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Estreito de Hormuz: a reemergência da “madman theory” na política externa dos EUA

Por Edson Muirazeque

A crise em curso no Estreito de Hormuz constitui um dos episódios mais significativos de instabilidade estratégica do sistema internacional contemporâneo. O ponto de estrangulamento energético global transformou-se num espaço de confronto directo entre os EUA, sob a liderança de Donald Trump, e o Irão, com impactos imediatos na segurança marítima, nos mercados energéticos e na arquitectura regional do Médio Oriente.

No centro desta crise está uma escalada retórica e militar sem precedentes recentes, marcada por declarações de Trump sobre a possibilidade de “aniquilar a civilização persa” caso o Irão mantenha restrições à navegação no estreito de Hormuz.

A linguagem de Trump, independentemente da sua interpretação literal ou performativa, reabre um debate clássico em Relações Internacionais: trata-se de uma estratégia coerente de coerção máxima ou de uma manifestação contemporânea da “madman theory”, onde a imprevisibilidade calculada se torna instrumento de dissuasão?

O Estreito de Hormuz é um ponto de estrangulamento energético de importância sistémica. Por ele passa uma parte substancial do comércio global de petróleo e gás natural liquefeito, tornando qualquer perturbação uma ameaça directa à estabilidade da economia internacional.

Recentemente, a importância do estreito foi amplificada por três factores: a militarização crescente do Golfo Pérsico; ataques intermitentes a navios comerciais e militares; e tentativa iraniana de usar o estreito como instrumento de pressão estratégica, depois que os EUA e Israel decidiram bombardear o país persa.

O resultado foi a transformação de uma rota comercial num espaço de conflito híbrido, onde o comércio, a guerra e a coerção política coexistem.

O que está a acontecer na região do Golfo Pérsico pode ser inicialmente explicado pela teoria clássica da escalada militar. Após ataques contra alvos iranianos no passado mês, seguiu-se uma resposta iraniana baseada em capacidades assimétricas — mísseis, drones e interferência naval no estreito. É um padrão que corresponde ao modelo clássico do dilema de segurança: os EUA interpretam o comportamento iraniano como ameaça à liberdade de navegação; o atacado Irão interpreta as intentonas militares norte-americanas, e os discursos da liderança de Washington assim o indicam, como tentativa de mudança de regime; enquanto os EUA agem de forma ofensiva, o Irão reage defensivamente, aumentando o nível geral de violência na região. Leia mais…

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