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Uma viagem desassossegada na “Arca de não é” 1

Por Jornal domingo

Por: Lo-Chi

“Arca de não é”! Quem nela embarca consciente ou fortuitamente rema num rio nascido nas lágrimas daqueles que na noite de 19 de Março de 2019 foram apanhados na esquina traiçoeira do tempo meteorológico, que trouxe em companhia, na frente o vento e de seguida a chuva noctâmbula. Nessa viagem cheia de escolhos, esquivando hordas de tudo que foi tecto, parede, tronco de árvores; a visão permanente é a água infinita, no horizonte sempre aparente, e de quando em vez uma árvore, despida impudicamente pelo vento, apenas com corpos do que foi gente, driblando a morte ladina, nos ramos que horas antes eram copas, onde o silêncio expectante, a surpresa, o medo, o espanto, e algumas vezes a coragem, a força anímica e selvagem do desespero, e não poucas a aceitação e a apatia da rendição substituíram o chilreio dos pássaros sumidos. Por força de circunstância, o navegante em busca de sobreviventes, ora inventariará cadáveres, ora registará milagres; verá na cara de cada sobrevivente a assustada surpresa de ainda estar vivo, com a morte sempre à espreita. E tudo isso ocorrerá, atracando nos seguintes portos: “Jail house”, “Nuvem de espuma”, “Zé das abelhas”, “A minha primeira vez”, “O parto”, “O guardião”, “O poder’, “A bolsa”, “O crocodilo”, “Na pena de um pássaro”, “A professora Sónia”, “A caminhada”, “A fronteira”, “A menina que queria ser psicóloga”, e o porto que dá nome a almadia, “A arca de não é”, os quais constituem os quinze títulos que compõem este livro de crónicas. E das histórias contadas nestes acostamentos fluirão, como lágrimas descontroladas, uma miríade de emoções díspares, porque são de uma densidade dramática de tal ordem, que dificilmente aparecerá lei tor algum imune ao derrame de uma teimosa lágrima.

As crónicas que representam esse experimento intenso, do desastre humano, são: “ Nuvem de espuma”, “Zé das abelhas”, “A bolsa”, “A menina que queria ser psicóloga” e “No poder”. Nesta crónica, um drama intenso de perda e dor, ainda que atenuado pelo tempo dos verbos, que põe os factos, não como acção mas como evocação, tem subjacente uma lição de vida: a capacidade das tragédias tirarem-nos do salto alto, ou milagrosamente baixarem-nos os ombros da presunção, baseados naquela realidade imaginada, provocando um instantâneo delíquio da rigidez, incutida pela vaporosa importância dos cargos, retornando-nos a única classe… dos humanos, vulneráveis, impotentes e dependentes. Correrá o risco de, encabulado, esgar um sorriso travo e furtivo, no jeito de um riso desavisado no meio de um velório. Leia mais…

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