Artes & Letras

Artista para o mundo

Não é tímido, mas é pouco conversador. Cabelo grisalho, cigarro na ponta da boca. O seu talento transborda desde a guitarra acústica, percussão, composição. Sua idade é um mistério, mas seu atrevimento já o fez brilhar em palcos fora de Moçambique. Com banda, ou em Play back,Pedro Ben é calejado na música”

Conservador, nem a convivência com os europeus o faz mudar seu estilo. Bem calmo, conversa enquanto segura numa mão um cigarro e noutra, um café. Consigo traz uma pastinha que lhe assegura os segredos do sucesso. “ Estás a ver essa pasta aqui, nela carrego comigo um gravador, sempre que tiver uma ideia ou ver algo na rua que me interessa tiro e gravo”.

Pedro Ben está radicado em Londres, na Inglaterra. Recentemente participou no 8º Festival Marrabenta. É a primeira vez que o convidam, mas mesmo com o pouco conhecimento que tem sobre o evento, não poupa nas críticas: “Este festival pecou por ter arrancado um pouco tardio, e porque no começo também convidaram artistas que não são moçambicanos. Mas o festival é da marrabenta, e ela é nossa”, atira certeiro.

Questiona: “Se são moçambicanos que fizeram e divulgaram a marrabenta, porque não nos convidaram todos logo na primeira edição?” indaga o artista que diz não ter nada contra esses convites.

Apesar dos constrangimentos lança um elogio ao evento: “penso que este festival deve continuar com músicos moçambicanos. Espero que as pessoas participem porque é uma boa oportunidade para apreciar um som tipicamente moçambicano e não se pode perder essa possibilidade”, diz.

Para além de proporcionar a música moçambicana ao público, este festival enquadra-se também no âmbito da responsabilidade social, tanto mais que servirá de elo para colectar diversos bens que serão canalizados para o apoio às vítimas das cheias no país. Para Pedro Ben a iniciativa é de louvar, ele acredita que trata-se de uma questão de unir o útil ao agradável, e garante: “eu mesmo vou contribuir com algum dinheiro, mas não gosto de especificar os valores, não faz meu tipo”, argumenta.

ENCONTRO

DE GERAÇÕES

O festival de marrabenta, mais do que fazer os moçambicanos navegarem na sua cultura, irá servir de elo para juntar vários artistas de gerações diferentes. Nesse encontro, haverá convivência entre artistas e também a troca de experiencias:

“Esse encontro ou essa junção de gerações é boa, porque os novos vão aprender algo com os mais velhos para poder dar continuidade à marrabenta. A antiga geração também vai aprender algo que será a nível da orquestração musical, até porque isso também conta muito”, diz.

A sua estadia fora do país não lhe impede de fazer observações no que tange à evolução da música moçambicana. O pouco que acompanha da música em Moçambique cogita que as letras poderiam ser mais educativas e talvez poderiam trazer poemas educativos. Pedro Bem acredita também que o ritmo e orquestração estão num bom caminho.

A título de exemplo, são os temas que Pedro Ben aborda nas suas músicas. O classicismo que reside nas suas melodias faz com que o povo escute com gosto suas músicas: “elas quando passam até mesmo na rádio as pessoas gostam porque dou a importância à melodia. Expresso o que o povo sente, e nisso é preciso ter melodia que fique para sempre nos ouvidos do povo”.

Pedro Ben, actualmente diz não se sentir ainda realizado na sua carreira musical: “quero mais e sinto que posso dar mais, ainda que a qualidade nas músicas exija muito dinheiro”.

TOCÁVAMOS SEM

PENSAR NO DINHEIRO

Pedro Ben, para além de ter uma paixão pela música já se interessou pelo futebol: “mas a música cortou tudo”, diz o artista. Nascido no bairro da Mafalala, cidade de Maputo, cresceu no antigo bairro indígena (Munhuana actualmente). Aos 7 anos de idade, começou a interpretar alguns temas de música Gospel na igreja. Sua família não aprovava a profissão que ele queria seguir, mas o seu gosto superou as barreiras.

O pai que não aprovava o desejo do filho, fazia vida negra ao Pedro: “fugia de casa para ir fazer bailes/concertos. Quando voltava encontrava as portas fechadas e ficava sentado na cozinha. As vezes castigavam-me; meu pai batia porque queria que estudasse”, lembra com um pouco de raiva. “Se fosse hoje, um dos meus filhos quisessem cursar música, eu o metia numa escola, mas antes não pensavam assim”.

Durante a conversa, Pedro Ben viaja de novo ao passado, e busca a história que aconteceu ao seu ídolo que lhe influenciou bastante. Ossimane Valgi, compositor da música Chope, o autor da música “Toté toté toté”, que um dia foi encontrado com a mulher doutro homem. Fizeram-lhe escolher entre cortar a mão e ficar cego. Ele preferiu ficar com a mão para poder tocar e ficou cego. “Quem me contou essa história foi meu tio Zacarias que tocou com ele”, lembra e em seguida lamenta: “mas a música dele já nem passa na rádio”.

Entre as rejeições da família e as influências do tio, a paixão pela música foi crescendo através da rádio que escutava em casa: “meu pai tinha gramafone (discos com um tamanho maior relativamente aos actuais). Ouvia rádio e comecei a gostar da música”, lembra com um sorriso.

Aos 16 anos já tocava com uma banda local e interpretava músicas de vários autores como é o caso de Elvis Presley, Agnaldo Temóteo, entre outros. A qualidade do som estaria por detrás do interesse pelas músicas estrangeiras visto que “na altura tinham uma forma de ser e estar muito boa. A colocação da voz era muito interessante e isso fascinava-me. Foi com eles que aprendi a cantar e tocar”, conta.

Quando começa a compor já em 1974, abdica da “filiação estrangeira” e inspira se em nomes como Francisco Mahecuane, Fany Mfumo, entre outros. Também cantava em latim: “isso acontecia nas missas da igreja, e tínhamos um maestro que ensinava-nos a dicção”, lembra

Fora da música, trabalhava como técnico de sonorização na Rádio Moçambique. “Pedi exoneração, aquilo já não me satisfazia e eles não me deixavam sair para tocar. Abandonei o trabalho”. Quando cria-se o grupo RM, Ben é convidado para integrar na banda juntamente com elementos como Wazimbo, Zeca Tcheco.

 Em 1978 tocou com artistas como Hortêncio Langa, Arão Litsure e Jaimito: “gravávamos sem pensar no dinheiro e era tudo com naturalidade. Eu cantava e fazia coro nas músicas deles e eles também nas minhas. O único que tocava mais do que cantar era o Jaimito.” Com o passar do tempo foram buscando mais elementos, como Otis e Sox para integrarem no grupo. Apareceu depois José Mucavele, Alexandre Langa e Ernesto zevo(ximanganine).

A ideia do grupo era compor e representar o país além fronteiras, divulgar essa arte e apoiar novos músicos. Ben, sem nenhuma formação especifica sobre música, (só aprendeu algumas notas para melhorar a respiração), hoje toca instrumentos como guitarra e é percussionista. Conhecedor dos palcos, diz que mesmo quando jovem sentia-se bem em estar naquele lugar, e hoje, com sua experiencia, “trabalhar em palco é como pegar na chave e entrar em casa”.

VIDA

NO ESTRANGEIRO

A vida em Moçambique nos anos 80 não estava fácil. O país atravessava uma instabilidade e se restabelecer era uma tarefa difícil. Pedro Ben, convicto do seu talento, emigra em 1983 para Portugal em busca de oportunidades: “em Lisboa queria tentar outra vida, procurar novos horizontes. Confesso que não foi fácil, mas consegui trabalhar com os portugueses”, conta.

Nas terras do fado conseguiu montar alguns estabelecimentos comerciais, mas depois se desfez do negócio e viajou para Brasil, onde conseguiu trabalhar numa estação televisiva da Câmara Municipal do Ciará, em Fortaleza. Na cidade das novelas, a intenção era continuar com o projecto que vinha levando a cabo em Portugal. Mas algo lhe fez desistir: “lá há muita gatunagem, tinha que ter guarda-costas no negócio”, explica o motivo. Em seguida viu se obrigado a voltar a Portugal.

De Lisboa rumou aos Estados Unidos de América, em Providence (Rode Island). Em Boston (EUA) não conseguiu manter contactos com os moçambicanos, porque estavam muito longe, a distância entre os estados não permitia e a maioria dos moçambicanos vive na Califórnia.

Foi durante a sua estadia nos EUA que Pedro aprendeu sobre as exigências necessárias para que as músicas tenham qualidade. A qualidade que sai das músicas que são gravadas lá dá gosto de ouvir com outros ouvidos. O segredo disto tudo está na masterização delas. “É o que falta aqui em Moçambique, não temos material como eles para chegar àqueles padrões de qualidade”, lamenta o artista.

De EUA seguiu viagem para Londres e é lá onde vive actualmente. Na Inglaterra conseguiu manter contacto com os artistas moçambicanos Hélder Tsinine e Hélder Paco. Por causa dos gastos, este último acabou ficando em Londres, perdendo assim a participação no festival da marrabenta. Para além das relações que mantém com seus conterrâneos na diáspora, toca com uma banda local.

Mas às vezes, as relações do Pedro com outros artistas moçambicanos no exterior eram dificultadas por causa do fuso horário. Mesmo assim, o artista diz que conseguia realizar concertos, com banda ou até mesmo a Play back.

NUNCA TIVE

PATROCÍNIO

DE NINGUÉM

Na sua estadia na diáspora, Pedro Ben já lançou três CD’s todos em Portugal. O primeiro foi lançado em 1991 e intitulava se “Músicas de Moçambique”. O segundo apareceu em 1998 com o nome “Lusofomando”. Já o terceiro denominado “Khanimambo” apareceu em 2005. “Os CD’s não foram vendidos em Moçambique porque não tive ninguém que cuidasse dessa parte, vinha e voltava e nunca contactei ninguém para que se vendesse os discos. Mas sinto que o povo me apoia, ainda que de uma forma distante”.

Quando gravou ainda existia dificuldades de levar os CD’s para Moçambique. “A culpa não é minha também”, distancia-se. Actualmente diz estar a preparar um novo CD, e que nele pretende abordar os problemas do dia-a-dia. Para além de buscar a actualidade, irá trazer alguns temas antigos que não foram gravados. “Há um tema que tem a ver com o dia dos homens. Penso que muita gente vai ouvir com muito gosto. Ela é educativa, escrevi-a e penso que vai lhes interessar”.

Apesar de ter um reconhecimento a nível internacional, Pedro Ben diz que ao longo do seu percurso não se lembra de ter recebido apoio financeiro de qualquer instituição que seja:“eu nunca tive patrocínio de ninguém, por isso não lancei meus CD’s aqui e eles não estiveram a venda no país. Mas agora as coisas estão diferentes, já aparecem patrocinadores a organizarem espectáculos. Antes isso não havia e eu também quero arranjar patrocínio para poder gravar e trazer um produto com qualidade”.

QUERO

VOLTAR A CASA

A distância que separa o artista da sua legião de fãs não faz com que eles percam admiração por ele. Depois de muito tempo sem actuar nos palcos nacionais, ele acredita que foi recebido bem e que não há motivos para se queixar de nada. Mesmo vivendo só de musica e gravando usando sempre recursos pessoais, diz não ter motivos para desistir dessa arte.

Apesar de acreditar existir espaço para todos no estrangeiro, o artista revela que gostaria de ajudar os músicos trabalhando com técnicos que fazem gravações para transmitir o que sabe.

“Penso em vir fazer mais concertos para apresentar as minhas músicas. Tenho músicas que não posso apresentar no festival, porque não são marrabenta. Já fiz concertos na Suécia que entra violino. Gostaria de fazer um concerto desses, mas tem que ser num lugar fechado”, diz.

Pai de três filhos, revela que pretende regressar a Moçambique: “é minha terra e gosto dela. Tenho que arranjar uma casa para morar, tenho família e não posso viver numa pensão. Preciso criar condições para que isso aconteça”.

Pretelerio Matsinhe

Colaboração

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