É um lugar-comum afirmar que uma imagem vale mil palavras. E o que dizer quando essa imagem, ou um conjunto de imagens, é resultado das próprias palavras, da forma como elas são seleccionadas, distribuídas, articuladas ou mesmo engendradas? Isto é, quando a imagem, ou o que ela representa, é indissociável da palavra que lhe dá origem?
Situação que se adensa e adquire uma complexidade e cintilação particulares quando o contexto é literário. E aí nos apercebemos que o caudal de representações com o qual nos confrontamos, portanto, o que as palavras nos pretendem dizer ou mostrar, só o poderia ser feito dessa forma única que a poesia, o conto ou o romance nos conseguem transmitir.
É, pois, por isso, que cada texto literário, além do manancial de imagens que nos proporciona é, ele próprio, imagem. Imagem de si próprio, da sua especificidade, e dos mundos para os quais nos remete. Na antológica e já tantas vezes revisitada analogia horaciana Ut pictura poesis, o pressupos to imagético, neste caso, da visibilidade, ressalta, de imediato, na associação da poesia à pintura, isto é, a poesia é como pintura.
Num alinhamento já do nosso tempo, e não muito diferente, encontraremos Maurice Blanchot (1987) que entende que a própria linguagem se torna, na literatura, imagem inteira, não uma linguagem que conteria imagens ou colocaria a realidade em figura, mas que seria a sua imagem, imagem da linguagem e não uma linguagem figurada.
A literatura, entre outros sortilégios, abre-nos a possibilidade de apreendermos a imagem muito para além da sua natural dimensão visual e mental, fazendo dela uma realidade singularmente trans- -sensorial, daí a recorrência da sinestesia, resultado da convocação e cruzamento de diferentes dimensções imagísticas, como sejam a táctil, a olfactiva, a auditiva e a gustativa. Leia mais…

