TEXTO DE GABRIEL MUTHISSE
Hoje quero falar de um grande bardo do nosso tempo: José “Hoko Hoko” Mucavele. Bardo no sentido antigo do termo: aquele que, nas sociedades europeias de outrora, e também nas africanas, ainda que sob outras designações, tinha a missão de guardar e transmitir a memória colectiva.
O bardo cantava histórias, mitos e lendas; era músico, poeta e historiador. E era, acessoriamente, moralista. Moralista no sentido nobre do termo, aquele que interpela e educa sem dogma. Essa dimensão atravessa muitos dos temas de José Mucavele. Entre os que mais escutei recentemente, destaco “Lanihlamalissa”, canção em que a palavra cantada volta a cumprir a sua função primeira: pensar o mundo a partir de nós.
Outros poderiam falar do Zé com maior propriedade histórica. Falo daqueles que acompanharam o seu percurso desde os primórdios; dos companheiros de momentos decisivos da sua vida; ou de críticos musicais munidos do instrumental teórico necessário para ler uma obra desta envergadura. A mim cabe um papel mais modesto: o de entusiasta atento, simples seguidor de um cancioneiro que considero profícuo e indispensável.
O cancioneiro de José Mucavele, relativamente invisibilizado, é uma verdadeira viagem em busca de nós mesmos, como país e como continente. É uma afirmação identitária feita de valores, ritmos, inflexões e memórias que nos alicerçam.
A sua forma de cantar, o timbre singular e a maneira como articula as melodias remetem-nos directamente para as sonoridades e politonalidades do nosso chão. Digo “invisibilizado” porque rádios e televisões insistem, até à exaustão, na repetição de três ou quatro temas, deixando grande parte da sua vasta obra fora do alcance do grande público. Se “Balada para as Minhas Filhas”, “Atravessando Rios” e “Xigutsa xa Vutomi” são amplamente conhecidos, belos temas como “Golheane”, “Ndezi”, “Nenwassani”, “As tuas Tranças”, “Wavitika”, “Lanihlamalissa”, “Tiyisselani”, entre muitos outros, permanecem quase ocultos. Qualquer um deles reúne condições para ser considerado clássico: pela temática, pela qualidade da composição e pela interpretação na voz possante do nosso bardo. Leia mais…

