Artes & Letras

Chico António reaviva memórias em palco

Texto de Frederico Jamisse e Fotos de OuriPota Chapata Mutundo

Panela velha faz comida boa.Assim descrevemos o espectáculo proporcionado na última sexta-feira, no Franco-Moçambicano, pelo músico Chico António e seus convidados.

O pretexto para aquela viagem rítmica de aproximadamente duas horas e vinte minutos, era o lançamento do disco de Chico António, intitulado Memórias. Infelizmente, por razões profissionais, o disco ainda não está disponível. Podendo ser adquirido na primeira semana de Novembro.

A sala grande dos espectáculos do Franco-Moçambicano esteve cheia de gente e emoção. Estava em palco um artista de craveira, conhecedor da música e da sua plateia. Chico António. Ele que se fez acompanhar por uma equipa e convidados à altura. O grupo Majescoral (com quem vem trabalhando há aproximadamente cinco anos em vários concertos),  a cantoras moçambicanas Mingas (aluna sua em tempos e companheira de longas jornadas de palco desde Orquestra Marrabenta, Grupo RM), Chude Mondlane (com quem partilha o palco e microfone no  Projecto Trânsito) e a cantora sul africana Assanda Bam, convidada que cantou uma música com ele.

À Mingas e Chude Mondlane coube fazer o dueto com Chico cantando duas músicas cada. Enquanto o fenomenal Majescoral emprestou as suas mágicas vozes e coreografia condizentes durante o concerto todo. Todos os artistas convidados e banda,  desfilaram sem reservas no palco, colorindo e emprestando alento à noite especial de Chico António.

Nota negativa verificou-se em alguns momentos em relação à luz, cujo foco falhava. Haviam duas luzes no fundo do palco que incomodavam constantemente a plateia. O som esteve bom, embora com algum retorno “incómodo” para o tímpano da plateia. Harmonia das vozes perfeita. Comportamento dos artistas e produção excelente. Aliás, nota de realce é que o espectáculo foi gravado, e o conceituado cineasta Gabriel Mondlane estava no comando da principal câmera.

Quarenta e duas pessoas  em palco, entre elas Chico António (guitarra),  Majescoral, Rufus (piano) Stélio Zoé (bateria), Carlos Gove (viola baixo), Dito Magalhães (guitarra), Jorge César e Edmundo (percursão), Muzila e Timóteo Cuche (saxofone), Edward Walf e Ralph Smit ( trompete), Sheila Jesuíta, Xizimba, Pedro Tinga, Bonguiwe (coros), Lectícia (violino) Mingas e Chude Mondlane (vozes), proporcionaram à plateia uma noite memorável.

Foi um concerto em que tivemos um Chico António maduro, objectivo e consolidador do world music sem fugir das raízes. A maneira como as composições são apresentadas hoje, (Sineta, Baila Maria, Tet go, Comer camarão, entre outras) demonstram claramente a longa estrada de Chico António. Mas por outro, expõem a versatilidade do mesmo. Um Chico moderno que não parou no tempo e tem sabido se enquadrar na dinâmica da música. Mesmo sendo dono do espectáculo e da noite, Chico foi bastante receptor, deixando seus convidados cantarem à vontade. Aliás, dois foram os momentos marcantes da noite. O primeiro aconteceu quando Chude Mondlane,  começou, sentada na cadeira ao lado do Chico, a cantar um poema evocando amor. Ela foi ganhando ritmo e ao levantar, contagiou a plateia. De seguida, a mesma Chude, buscou seus “xikwembus” e de dentro tirou a voz que impulsionava Majescoral. Foi nesse momento que ela pediu a todos os instrumentistas para pararem de tocar, dando espaço às mágicas vozes de Majescoral que desempenharam um papel fundamental no concerto.

Mingas. Sim. Ela entrou para o palco calmamente e saudou Chico António. E aí começou a cantiga de amor. Sinetaaa… Mupendzi Wango (Sineta meu amor). Os dois embalaram a plateia mista composta por gente adulta e jovens, reavivando em algumas pessoas, as memórias. Veio depois Baila Maria, também cantada pela dupla Mingas e Chico António. (Cheguei agora da província….venho bem de longe. Trago nas veias o ritmo quente pra vocês. Ouvi dizer que aqui sapateia-se até o sol  raiar…. …..Mbalele mbalele).

Por fim, Chico António despediu-se. Mas a plateia ainda o queria. Voltou e com Te te goooooo encerrou a noite. No final disse: “ Estou feliz porque veio gente me ver a cantar e fazer a festa. E a arte é isto. Conviver sem pensar no dinheiro. Estamos a pensar em fazer uma reedição do concerto, mas não com esta dimensão. Creio que isso irá acontecer em Fevereiro quando o Franco-Moçambicano reabrir. E na ocasião, farei a assinatura de autógrafos”, promete Chico António.

MEMÓRIASSOCIAIS RETRATADAS EM DISCO

O disco de Chico António comporta catorze faixas musicais que retratam as três fases da sua carreira. Memórias  tem músicas gravadas de 1984- 1990.São músicas  que compus após ganhar o prémio. São os casos de Bela Maria, Hantlissa Maria, Mercandonga. Essas músicas fazem parte da história de  Moçambique. Mas também há músicas feitas depois do ano 2000, com um outro conceito, tradicional. Essa fase resultou do meu contacto com Manu Dibango que me aconselhou a visitar as províncias para beber um pouco mais da música tradicional. E fiz, tendo ficado dois meses em cada província”.

Quanto à mensagem, Chico António afirma: “ em Memórias, primeiro dividi as músicas em décadas, cantando alegrias e tristezas. Focalizo-me na própria sociedade. Por exemplo, de 1975 a 2014, há um percurso e vamos encontrar essa história toda em Sineta…Vai comer camarão que é uma situação de termos a costa e camarão, mas não podermos comprar porque o nosso camarão é caro”.

Em termos de ritmo, Memórias é o resultado do que o artista foi absorvendo ao longo dos tempos. “ Eu tenho em mim, o rock, hard rock, heavy metal,  e muito afro. Ouvi bastante  Mory Kanté,  Fela Kuti, Salif Keita, Manu Dibango, Sting, Peter Gabriel. E quando componho, cada um desses todos, exerce a sua influência em mim. A música pode ter Ngalanga mas com um rock à mistura”.

Feliz por lançar mais um disco, mas triste por causa da pirataria. “Depois deste árduo trabalho, entristece-me saber que no dia seguinte o disco estará na rua pirateado. O Governo tem que encontrar uma solução para isso. E a primeira solução é os membros do Governo deixarem de comprar discos piratas nos passeios”.

Chico António traz um disco histórico e que reflecte a sua trajectória. Através do disco pretende retratar vários períodos da sua carreira musical desde a década 80 à actualidade. Nas suas composições, o artista apresenta temas que abordam os problemas sociais. Contudo, nelas apresenta propostas de solução com destaque para a preservação dos valores morais.

QUEM É CHICO ANTÓNIO?

Chico António nasceu em 1958 no distrito de Magude, província de Maputo, no Sul de Moçambique. Cresceu no internato da Missão de S. José de Lhanguene e quando tinha 9 anos de idade torna-se solista de um coro de 50 pessoas na igreja ao mesmo tempo que se inicia na aprendizagem do trompete e solfejo durante 12 anos.

Entre 1979/1992, fez parte de grupos que compunham música com base em ritmos tradicionais moçambicanos tais como: Grupo Instrumental n°1 de música ligeira, RM (grupo da Rádio Moçambique) e Orquestra Marrabenta Star de Moçambique. Fez  tournées para (Inglaterra, Holanda, Itália, França, Portugal, Suécia, Noroega, Dinamarca, Zimbabwe, Guiné Conacry, Cabo-Verde e outros países

Em 1990 ganha o prémio Descobertas da RFI (Rádio France Internacional) e recebe uma bolsa de estudos para estudar técnicas bases de piano, arranjos e captação de sons em estúdio. Ele considera Manu Dibango o mentor que lhe aconselhou a concluir seus estudos e a voltar para Moçambique por  forma a pesquisar e incentivar outros músicos a trabalhar e a fazer progredir a música moçambicana a partir dos ritmos tradicionais de Moçambique.

Desde que gravou o seu primeiro disco em 1991 com apoio da RFI e a Maison des cultures du Monde, Chico António tem trabalhado em laboratório de experiência de fusão de instrumentos e ritmos tradicionais com instrumentos e ritmos modernos , incentivando os profissionais e a nova geração a trabalhar nessa direcção de forma a encontrar uma maneira de estar e ser do músico moçambicano.

Fora da música, Chico António vai lançar brevemente um documentário sobre sua vida. “O produtor do documentário é  Leonel Mulino. António Cabrita está a fazer um livro. O Cremildo também está a escrever sobre mim. Portanto, há uma série de produtos sobre a minha pessoa que serão lançados”.

 

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