Artes & Letras

A música moçambicana tem de ser gravada com padrões internacionais

O músico moçambicano Pedro Ben, actualmente a residir em Londres defende que a música moçambicana deve ser internacionalizada para que seja mais consumida no estrangeiro. E a condição indispensável para que tal aconteça é a gravação e masterização, tendo em consideração os padrões universais  do world music.

Pedro Ben que foi um dos fundadores do grupo RM, está em Maputo desde há dias, por duas razões: “Vim por causa do meu pai. Ele vive longe da cidade. E quero trazê-lo para cidade. Também vim para actuar no Verão Amarelo, em concerto a ter lugar no dia 21 de Novembro, na Fortaleza de Maputo, como convidado de Otis (Alípio Cruz)”.

Suas músicas, Amor de mãe; Amahanhela; Mina nawena; Tivonele; Tombi Lhale, entre outras animaram pistas de dança, casamentos, lobolos  e muitas festas no passado.

Igual  a si mesmo, cabelo grisalho, sorriso sempre presente, Pedro Ben traz consigo uma esperança, a de ver os moçambicanos cada vez mais desenvolvidos, com habitação e defensores de um país com a moral cívica e cidades exemplares, em termos de conservação e limpeza, como fora no passado.

Tenho saudades da minha cidade de Maputo limpa. Já fomos cartão  de visita a nível da região. Hoje, temos pessoas a venderem nos passeios, o que faz com que os peões andem nas estradas, onde os chapeiros conduzem mal e fazem acidentes”, afirma Ben.

Mesmo estando longe, acompanha a evolução da música moçambicana. “ Acompanho  a música moçambicana através do you tube. Houve um jovem que abordou-me sobre isso e disse que um dos constragimentos de músicos da minha geração reside no facto de não terem vídeo clips, o que dificulta de certa forma o conhecimento de suas músicas.  A música moçambicana está a avançar.  Podia estar melhor, pois a componente divulgação internacional é vital”, defende Pedro Ben.

O músico afirma que  as produções que acontecem no país são feitas para o consumo interno. “Alguns estão na música para sobreviver, sem tempo, afecto nem paixão pela música. Isso dificulta que eles trabalhem em prol da música com qualidade. Uns apostam no hip hop por ser rápido de gravar, talvez. Não basta gravar só por gravar. É preciso seguir uma série de normas que nos conduzam a um produto final de qualidade, audível e aprazível”.

Reconhecendo o alto potencial dos músicos moçambicanos, principalmente os jovens, Pedro fez referência ao músico Ziqo.“É um jovem talentoso. Mas a sua música não tem um som forte. Creio que é preciso, ao gravar, comprimir o som para que saia com maior presença”.

UMA VIAGEM PELO MUNDO

Em busca da vida, Pedro Ben saiu de Moçambique em 1983, rumando para Lisboa- Portugal, onde permaneceu até o ano 2008.

Mesmo dedicando-me à música, em Portugal tive dois bares que funcionavam em simultâneo. Minha mulher ajudava nos bares quando eu fosse tocar. Quando a crise começou a dar demonstrações, fui para Brasil em 2005”.

Na terra do Samba, Brasil, Pedro Ben tentou desenvolver negócio. Mas o nível de violência e insegurança não o encorajaram a permanecer.“Encontrei  o meu amigo Guilherme Silva e com ele fui a Sucutinga, um sítio que dista da Fortaleza 77 quilómetros. O objectivo era desenvolver negócio. Mas o clima à volta do local não agradava e desisti”.

Em 2008, Pedro Ben foi aos Estados Unidos da América (EUA), onde permaneceu três em Providence. “Nos EUA (Catedral da música) fui entender como funciona a Indústria Musical. Queria fazer um estudo sobre as razões do sucesso da música norte-americana. E descobri que o marketing, a masterização, a qualidade do som e a forma como comprimem a música ao gravá-la, resulta num produto irresistível”.

Durante a presença nos EUA, Pedro cantou. “A primeira vez que cantei lá foi em play back. Ainda não tinha o contacto dos cabo-verdianos com os quais, mais tarde, passei a formar a banda acompanhante. Trabalhei com Jim Job, que colaborou com os Irmãos Verdade. Cantei Marrabenta em Changana e eles gostaram. Diziam que a música tem Groove. Depois interpretei Elvis Presley, um astro sobejamente conhecido nos Estados Unidos da América. Aí, foi a conquista. Perguntaram de onde vinha e dizia Moçambique. Muitos deles não sabiam onde é Moçambique”.

Da aprendizagem que teve a nível da Indústria Musical, Pedro pensa aplicar em Moçambique.“Um dia voltarei definitivamente para o meu país e vou aplicar todos os conhecimentos. Tenho estado fora mas com Moçambique na alma”.

TENHO MATERIAL PARA UM DISCO

Trinta e um é o número de anos em que Pedro Ben vive fora do país. Não gravou nenhum disco, mas promete. “A gravação do disco pressupõe tempo e concentração. Tenho registados novos temas e tenho material para um disco. Por isso, não vou tirar  um disco com temas antigos, mas sim novos”.

Em Londres, onde reside actualmente, afirma ser possível viver da música. “Não há muita comunidade moçambicana. Mas os ingleses gostam da música africana. Mais um motivo para os promotores levarem músicos moçambicanos para lá”.

Pai de três filhos, Pedro Ben tem uma angústia . “ Tenho três filhos e nunca consegui os juntar. Essa é a minha tristeza.  Um filho vive na França, outro vive em Londres e outro em Moçambique.  Uma vez consegui ter dois juntos, no Natal. O terceiro não veio porque estava na Espanha”.

Os tempos livres de Pedro Ben são passados a ouvir música. “Oiço todo tipo de música que eduque o meu ouvido.  A nível da gastronomia sou apreciador de legumes, saladas. Não como carne por opção. Não sou vegetariano”.

Frederico Jamisse

Fotos de Mauro Vombe

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