Há três anos, Gizela Monteiro capitalizou positivamente a agonia que sentiu ao conviver com os sintomas da menopausa sem os compreender e sem um guia que a direccionasse. Quando superou o desconhecido, crio o movimento “Menos Pausa, Mais Conhecimento”, com o propósito de ajudar outras mulheres a não passarem pelo mesmo drama e dor que experimentou e a encararem a fase sem tabus.
Hoje, o movimento é composto por 87 mulheres com idade entre 35 e 60 anos e interagem todos os dias numa plataforma de rede social fechada, onde, de forma aberta, falam sobre a menopausa, apoiam-se umas às outras e redescobrem- -se nesta fase adulta, em que o organismo feminino passa por um processo natural e inevitável de maturidade.
Ao domingo, Gizela recuou no tempo para partilhar a dimensão da complexidade do que foi sentir “na flor da pele” as transformações que seu corpo experimentava sem que ela pudesse intervir. “Discutia e irritava-me com facilidade, mas pouco dava conta disso, até que a minha família passou a chamar-me à razão”, conta. E, quando isso acontecesse: “eu ficava ainda mais irritada porque não percebia esta situação”.
Acompanhado a isso vieram as ondas de calor e os suores nocturnos. “Num dia de tempo fresco, eu transpirava, e era algo desconfortável, porque não entendia o que estava acontecer comigo”, partilha. Com o passar do tempo, a situação piorava.
“A meio da noite, transpirava a ponto de despertar com os lençóis molhados. Levantava para fazer um banho e arrefecer o corpo, depois trocava de lençóis. Ali, apercebi-me que algo não estava bem em mim”, detalha.
Inconformada, começou a levar o assunto mais a sério e a buscar opiniões a respeito no seio familiar. “Um dia, em conversa com minha irmã e uma amiga perguntei se isso não acontecia com elas, ao que responderam que não e disseram que talvez estivesse a entrar para a menopausa. Rejeitei o que ouvi delas e fiquei chateada”, recorda-se. Com o passar do tempo, investigando os sintomas e interagindo com outras mulheres em outros ambientes sociais, passou a perceber que estava mesmo na fase de pré-menopausa.
Chegou a buscar ajuda em técnicos de saúde para saber como lidar com isso, mas sem sucesso. Sua tábua de salvação foi a plataforma digital “Google”.
Actualmente, para enriquecer mais o movimento “Menos Pausa e Mais Conhecimento”, Gizela conta com a parceria de uma ginecologista, uma nutricionista, uma treinadora física e uma professora de dança. “Estes profissionais são fundamentais para acompanhar e ajudar a mulher nesta fase”, sustenta.
Também conta com um livro digital onde fala do assunto, realiza “workshop” e presta assistência. Observa que a falta de informação leva a que este assunto crie muitos tabus. “Muitas mulheres não têm apoio no meio familiar, sobretudo dos parceiros, e por isso fecham-se.
Num ‘workshop’, uma mulher contou que quando abordou esse assunto com o parceiro, este disse-lhe que não queria saber. Há um entendimento de que a mulher se torna sexualmente inútil”, conta. No desenvolvimento de actividades sobre a consciencialização da importância de saber lidar com a menopausa e a fase a posterior, Gizela conta que, “por receio de serem reduzidas e invalidadas, muitas mulheres ainda que conscientes da menopausa se escondem. Também lamentou a falta de informação e de profissionais de saúde que sabem lidar com isto”, alerta.
SEXUALIDADE NA MENOPAUSA
De acordo com a médica ginecologista, na fase pré e pós-menopausa, a sexualidade permanece activa, porém com nova dinâmica, pois, com a queda dos hormônios, a resposta sexual torna-se lenta. Milene Mucache revela que a redução do prazer sexual da mulher pode também estar associada à atrofia ou secura vaginal, o que pode causar dificuldade nas relações sexuais, e aconselha: “neste caso, a mulher pode recorrer a creme vaginal de estrogênio ou adesivo de estrogênio”, esclarece. Por seu turno, Gileza Monteiro aconselha que os casais explorem mais o campo e o desejo sexual de forma recíproca e desenvolvam diferentes actividades a dois como forma de estimular o desejo de ambos. O uso de lubrificantes à base de água é outra alternativa recomendada para a redução de desconforto no acto sexual.
UM PROCESSO NATURAL
A menopausa é o marco fisiológico que encerra os ciclos menstruais. É diagnosticada após 12 meses consecutivos sem menstruação, ocorrendo geralmente entre 45 e 55 anos. É tida como o fim do período reprodutivo. E ela acontece devido à redução dos hormónios (estrogénio e progesterona), que causam sintomas como ondas de calor no corpo, alterações de humor, fadiga e secura vaginal.
A menopausa ainda é cercada por desinformação, inseguranças e silêncio. De acordo com Milene Mucache, médica ginecologista, muitas mulheres sabem que, em algum momento após a vida reprodutiva, deixarão de menstruar. No entanto, “poucas estão preparadas para compreender e lidar com a transição menopáusica, período que pode durar até 10 anos e trazer impactos significativos na saúde física e emocional”, apontou.
Em geral, os sinais de transição iniciam aos 40 anos, onde os primeiros indícios são as alterações no ciclo menstrual, como irregularidade, espaçamento entre as menstruações ou redução do fluxo. Aos poucos, podem surgir sintomas como ondas de calor, alterações de humor, insónia e dificuldade de concentração.
Segundo a ginecologista, esse processo ocorre porque a mulher nasce com uma quantidade determinada de óvulos, que se esgotam ao longo do tempo. Com a falência da função ovariana, há uma diminuição acentuada dos níveis de estrogénio – hormónio essencial para o equilíbrio do organismo feminino. A queda hormonal não afecta apenas o ciclo menstrual: ela tem repercussões sistémicas.
Milene Mucache explica que, entre os principais impactos, destaca-se aumento do risco de doenças cardiovasculares, a perda de massa óssea e a chamada síndrome geniturinária da menopausa, caracterizada por secura vaginal, dor durante a relação sexual, diminuição do desejo e alterações urinárias. Neste processo, até a saúde mental pode ser afectada. “A mulher pode ter maior predisposição a sintomas depressivos, irritabilidade e distúrbios do sono.
As ondas de calor, consideradas o sintoma mais comum e incómodo, podem persistir por cinco, seis ou até dez anos, em algumas mulheres”. Entretanto, é fundamental ter em conta que a experiência da menopausa é altamente individual. Enquanto algumas mulheres apresentam sintomas leves e toleráveis, outras enfrentam manifestações intensas que comprometem o desempenho profissional, a vida social e o bem-estar emocional.
Por isso, não existe um tratamento padrão. “A conduta deve ser definida de forma individualizada, considerando a intensidade dos sintomas, o impacto na qualidade de vida e o perfil de saúde da paciente”, justifica a especialista.
MENOPAUSA PRECOCE
Quando acontece entre os 40 e 45 anos, é considerada precoce. Já antes dos 40 anos, trata-se de falência prematura dos ovários – condição menos frequente e que requer abordagem diferenciada. Há também casos de menopausa não natural, como quando a mulher perde a função ovariana após cirurgia para retirada dos ovários ou em decorrência de tratamentos como quimioterapia ou radioterapia. Por outro lado, a menopausa tardia, após os 55 anos, também merece atenção, pois pode estar associada a maior risco de algumas doenças ginecológicas, como o cancro do endométrio.
CUIDADOS A PARTIR DOS 40 ANOS
Especialistas alertam que, a partir dos 40 anos, a mulher deve redobrar a atenção à saúde. Consultas ginecológicas anuais continuam sendo recomendadas, mas podem ser complementadas por avaliações específicas, conforme o histórico clínico. “Check-ups” que incluam avaliação da saúde cardiovascular, função hepática e outros indicadores tornam-se fundamentais, especialmente porque certas condições podem contraindicar a terapia hormonal.
A médica ginecologista alerta também que a menopausa representa uma mudança de foco nos cuidados de saúde. “Se, antes, as principais preocupações envolviam contracepção e gravidez, nesta fase a atenção deve se voltar para a prevenção de doenças cardiovasculares, osteoporose e para a manutenção da qualidade de vida”, detalha.
Sublinhar que estudos mostram que mudanças no estilo de vida são frequentemente a primeira linha de abordagem. A prática regular de actividade física, alimentação equilibrada, técnicas de relaxamento, meditação, yoga e terapia cognitivo-comportamental têm demonstrado benefícios na redução de sintomas físicos e emocionais. Quando os sintomas são mais severos, pode ser indicada a terapia de substituição hormonal. Utilizada há décadas, ela consiste na reposição de hormônios, especialmente o estrogênio, para compensar a queda natural da produção ovariana. Este tratamento, de acordo com a médica, pode aliviar ondas de calor, melhorar a secura vaginal e contribuir para a preservação da massa óssea.
A terapia pode ser administrada por via oral, por adesivos transdêrmicos ou por meio de cremes vaginais, indicados principalmente quando os sintomas são predominantemente genitais. No entanto, nem todas as mulheres são candidatas ao tratamento hormonal.
“A indicação depende de avaliação médica criteriosa. Existe ainda a chamada ‘janela de oportunidade’: mulheres com menos de 60 anos e até dez anos após o início da menopausa tendem a apresentar melhor relação entre riscos e benefícios da terapia hormonal. Após esse período, os riscos podem superar os benefícios, tornando a indicação mais restrita”, chama atenção.


