
– questiona Isaura Ferrão Nyusi, indignada com a onda de violência no país
A esposa do Presidente da República (PR) contestou, de forma veemente, a violência que vem marcando negativamente a sociedade moçambicana, caracterizada por agressões, sobretudo físicas, que muitas vezes terminam em mutilações e morte, durante o encontro que manteve, semana finda em Maputo, com mulheres organizadas, líderes comunitários, tradicionais e religiosos, no âmbito da sua visita de dois dias à cidade de Maputo.
A ocasião serviu de oportunidade para troca de “ideias e experiências, na busca de soluções dos problemas do nosso dia-a-dia”, sendo que, conforme considerou, a participação e ascultação de líderes comunitários, tradicionais e religiosos foi de suma importância “pela vossa capacidade de moderação de múltiplos assuntos da nossa sociedade”.
Isaura Nyusi criticou de forma incisiva as formas violentas de dirimir conflitos nos lares. “Hoje em dia, é muito comum ouvirmos história de mulheres que foram agredidas por seus parceiros ou vice-versa; crianças pelos seus pais; idosos pelos seus filhos ou netos. Isso preocupa-nos bastante, e não podemos continuar a permitir que aconteça”. Até porque “quem de nós aqui presentes gostaria de ver seu filho ou filha sem olho ou sem orelha? Queimado ou queimada com óleo de cozinha, ou água quente? Violado ou violada sexualmente? A mãe, sogra ou avó catanada e acusada de feitiçaria?”, questionou, ao mesmo tempo que defendeu a adopção de“formas mais pacíficas de resolver qualquer que seja o tipo de conflito”, destacando-se o diálogo, a coexistência pacífica, profundo espírito de tolerância e ponderação, conforme apontou.
Na Escola Secundária Josina Machel, instituição onde lançou a campanha da sua iniciativaEducar é prevenir, no âmbito do combate ao cancro do colo do útero, da mama e da próstata, Isaura Nyusi concentrou alunos, corpo docente e demais cidadãos, para discutirem em palestra, subordinada ao tema “A educação é a melhor forma de prevenção, e a prevenção é a melhor forma de tratamento”, os malefícios do cancro e sua prevenção.
Conforme sublinhou, “o cancro é uma realidade e ainda com alta mortalidade, pois o diagnóstico é feito tardiamente”, facto que deve ser contrariado, uma vez que a boa informação é que “felizmente é possível detectá-lo precocemente, através do rastreio e do conhecimento das suas manifestações”, o que possibilita um tratamento mais efectivo, mais rápido e menos dispendiosos, conforme anotou.
Aos presentes, especialmente os alunos, apelou para que sejam responsáveis pela divulgação dos conhecimentos ali adquiridos “junto dos vossos familiares e amigos”, de forma a contribuírem para que este mal e as doenças de transmissão sexual, bem como os danos causados pelo álcool, drogas e agressões de todo o tipo não desestruturem as famílias moçambicanas.
Intensificar a luz
em mamanas de meia-idade
O Centro de Alfabetização visitado pela esposa do Presidente da República, localizado no distrito KaMubukwane, é visto como uma chama que resplandece a vida de cidadãs de meia-idade, que naquela instituição encontram a oportunidade de concretizar os seus sonhos, alargando o horizonte do saber, através da instrução.
domingopresenciou momentos de verdadeira superação pessoal: mulheres de idade, trajadas de uniforme escolar, tal como as crianças que ali frequentam as aulas diariamente, de caneta e caderno em punho, erguendo a cabeça para responder “estamos presentes”, reafirmando, desse modo, a sua vontade de “dominar a ciência, único recurso para superarmos desafios, pela nossa idade avançada, mas confiantes de que sairemos vencedoras”.
Trata-se de mamanas machambeiras, comerciantes, domésticas, entre várias, que derrotam o preconceito e a vergonha e sentam-se à carteira com os seus netos e filhos.
Reagindo ao que testemunhava na ocasião, Isaura Ferrão Nyusi rasgou elogios a esta camada social e falou da indispensabilidade daquelas cidadãs apostarem em actividades como corte e costura e artesanato, cursos leccionados naquela instituição, a par das disciplinas curriculares, pois, segundo argumentou, só assim “estarão preparadas para o vosso empoderamento” e para responder aos desafios do país sob ponto de vista socioeconómico.
domingoconversou com algumas delas, que encarnam o corpo de meninas e se dedicam aos estudos ao nível primário: Lodina Sitoe, de 65 anos, residente no bairro do Jardim, aluna do 3.º ano; Judite Fumo, de 52 anos, residente no bairro Luís Cabral, que frequenta o 1.º ano e Hermínia António, de 39 anos, também aluna do 1.º ano.
Judite e Hermínia, casadas, entraram para o centro luzindo uma chama demasiadamente fraca. “Nunca estudamos, não havia condições quando éramos crianças”, revelaram. Já Lodina, também casada, teve na idade infantil a felicidade de ser matriculada em uma escola pelos seus pais, tendo frequentado da primeira até à 2.ª classe, no Centro Associativo dos Negros, localizado no bairro de Xipamanine. “Cheguei a saber ler e escrever, nessa altura, mas com o tempo, desaprendi”, declarou.
Entretanto, a vontade de interpretar, com clareza, o que está à sua volta levou a que estas três mulheres se matriculassem já adultas, com anuência dos seus companheiros, no centro de alfabetização.
Vantagens são notáveis, principalmente na vida de Lodina Sitoe: “Já sei ler e escrever. A minha matemática também melhorou”, afirmou, tendo acrescentado que após a culminação do 4.º ano, passará a se dedicar apenas a uma actividade económica.
As suas colegas de escola, Judite e Hermínia, estão ainda numa fase incipiente. “Estamos ainda a aprender a ler e escrever, não temos domínio das matérias”, confessaram.
De qualquer forma, “noto mudanças na minha vida, já vejo as coisas de outra maneira, e com a ajuda do meu marido acredito que brevemente estarei num nível mais avançado”, palavras de Judite, que sonha em seguir a medicina, ao nível superior, “para servir a todos com muito carinho”.
E se depender destas mulheres, o país poderá contar com mais quadros maduros, dentro de alguns, ainda que longínquos anos. Hermínia ainda tem dúvidas sobre o que pretende seguir lá mais para frente: “ainda não pensei”. Contudo, garantiu que irá fazer o nível superior. “Estou decidida a ser doutora e ninguém me vai atrapalhar”, disse aos risos.
FAZER DA ESCOLA
UM ESPAÇO DE BOAS PRÁTICAS
“A escola nunca foi um espaço de indisciplina incontrolável, muito menos de vandalismo e desordem, mas sim um espaço para educar e instruir o homem do futuro”.
Com estas palavras, a esposa do Presidente da República lançou um apelo aos alunos, em geral, e da Escola Josina Machel, em particular, para pautarem por comportamentos saudáveis, obstando a onda de violência e o comportamento desviado que tem caracterizado o ambiente das instituições de ensino.
Durante o seu trabalho na cidade de Maputo, algumas das recomendações giraram em torno do combate aos casamentos prematuros, facto que, conforme vem sendo anotado ao longo dos últimos tempos, está igualmente ligado ao início precoce da actividade sexual por parte dos jovens.
domingocolheu depoimentos de algumas alunas que denunciaram a existência de factores que contribuem sobremaneira para a secundarização dos estudos ou abandono da escola.
Alguns recintos escolares foram descritos como verdadeiros parques de horrores, conforme se pode depreender nas declarações que se seguem.
ACABAR COM O CORREDOR DA MORTE
–Cidália Guibunda, 15 anos, aluna da 10.ª classe
“Muitas meninas deixam de frequentar as aulas para se dedicarem a brincadeiras prejudiciais. Dentro das salas de aula é normal ver jovens concentrados para assistirem a filmes pornográficos a partir dos telefones celulares”.
Desta forma arrancou a nossa conversa com Cidália Guibunda, aluna da Escola Secundária da Polana, uma das participantes à palestra organizada no âmbito da visita de Isaura Nyusi à Josina Machel.
A menor garantiu existir um corredor da morte, como é conhecidona sua Escola, ou seja, um espaço escolhido para “fumar, beber e praticar sexo”.
Conforme referiu, tudo acontece sob o olhar inerte dos guardas e conhecimento de alguns professores, o que aguça ainda mais a ousadia dos alunos.
Prosseguindo as denúncias, apontou para os telemóveis como“um importante aliado, pois entram na internet, buscam más influências e referências que os levam ao mau comportamento”.
Entretanto, esta menor apontou, igualmente, o dedo acusador a alguns pais pelas gravidezes precoces das suas filhas. Conforme disse, “eles insinuam que as meninas devem se arranjar para garantir dinheiro para o seu próprio sustento, principalmente nesta altura da crise. Por isso elas metem-se, inclusive, com homens adultos, casados”.
Na sua forma de ver, a luta para acabar com estes males passa por reforçar a sensibilização destes adolescentes e jovens, através de palestras nas escolas e nas comunidades e o envolvimento dos pais na educação escolar. Até ao momento, segundo anotou, pouco tem sido feito.
RAPAZES ARRASTAM RAPARIGAS PARA O SEXO
–Agostina Andrade, 17 anos, aluna da 11.ª classe
“Aqui na Josina é comum ver meninos e meninas a consumirem drogas e bebidas em cantos conhecidos por todos: alunos, professores e funcionários”, denunciou Agostina aluna, da Escola Secundária Josina Machel.
A jovem afirmou que esses episódios acontecem aos olhos da maioria, sem que haja uma mão firme para os travar. A seu ver, os castigos são brandos, o que leva a que os infractores não se sintam intimidados.
Numa altura em que são alargados esforços contra os casamentos prematuros e gravidezes precoces, sendo que na cidade de Maputo foram registados até ao momento índices baixos de ocorrência, quando comparados com outros locais do país, facto referido numa das intervenções durante o encontro da Josina, alunos de diferentes escolas denunciam casos de actividade sexual descontrolados e perigosos para a saúde, que vezes sem conta terminam em gravidezes.
Agostina revelou que, em algumas circunstâncias, as relações sexuais acontecem por os rapazes forçarem as meninas ao acto, daí que pede às autoridades da Educação para reporem a ordem nas escolas.

