trabalhar com Manu Dibango. Almejo que mais colaborações deste género persistam em África e mostremos a cada dia a nossa capacidade de criar, explorando a diversidade cultural rica que temosˮ.

REALIZEI O MEU SONHO

– Jaco Maria, músico

Não seria outra pessoa, em Cape Town, a interpretar tão bem e com paixão a música “Unga lhupeki nkataˮ (não sofra minha mulher), de Fany Mpfumo, se não Jaco Maria. Com atitude, gara e determinação, aliados ao charme natural que tem, Jaco Maria, quando anunciado, entrou em palco, cantou e pôs a plateia a cantar uma das músicas de referência do país – “Unga lhupeki nkataˮ. Foi emocionante ver e ouvir os mocambiçanos misturados na plateia a cantarem o amor, relembrando que Moçambique é uma nação. Aliás, a beleza e significado extremo da música e seu autor pesaram bastante para que Moreira Chonguiça incluísse a faixa musical no disco.

Há muito tempo que não toco com Moreira desde que gravamos o disco dele. Ele convidou-me para cantar a música do nosso legendário, Fany Mpfumo, que é uma honra para mim. Partilhei o palco com Manu Dibango. Por isso, quando Moreira me convidou, saltei de alegria”, explica Jaco Maria.

Dono de uma voz sem igual, Jaco Maria diz ter realizado o seu sonho. “Tal como muitos, cresci a ouvir Manu Dibango. Ele é o leão. E ao cantar no mesmo palco com ele realizei o meu sonho”.

OS DOIS SÃO LENDAS DA MÚSICA AFRICANA

-Bill Domingos, organizador do Cape Town Jazz Festival

A décima oitava edição do festival de jazz não celebrou apenas África, relançou o papel da música como veículo de socialização. Os organizadores decidiram em colaboração com o município de Cape Town oferecer um concerto gratuito às comunidades com poucas posses. Fecharam as ruas e no Green Market Square montaram um palco onde cantaram vários músicos para o gáudio da plateia.

Bill Domingos, organizador diz: “Temos de dar de volta esse prazer aos que não podem comprar bilhete, mas que gostam e vivem a música. Por isso, decidimos oferecer este espectáculo a esta gente que bem merece.Convidar Manu Dibango é um privilégio para o Cape Town Jazz Festival”, disse.

Acrescentou que “convidei Moreira para cantar e ele disse que estava para lançar o disco com Manu Dibango, que é uma lenda da música africana. Logo disse que os dois viriam para o festival porque eu gosto da música pura e de colaborações que mostram a identidade africana. Eles mostram isso e transmitem a mensagem sobre o futuro. Aliás, os dois são lendas da música africana – um mais velho e outro mais novo”, explica Bill Domingos.

Frederico Jamisse, em Cape Town

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