Visita marcada por um forte cunho empresarial e que acabou por se transformar numa maratona de negócios é como se pode classificar aquela que o Presidente da República, Filipe Nyusi, fez de 24 a 26 de Abril ao Botswana, na qual se fez acompanhar por cerca de trinta empresários moçambicanos que tinham como objectivo identificar e estabelecer possíveis parcerias.
Ficou clara a intenção do estadista que pouco mais de uma hora após a sua chegada à capital tswana reuniu-se com a delegação de empresários moçambicanos a quem disse directamente que a deslocação ao Botswana tinha como principal objectivo fazer negócios e não turismo.
“Deixem para nós, políticos, a parte diplomática e de questões burocráticas e vocês (empresários) limitem-se apenas a fechar negócios”,orientou.
A deslocação ao Botswana foi marcada por visitas aos sectores onde aquele país possui uma enorme vantagem comparativa, nomeadamente, produção de gado e processamento de carne, produção de vacinas, extracção, selecção e polimento de diamantes.
Aliás, a exportação de carne constitui a segunda maior fonte de divisas deste país da África Austral, depois dos diamantes, razão pela qual Moçambique está interessado em beber da sua experiência.
A necessidade de se imprimir uma mudança de foco nas relações entre ambos os países, ou seja passar da diplomacia para relações económicas e empresariais também marcou o tom do discurso de Nyusi durante o banquete de Estado oferecido pelo seu anfitrião no primeiro dia da visita.
“Ontem, posicionados na mesma trincheira, lutámos lado a lado para vencer a dominação estrangeira, hoje, estamos em condições de vencer a luta pelo desenvolvimento socioeconómico dos nossos dois países e povos”,disse o estadista moçambicano.
Explicou que Moçambique é um país com muitas potencialidades e oportunidades para negócios, devido aos seus ricos recursos naturais que precisam de investidores para a sua efectiva exploração.
“É neste âmbito que viemos, junto do sector económico deste país, reiterar o nosso convite para que Botswana participe nos projectos-âncora existentes em Moçambique, com destaque para os corredores de desenvolvimento, geração e transmissão de energia eléctrica, transporte e comunicações, turismo, agropecuária e mineração”, acrescentou.
Vincou que a participação de empresários tswanas nestes e noutros projectos poderá impulsionar o desenvolvimento socioeconómico de ambos os países e dinamizar a integração regional.
PRODUÇÃO DE GADO
UMA EXPERIÊNCIA ÍMPAR
A tarde do primeiro dia no Botswana foi marcada por uma visita à empresa IMPACTI Genetics (Mmamashia), um centro para o melhoramento genético de gado bovino.
Não se trata de modificação genética de forma intrusiva a nível molecular, mas sim através de cruzamento de espécies e inseminação artificial para a criação de uma espécie que melhor se adapte a um meio ambiente específico.
Segundo a explicação dada na circunstância, a produção interna de leite no Botswana é, entretanto, insuficiente para suprir as necessidades do mercado, algo que poderá ficar ultrapassado dentro dos próximos anos com a melhoria genética do gado leiteiro.
A fonte acrescentou que, através do melhoramento genético, algumas das suas raças chegam a atingir um peso de 400 quilos num período de cerca de 15 meses, sucesso para o qual “não foi fácil, pois exige uma mudança de mentalidade dos próprios camponeses que, em muitos casos, chegam a criar uma relação afectiva com os seus animais”.
Trata-se duma produção assinalável quando comparada com o caso de Moçambique, onde a maioria dos criadores mal conseguem que os seus animais atinjam um peso de 100 quilos após um ano.
Por isso, a vice-ministra da Agricultura e Segurança Alimentar, Luísa Caetano Meque, que acompanhou o Presidente da República ao Botswana, disse que foi uma oportunidade importante para Moçambique colher a valiosa experiência daquele país.
“Queremos ter uma maior produção de carne em Moçambique usando as tecnologias que aqui nos foram apresentadas especialmente com a transferência de embriões e também a inseminação artificial que é uma tecnologia para cruzamentos”, disse a governante.
Apontou como maior desafio de Moçambique “produzir carne em menos tempo e de boa qualidade para que possamos abastecer o nosso mercado e, eventualmente, mais tarde, exportar”.
NYUSI INTERESSADO
NA EXPERIÊNCIA MINEIRA
Na visita à Diamond Trading Company Botswana (DTC Botswana), uma “joint venture” entre o Governo tswana e a companhia sul-africana De Beers, maior empresa de selecção de diamantes do mundo e com uma capacidade para processar 45 milhões de quilates por ano, o Presidente da República teve a oportunidade de ver um diamante ainda em bruto a ser lapidado, com as dimensões de metade de uma caixa de fósforo, avaliado em cerca de três milhões de dólares.
“Moçambique tem estado a descobrir a ocorrência de alguns recursos minerais. Precisamos de partilhar conhecimento para o aproveitamento de potencialidades em toda a cadeia de valor e o Botswana possui uma experiência invejável”,disse Nyusi dirigindo-se aos moçambicanos que o acompanhavam.
VONTADE DE CONSTRUIR
PORTO DE TECHOBANINE
Moçambique e o Botswana voltaram a sublinhar a importância da implementação do projecto tripartido integrado de Techobanine, que contempla a construção de um porto de águas profundas no distrito de Matutuíne, na província meridional de Maputo, visando estabelecer uma ligação com a região carbonífera de Selebi-Pikwe, naquele país, através do território zimbabweano.
O projecto, bilionário, de grande envergadura e complexidade, requer estudos muito profundos, incluindo a componente ambiental, a harmonização de interesses e a mobilização de financiamentos.
“Estamos convictos que a materialização deste projecto tripartido poderá alavancar a rápida circulação de pessoas e bens na região da SADC (Comunidade de Desenvolvimento da África Austral”, disse Filipe Nyusi, que acrescentou:
“O Porto de Techobanine, no âmbito do efectivo crescimento e diversificação das nossas economias, mostra-se um activo estratégico para Moçambique, Botswana e Zimbabwe e pode contribuir para a concretização da estratégia de industrialização da SADC (2015/2063)”.
Enquanto isso, o Governo moçambicano está a ampliar a capacidade do Porto de Maputo, com vista a permitir a recepção de navios de grande calado. Recentemente foi concluída a dragagem do canal de acesso que permite acolher navios de até 80 mil toneladas.
“Esta é mais uma oportunidade para que o Botswana utilize este potencial para as suas exportações e importações”,disse Nyusi, dirigindo-se aos empresários tswanas.
Elias Samo Gudo, da AIM

