
Um herói precisa de um evento inesperado
que o catapulte para a acção – Rango
Inefável: Norman Brown, Jimmy Dludlu e João Cabral em palco. Dois continentes. Um triângulo de emoções. Três homens da guitarra. Êxtase. O instante que ficará gravado na memória de quem se fez ao Matchiki Tchiki para o primeiro Moments of Jazz de 2017. Houve, por breves átimos, magia no ar, que se misturou com os pingos de chuva que, teimosamente, insistiam em cair do céu… provavelmente um sinal de que os deuses também conspiravam para que a noite fosse inolvidável.
E fez todo sentido que a chuva caísse nalguns momentos. Afinal dos fracos não reza a história. E a noite não era para os fracos. Havia feras enjauladas prontas a sair pela noite dentro e, com as suas afiadas garras, fazerem vítimas… vítimas que voluntariamente haviam comprado bilhetes e resistido à tentação de desistir depois da provação do dia anterior quando a chuva – furiosa e provocadora – levara a um adiamento da “noite de guitarra”.
Mas a história encarregar-se-á de mais tarde recordar a noite, cujo enredo foi feito à custa do génio de três nomes e três guitarras. Cada um a seu jeito, Jimmy, Norman e Cabral escreveram no panteão reservado aos eleitos sons “impossíveis” para os mortais. Destilaram sons que fluíram como as águas de um rio que corre para o mar sem escolhos no seu caminho. O palco, o som, as luzes, o público, tudo concorreu para que a noite fosse tanto um buscar de ecos no passado, como também o sorver de uma brisa num rio de sonhos.
E como ensina Anatole France, para realizar grandes conquistas, devemos não apenas agir, mas também sonhar, não apenas planear, mas também acreditar; e isso tudo foi o que tornou aquela noite especial. A capacidade dos homens sonharem e o engenho acontecer.
E foi João Cabral quem teve a responsabilidade de iniciar a viagem que culminaria com um dos momentos mais bonitos da noite quando Norman Brown – um verdadeiro gentleman – convidou os moçambicanos para juntos partilharem o palco na interpretação da música “Breezin” celebrizada pela soberana interpretação de George Benson e Al Jarreau.
João Cabral, convidado especial da “noite da guitarra”, nome incontornável quando o tema é música moderna com forte inspiração na música moçambicana, no Jazz e música do oeste africano, é formado em Jazz e produção pela Universidade do Cabo, África do Sul. Do disco “River of Dream”, a materialização de um sonho, foi buscar os temas “Tsepo Baya Bayo”, “Va Djula Kutsaka”, “La Cabralinas” e “Chamanculo”. Também interpretou um tema inédito intitulado “4×3”. Os números, com arranjos novos, deram um claro sinal de que a noite seria uma torrente de emoções.
Jimmy Dludlu, ainda na ressaca dos prémios no Ngoma Moçambique e AFRIMA (Nigéria), privilegiou, na sua actuação sempre cheia de energia e movimento, músicas do último disco (“In The Groove”). Com uma carreira que soma mais de 30 anos, iniciou nos meados de 1980, trabalhando com várias bandas sul-africanas, incluindo o grupo Impandze (Swazilândia), o jamaicano Trevor Hall, Kalahari e Satari do Botswana, entre muitos outros. Tem vários discos (“Echoes from the past”, “Essence of Rhythm”, “Afrocentric”, “Corners of my soul”, “Portrait”, “Tonota”, “In the Groove”). Todos bem-sucedidos. E acumulou mais de 30 prémios internacionais e nacionais.
A actuação de Dludlu foi essencialmente do tipo “em casa mandamos nós”. De facto, depois do dedilhar do autor de “Point of View” e “Malala”, o clima pareceu ficar “embrulhado”, mas Norman Brown mostrou o porquê de muitas vezes ser comparado a George Benson. Com energia nuclear fez sair da sua guitarra sons mágicos de alguns dos seus discos. “Out and Nowhere”, “Breakin´Out”, “Thats the way love goês”, “Better Day ahead”, “Any love”, “This time Around”, “After the Storm” e “Broadway” fizeram as delícias de milhares de espectadores.
Nascido em Dezembro de 1970, em Kansas City, Missouri, Norman Brown é um guitarrista e cantor de jazz americano. Em 1992, Norman Brown lançou seu álbum de estreia “Just Between Us” pela “Mo Jazz”. Em 1994 Brown lançou o álbum “After the Storm”, que ganhou sucesso crítico. Em 1996 lançou “Better Days Ahead”, que lhe rendeu um público mais amplo. Em 2000, ele lançou “Celebration”. “Human Nature”, “Sending my Love” e “Just Chillin”. Estes são outros discos deste virtuoso guitarrista que não hesitou em bater palmas para Jimmy Dludlu e curvou-se também diante de João Cabral. Humildade é uma qualidade reservada aos grandes. E Norman mostrou essa grandeza ao convidar os artistas que o antecederam para o momento que certamente era aguardado com enorme expectativa.
O resto é história. A BDQ Concertos, com as parcerias da Vodacom e do Banco ABC, entre outros, brindou-nos com a “noite da guitarra”, tem já em marcha outro evento que se adivinha grande: a vinda de Billy Ocean, o homem de “Colours of Love”, a Maputo para mais um Moments of Jazz!
Texto de Belmiro Adamugy

