- Moçambique recebe médicos estrangeiros para treinamento de nova técnica de
abordagem cirúrgica da fístula obstétrica, usada somente no país.
Diz o velho ditado: “santo de casa não faz milagres”. Mas, durante a semana finda, esta máxima foi contrariada. Igor Vaz, médico urologista e presidente da Fundação Focus Fístula, serviu-nos de exemplo ao partilhar com o mundo da medicina uma nova abordagem cirúrgica usada somente em Moçambique, tudo por uma causa nobre: devolver a dignidade às mulheres.
TREINAMENTO A MÉDICOS ESTRANGEIROS
Quando Igor Vaz entrou na sala de reuniões da unidade sanitária que apoiou a acção, cedendo equipamento e um dos seus espaços de cirurgia, um grupo de aproximadamente 20 profissionais de saúde, entre médicos e cirurgiões de diversas nacionalidades, como irlandesa, belga, congolesa, zambiana, ugandesa, ruandesa, sul-africana e também moçambicana, trocava impressões enquanto aguardava pelo início do treinamento avançado da fístula obstétrica e cirurgia pélvica reconstrutiva. São, na sua maioria, profissionais responsáveis pelos programas nacionais de fístula nos seus países. Depois de cumprimentá-los, Igor Vaz fez uma breve apresentação da paciente que, brevemente, passará a gozar de uma nova qualidade de vida.
A. Lourenço é proveniente da província de Sofala, tem 24 anos e, há 10, vive com a fístula obstétrica. O seu histórico é semelhante a de muitas raparigas acometidas pela condição. Engravidou aos 15 anos e teve um parto arrastado. Seu bebé permaneceu por dias no canal vaginal. O processo iniciou em casa e levou muito tempo para chegar à unidade sanitária. Quando chegou ao hospital, foi operada de urgência, o que obrigou a retirada do útero pelo facto de se ter rompido.
O urologista também falou do seu primeiro contacto com a paciente. “Quando a observei em Sofala, adverti os médicos que ela devia ser transferida para Maputo. Precisava de uma cirurgia urgente de construção da bexiga”. Após o parto, A. Lourenço passou por quatro intervenções cirúrgicas na sua província, contudo, sem resultado satisfatório.
Na interacção que sucedia, Igor Vaz detalhava os procedimentos e adiantava a complexidade do caso. Na sala de cirurgia, o urologista fazia-se acompanhar por mais quatro médicos especialistas, entre moçambicanos e estrangeiros, compondo uma equipa de três urologistas, um cirurgião e uma ginecologista. Enquanto isso, o restante do corpo médico acompanhava o procedimento em tempo real, através de um monitor de vídeo-câmara na sala de reuniões.
Ao fim de quase oito horas de intervenção cirúrgica, voltou à sala médica para mais uma interacção, onde explicou a razão de cada procedimento e esclareceu às dúvidas. “É uma das três intervenções complexas deste treinamento. Foram feitas em simultâneo cinco ou seis cirurgias e aplicámos a nova técnica de abordagem cirúrgica”, explicou o líder da equipa e, posteriormente, detalhou cada passo para justificar o tempo. “Construímos uma nova bexiga e aumentamos-lhe o tamanho; criámos um sistema de continência com apêndice que lhe permita não perder a urina; fechamos a fístula recto-vaginal; reconstruimos a vagina, pois estava totalmente destruída. E, para tal, tiramos um segmento do intestino para fazer a sua reconstrução”.
Desta natureza, a fundação operou mais casos semelhantes: S. Simango, de 26 anos e natural de Manica, e de J. João, de 35 anos, proveniente da província da Zambézia e com fístula há 9 anos, que tinha passado por uma operação antes.
ÓPTIMAS IMPRESSÕES
François F. Phillipe, médico urologista de nacionalidade belga, manifestou a sua satisfação em ver um país africano a buscar soluções locais para apoiar na área de saúde, que na sua opinião é das mais sensíveis em África. “Apesar de vir de um país em que a fístula obstétrica é quase que inexistente, este treinamento vai me permitir apoiar melhor os países africanos com que tenho trabalhado”, disse. François Phillipe coopera com uma associação de luta contra fístula no Congo e tem participado em programas de intervenção cirúrgicas gratuitas naquele país há mais de 20 anos.
Já para Evelyn Moshoicoa, médica ginecologista e cirurgiã de reconstrução pélvica de nacionalidade sul-africana, esta não é a primeira vez que tem oportunidades de trocar experiência com o urologista Igor Vaz. “Tenho muito respeito pelo trabalho que ele tem desenvolvido em Moçambique e no mundo a favor das mulheres. Muitas vezes tenho buscado o apoio dele, quando tenho casos de fístula no meu país. Ele é um ser de uma grandeza e simplicidade que já esteve no meu país a apoiar-me num caso”, declarou.
ABORDAGEM CIRÚRGICA EXCLUSIVAMENTE MOÇAMBICANA
Conforme foi avançado acima, a vinda de médicos estrangeiros responsáveis pelos programas nacionais de fístula nos seus respectivos países, para treinamento e aprendizagem, está também associado ao facto de Moçambique estar a explorar uma nova abordagem na intervenção cirúrgica das fístula. “O sistema de continência para a bexiga que usamos é diferente dos outros. Eles usam outra técnica que também implementámos no passado. Entretanto, como os resultados não eram satisfatórios para os nossos pacientes, decidimos pesquisar e construir técnicas adequadas à nossa realidade”, explicou Igor Vaz, líder da Focus Fístula. É que, para além de onerosa, dado o custo do material usado no paciente, a técnica aplicada pelos outros países que, é o recurso a sacos colectores de urina e também a transferência da urina da bexiga para o intestino, faz com que as mulheres contraiam infecções graves e, por causa disso, ou não conseguem controlar as urinas e as fezes.
PAÍS REGISTA CERCA DE 2500 CASOS POR ANO
Conforme foi destacado, nesta nova técnica o doente não precisa de usar sacos colectores. Entretanto, o médico observou que “o grande problema é que em África, como em Moçambique, onde a exiguidade de fundos é um dos grandes desafios dos governos, torna-se difícil adquirir esses insumos hospitalares, o que pode prejudicar os doentes. Com a técnica moçambicana, é implantado ao paciente um colector no umbigo que lhe permite ter auto-controlo da urina”.
Destacar que Moçambique continua a ser um dos países com elevado número de casos de fístula obstétrica, cerca de 2500, por ano. Um dos cenários que também contribui para que tenha uma das maiores taxas de mortalidade materna e neonatal.
As províncias de Nampula, Zambézia, Manica e Niassa são as que registam maior prevalência de casos devido a vários factores. A gravidez precoce, a distância percorrida pelas comunidades para aceder a uma unidade sanitária, associado à qualidade de atendimento, assim como à fuga de quadros para instituições de saúde privados em busca de melhores condições salariais, entre outro factores, são apontadas como principais causas para o incremento do número de casos.
FUNDOS CADA VEZ MAIS EXÍGUOS
Com a actual conjuntura mundial, esta organização humanitária (Focus fistula) está a ressentir-se da redução de apoios, o que condiciona as suas intervenções no apoio a mulheres com fístula no país. “O trabalho que fazemos ainda é reduzido para a demanda de casos que, anualmente, temos no país. São mais de duas mil raparigas e mulheres que sofrem com esta condição. São abandonadas, excluídas da sociedade e perdem a sua dignidade humana”, aponta Igor Vaz, membro e fundador da Fundação Focus Fístula. Para as cirurgias complexas, os doadores financiam entre 400 e 1000 Dólares por cada operação. Entretanto, 400 Dólares não cobrem todas as despesas. Vaz disse ainda que, com a redução dos fundos pelos doadores, a fundação tem buscado apoio junto das instituições nacionais para continuar a intervir na saúde das mulheres que, na sua maioria, vivem em situação de pobreza.
SOBRE A FUNDAÇÃO FOCUS FÍSTULA
É uma organização moçambicana sem fins lucrativos virada para área de Saúde. Foi criada em 2016 com o propósito de apoiar mulheres acometidas pela fístula. Nestes anos, tem trabalhado em parceria com o Ministério da Saúde e unidades sanitárias privadas e conta com doações de organizações internacionais como a Fistula Foundation, Embaixada da Irlanda e da França. Neste projecto de intervenções e treinamento, a organização contou com o apoio da Hospital Privado e da Clínica Cruz Azul que disponibilizaram as salas e equipamentos para as intervenções.

