
No domingo, 26 de Fevereiro, o sermão da missa em espanhol em Waterloo, em Iowa, foi sobre o medo. Assim como muitas igrejas católicas, a Rainha da Paz, uma construção de tijolos em estilo gótico, serve de centro comunitário para imigrantes hispânicos nesta cidade de 68 mil habitantes na margem do rio Cedar. Waterloo reivindica ser a cidade com maior diversidade do Estado.
Os imigrantes, que incluem latinos e refugiados da Bósnia, de Mianmar e da Libéria, ajudaram a estabilizar sua população e o mercado habitacional e a reanimar o comércio local. Mas os homens e as mulheres sem documentos do leste de Iowa que trabalham em fábricas de carne processada, restaurantes e hotéis vivem com calafrios desde a posse do presidente Donald Trump e a adopção de suas novas e agressivas prioridades para a Polícia de Imigração e Alfândega (ICE na sigla em inglês).
O diácono da Rainha da Paz, reverendo Rigoberto Real, disse a uma congregação ligeiramente menor que a normal para que não deixem o medo dominar sua vida, para que entreguem as coisas nas mãos de Deus. Mas não tudo: no domingo seguinte haveria uma oficina com advogados no porão da igreja para ajudar os paroquianos a se prepararem para o caso de um de seus piores medos se materializar: a detenção e deportação pela ICE.
No domingo seguinte, a igreja estava tão cheia que teve de abrir os balcões. Dezenas de pessoas se encontraram com os advogados no porão depois da missa para o que se tornou, para os imigrantes não autorizados nos EUA, um ritual essencial na era Trump: conseguir documentos legais e fazer planos de emergência para o que acontecerá com seus filhos caso os pais sejam detidos ou deportados.
Os planos incluem tudo, desde quem apanhará as crianças na escola a quem comprará as passagens de avião se os filhos nascidos nos EUA seguirem seus pais ao México ou à América Central, ou quem os criará se continuarem separados dos pais, em escolas americanas. Miryam Antúnez de Mayolo, uma advogada de imigração que trabalha em Iowa há 18 anos e ajudou a organizar o evento na igreja, disse que nunca viu um clima tão tenso nem mesmo depois da batida em Postville, na era Bush, que se tornou um símbolo da repressão organizada à imigração.
A deportação de Guadalupe García de Rayos, mãe de duas crianças em Phoenix, que foi condenada por usar um número falso da Segurança Social nove anos atrás, teve ampla cobertura e inaugurou uma era de policiamento da imigração. Estrangeiros com ou sem ordens de deportação haviam se sentido mais à vontade depois da revisão de prioridades do segundo mandato de Obama, quando o governo decretou que as autoridades deviam concentrar seus esforços nos estrangeiros criminosos violentos, deixando de lado os demais. Agora esses residentes sem registo nos EUA são novamente alvos.
Tal como Guadalupe de Rayos, os outros têm em comum o facto de os filhos serem cidadãos americanos. Eles estão entre os cerca de 3,7 milhões de imigrantes sem documentos nos EUA que têm filhos nascidos no país.
O problema não é novo. Estima-se que 4,5 milhões de crianças cidadãs americanas têm pelo menos um dos pais sem documentos. Um relatório de 2015 do Instituto de Políticas de Migração e do Instituto Urbano projectou que, entre 2009 e 2013, 500 mil pais e mães de crianças americanas foram deportados, cerca de 100 mil por ano.
As últimas eleições aumentaram a ansiedade nas comunidades hispânicas. Carmen Zuvieta, uma líder da ICE Out em Austin, no Texas, que fez campanha por santuários hoje ameaçados na capital texana, disse à revista “Rolling Stone” em Dezembro que os imigrantes sem documentos deviam se preparar para Trump como fariam para um desastre natural, inclusive fazendo procurações e arranjos de custódia para seus filhos. Seu próprio marido foi deportado há quatro anos. Na época, ela fez planos para que seu filho mais novo, hoje com 6 anos, fosse cuidado pelo mais velho, hoje com 26. Em muitos casos, segundo ela, os filhos nunca visitaram a terra natal de seus pais.
Zuvieta hoje tem a residência legal. Mas o que ela temia se tornou realidade. Com Trump no poder, uma de suas irmãs parou de trabalhar totalmente e tem medo de sair para fazer compras. O único lugar onde os imigrantes sem documentos parecem se encontrar hoje em dia são as reuniões para preparar planos de emergência para sua prisão, como as duas organizadas recentemente pela ICE Out em Austin, que atraíram um grande público. Os papéis de pais e filhos se invertem: são os adolescentes nascidos nos EUA que vão ao supermercado e dirigem o carro, enquanto os adultos desesperados fazem planos de contingência. Mas para as crianças é pior, disse Zuvieta: “O medo que elas sentem é incrível. Elas temem ser abandonadas, que seus pais não voltem”.
“O tema actual é principalmente o medo”, disse Alyson Showell, que dirige o Centro da Família Hispânica em Camden, Nova Jersey. “Vimos a participação realmente diminuir em alguns de nossos programas diurnos. As pessoas têm medo de aparecer.”
Vários especialistas em imigração disseram que é improvável que a ICE deporte os dois pais de uma criança americana. “A ICE pode considerar se o indivíduo é um pai ou guardião legal de um cidadão americano ou um residente permanente legal, ou o cuidador básico de qualquer menor”, disse um porta-voz da ICE em um comunicado. Esses advogados sugeriram que um clima de paranóia, alimentado por falsos relatos de postos de vistoria da ICE, dominou as comunidades de imigrantes.
A remoção de ambos os pais é historicamente rara. “A ICE tem certo discernimento, e eles perguntam se um detido é o cuidador principal”, disse Heather Koball, uma das autoras do relatório do Instituto de Políticas de Migração. “Era bastante incomum encontrar casos em que o pai e a mãe foram deportados.”
Mas mães solteiras sem documentos cujos parceiros foram deportados devem tomar precauções. Milhares de crianças acabaram em abrigos provisórios porque ambos os pais foram detidos ou deportados. Ninguém sabe se a ICE de Trump irá respeitar o precedente. Mesmo que um pai ou mãe seja detido, mas libertado por ser um cuidador único, o período interino pode ser muito prejudicial.
“Mesmo que eles não sejam deportados imediatamente, precisam indicar alguém para buscar seus filhos na escola”, explicou Mayolo. “Se eles tiverem um problema de saúde, precisam que alguém procure os registos médicos. Se for um problema duradouro, precisam autorizar a pessoa que vai tomar conta da criança a, por exemplo, tirar um passaporte para ela, ou poder colocá-la em um avião para voltar para casa.”
Pedir esse favor é uma imposição importante. Pode significar que um parente em outro Estado esteja pronto de imediato. Para Karina Z., uma funcionária de hotel em Clinton, Iowa, e uma das clientes de Mayolo, significou encontrar coragem para pedir a uma amiga com cidadania americana se ela se responsabilizaria pelos seus três filhos, cidadãos americanos de quatro (4), Cinco (5) e dez (10) anos.
Em toda parte, imigrantes sem documentos estão tentando encontrar amigos e parentes para assumir a responsabilidade por seus filhos caso ocorra o pior. “Há uma enorme preocupação”, disse Debra Gilmore, directora e co-fundadora dos Serviços de Advocacia para Imigrantes em Queens, Nova York. Sua organização foi “inundada” de pedidos para cuidar de pais imigrantes em congregações ou associações de pais e mestres, e pela primeira vez está a distribuir um pacote de emergência que inclui um formulário de procuração para delegar direitos.
Com a nova vigilância, os advogados também aconselham os pais a conversar com os filhos sobre a possibilidade de sua prisão e deportação, disse Martha Real, mulher do diácono e braço-direito na Rainha da Paz. Essas conversas indicam, além dos documentos, uma mudança mais profunda na visão geral dos cerca de 11 milhões de imigrantes sem documentos no país, da estabilidade cautelosa para uma sensação de ansiedade que se estende a todas as responsabilidades em suas vidas.
Em Atlanta, na Geórgia, a advogada de imigração Carolina Antonini enfrentou um surto de interesse por acordos de procuração nas últimas semanas. Ela não cuida desses documentos e passa os clientes a outros advogados, mas disse que a sequência de pedidos é surpreendente, ver antigos moradores de Atlanta confiarem todos os aspectos de sua vida a outras pessoas.
“Tudo, de meus filhos, meus netos, meus pais idosos, casas, veículos, dívidas, contas bancárias, animais, galinhas, cabras, o que você imaginar”, disse Antonini, que trabalha em direito de imigração há 25 anos.
In UOL

