
Há mortes que não sossegam o pensar, principalmente quando se trata de pessoas que vimos sorrir e pular todos os momentos. Pessoas que alegram ver e contemplar, no exercício fervoroso de militância do que melhor fazem. A morte da Graça Silva é uma delas.
Muitos de nós ainda nos questionamos: porquê? E cada momento que nos lembramos da sua trajectória nos palcos como actriz, por mais de trinta anos, e nos últimos anos como encenadora, tentamos sossegar os ânimos, dizendo: ela deixou obra e a nós resta dar continuidade aos seus feitos.
MUTUMBELA RENDE HOMENAGEM
Não seria em outro lugar que Graça Silva diria adeus aos que durante anos assistiram-na e vibraram com a sua performance em palco. Foi no palco do Teatro Avenida que ela se fez e foi fazendo aos outros. Por isso, Mutumbela Gogo não pestanejou, rendeu homenagem a ela naquele palco que ela conhece cada vértice, cada cortina, cada entrada.
No dia da sua despedida, passámos por aquele palco, onde estava a urna. Receosos, olhámos para ela e dissemos: Até sempre, Graça Silva! O Mutumbela Gogo refrescou a memória dos que acorreram ao velório projectando na tela momentos vários da Graça Silva em acção. Enquanto isso, as paredes que nos conduzem da entrada do Teatro ao interior estavam repletas de fotografias dela.
Estavam presentes familiares, amigos, colegas, escritores, jornalistas, amantes do teatro e muito mais. A sala do Teatro Avenida, que por vezes parece grande, tornou-se pequena. Houve gente que acabou ficando fora, esperando que o movimento diminuísse e só assim entrar e despedir-se dela.
Graça Silva, de cinquenta anos de idade e trinta de carreira artística, morreu no dia 15 de Abril, por Acidente Vascular Cerebral (AVC). Nascida em 1967, ela foi membro fundadora do Mutumbela Gogo. Participou em quase todas as peças do grupo que produziu mais de 100 peças teatrais, entre elas: “As mãos dos pretos”, “Hamllet”, “O Inspector”, “Eu Eduardo sonhei a terra”, “Nove hora”, “Gota de orvalho”, “Os meninos de ninguém”, “A casa da boneca”, “Amor vem”, entre outras.
Como actriz ela teve visibilidade dentro e fora do país. Marcou presença em festivais internacionais na Itália, Portugal, Suécia, França, Noruega, nas Ilhas do Oceano Índico, Brasil, entre outros países.
UMA ACTRIZ ENCENADORA
Os presentes na cerimónia de homenagem e despedida comungam a mesma ideia de que Graça Silva deixa um vazio enorme no teatro moçambicano. Ela já encenava algumas peças e tinha um potencial enorme.
TINHA MUITO POR ENSINAR
–Vasco Condo, actor do Gungu
A morte dela foi uma surpresa desagradável. É uma daquelas coisas que ninguém espera. Tanto nós como ela. Ela deixa um grande legado e temos a responsabilidade de dar continuidade a tudo que ela fez, os ensinamentos que deixa. Principalmente o Mutumbela Gogo tem a responsabilidade muito grande de continuar e fazer valer a obra dela. Graça transcende a categoria de actriz. Já era encenadora e assisti muitas peças por ela encenadas. Poderíamos considerar a Graça uma doutorada pela encenação. Ela faz parte dos que se auto-formaram. A geração vindoura tinha muito a aprender com ela. Andou em quase todo mundo e em palcos, seminários, ela aprendeu muito.
ABRE-SE UMA BRECHA NO PALCO
–Filimone Meigos, antigo jornalista cultural
“A vida seria uma interminável comédia se a morte não emprestasse alguma seriedade”. Uso estas palavras emprestadas de um escritor português porque a Graça que passou mais de trinta anos a ensinar e a ser ensinada apanhou-nos de surpresa nesta sua última peça. É pesado porque se junta emoção, seriedade (por saber que todos nós vamos morrer). Estou muito magoado. Abre-se uma brecha no palco e no fazer aquilo que se apresenta no palco. Portanto, a encenação.
MOSTROU QUE A MULHER
TEM ESPAÇO NO TEATRO
–Eldorado Dabula, promotor das artes
Ela mostrou que a mulher tem espaço no teatro e dignidade. Mostrou que se pode fazer do teatro a vida. Há quem acha que teatro é só para jovens, mas ela mostrou que não é só para jovens. Ela representou a vida, vivacidade, amor e ódio. Ela soube ser e estar no teatro.
Espero que as obras dela, para registo, sejam passadas para os estudantes do teatro para saberem o que é estar em palco. Se soubermos aproveitar o que ela fez, essa lacuna pode ser uma mais-valia.
DISTRIBUIU-SE POR
MUITAS PERSONAGENS
– Mia Couto, escritor
Para mim não há partida, não é possível pensar que alguém que se distribuiu por muitas personagens, alguns dos quais eu pus no papel, tenha partido. Aqui se aplica o princípio de Drummond: Esta morte não é uma ausência. Ela está presente. Ela tem não só o contributo: mas a história da infância do teatro moçambicano. É importante o que a Manuel Soeiro falou – a recuperação da biografia dela para que não se perca a história.
MORRE A GRAÇA, TEM DE VIVER O TEATRO
– Jorge Daniel, apreciador das artes
É uma perda irreparável de toda arte, sobretudo para o teatro que se vai fazer ressentir. Para além de ser actriz de créditos firmados, era encenadora. Já estava na classe de dinamizadora. O seu voluntarismo e capacidade de ensinar já eram a sua aposta, assim como o abraçar a produção. A morte dela é prematura e madrugadora. Ela tinha muito a dar. Deus na sua sábia decisão só leva os melhores. Com a necessidade de proteger e continuar com a obra dela, só podemos preservar o que fez, por aquilo que prometemos a ela. Esta partida é a vivência da arte. Morre a Graça, tem de viver o teatro.
DEU-NOS UMA GRANDE LIÇÃO
– Cândida Mata, promotora das artes
Apesar de perdermos companheiros de vanguarda, pessoas que a todo momento davam o seu saber, diploma, disponíveis para fazer trabalho a qualquer momento, não podemos vergar. Vamos fazer o que temos como dom. Deixemos de querelas. Graça Silva deu-nos uma grande lição pela sua luta, dedicação e profissionalismo.
FICA UM VAZIO NO TEATRO MOÇAMBICANO
– Cândida Bila, actriz de teatro
É difícil acreditar e ainda vai levar muito tempo para nos conformarmos com esta realidade. Nunca estamos preparados para perder alguém querido, próximo. Graça Silva é uma colega e irmã com a qual partilhámos o mesmo sentimento pela arte. Fica um vazio enorme no teatro moçambicano.
IMPÔS-SE COMO ROSTO DO TEATRO
– Carlos Dove, do Ministério da Cultura e Turismo
O Ministério da Cultura e Turismo fez, através de Carlos Dove, director de Indústrias Criativas, um elogio fúnebre no qual reconhece que Graça Silva se notabilizou através da interpretação de personagens variadas e de encenação de peças de teatro carregadas de elevado sentido de humanismo, transmitindo a realidade e o quotidiano moçambicanos. “Exibiu-se com universalidade e contribuiu para a promoção da identidade cultural nacional, consubstanciada através da sua versatilidade artística. Graça contribuiu para elevar esta área de saber e de actuação, transformando-a num veículo concorrente para a mobilização da sociedade moçambicana face aos actuais desafios. Com a sua voz e sua expressão corporal, ela soube conferir dinâmica e notoriedade à Companhia de Teatro Mutumbela Gogo. Com mais de três décadas de carreira, ela impôs-se como um dos principais rostos do teatro moçambicano, sendo icónicas as participações e interpretações nas peças “Os Meninos de Ninguém”, “Chapa 100 – My Love”, “A Máquina Extraviada”.
Defende o ministério que “as sementes que Graça Silva lançou neste domínio, adubadas pelos esforços dos seus seguidores e outros amantes da ciência da representação e da encenação, continuam a dar frutos em províncias como Tete e Cabo Delgado”.
Texto de Frederico Jamisse

