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            O novo Bispo da Diocese dos Libombos, Dom Carlos Simão Matsinhe, disse em entrevista ao domingo, ter acolhido com surpresa mas também com agrado a escolha que recai sobre si para substituir Dom Dinis Sengulane, à frente daquela comunidade religiosa anglicana. “Acolhi a nomeação com alguma surpresa mas em simultâneo com agrado, pois a candidatura na Igreja Anglicana é feita pela comunidade religiosa e não pelo candidato”. Siga a entrevista em discurso directo.

            Como acolheu a sua candidatura para bispo da Igreja Anglicana? Isso lhe fez sentir-se um privilegiado?

            Acolhi com alguma surpresa e mas em simultâneo com agrado esta nomeação, pois a candidatura na Igreja Anglicana é feita pela comunidade religiosa e não pelo candidato. Após a eleição, cativou- me bastante ver a alegria do povo que me escolheu. Vieram pessoas de muitos lugares para acompanhar a minha consagração. Não sou uma pessoa especial. Mas de toda maneira penso que o povo de Deus está feliz de ter uma pessoa como eu à sua frente. A minha fé é sustentada de forma colectiva: a partir da minha casa, dentro da igreja e da sociedade no geral. Se é isso que Deus quer e o povo quer, quem sou eu para dizer não.

            Hoje como novo Bispo da Diocese dos Libombos que desafios vê para a congregação anglicana?

            O primeiro desafio é a evangelização, que é o maior propósito de uma igreja. Há muitos locais que ainda não temos a presença da nossa congregação. Segundo as estatísticas, ainda se tem muito a evangelizar neste país. Também gostaríamos de ampliar a nossa formação teológica para os padres, pois para podermos anunciar a palavra de Deus, devemos contar com equipas formadas, para, não só terem conhecimento de matérias religiosas, como também de matérias seculares de outros domínios, de forma a prepará-los para interpretar essas dinâmicas sociais. Devemos também sustentabilizar a igreja. As doações saem do povo mas hoje, temos o problema de qualidade das dessas doações.

            No seu entender, as pessoas têm pouco comprometimento para com os propósitos da igreja?

            Penso que sim. As pessoas devem reflectir mais sobre em quê devem investir os seus recursos. Alguns preferem hoje gastar dinheiro com coisas passageiras e nalgumas vezes até prejudiciais a si mesmas. Investem pouco para Deus, para o trabalho que pode promover uma sociedade sã. Portanto, existe uma discrepância de compreensão e de valores. É essa a batalha que queremos travar na nossa igreja para ver se invertemos esta realidade.

            Estamos a viver uma crise de valores, sobretudo morais na nossa sociedade, que está criar muita instabilidade no seio das famílias. Qual é a posição da Igreja Anglicana?

            No olhar da igreja, penso que se deve transmitir mais os ensinamentos de Cristo e vivê-las. Esse é o papel da igreja. Mas também temos que admitir que a igreja tem que reforçar a sua intervenção como agente de moral. Temos uma história em que algum momento as pessoas acharam que a igreja já não tinha nenhum papel a desempenhar e que estava ultrapassada. Isto sucedeu na época da revolução marxista. Talvez estejamos a colher os efeitos dessa propaganda nessa altura.

            Acha que os moçambicanos perderam a fé?

            Acho que sim, ou então tem uma fé muito simplista. Existem outros factores que contribuem para isto. Hoje temos muitas influências externas, como alguns programas de televisão em que as pessoas não têm capacidade de autocensura e adoptam aquilo que vê como um modo de vida, quando aquilo é para criticar. Mas é preciso reconhecer que o mundo sempre viveu este binómio: do bem e do mal. Temos que lutar para que as trevas não dominem a luz. A escola, a igreja e a família devem ser rigorosos na educação e trabalharem em interação entre estas três instituições.

            As famílias estão a desempenhar o seu papel educador?

            Hoje as famílias não têm tempo para estarem juntas. Os pais saem cedo e voltam tarde. As crianças não têm alcance dos avós. Elas estão mais expostas a televisão e outros artifícios. Temos que nos dar mais tempo de estar com a família. No meio de semana conseguimos acordar cedo para levar os nossos filhos até à porta da escola. O mesmo percurso que fazemos para a escola, devemos fazê-lo para a igreja. A criança deve crescer a saber que a vida espiritual tem muito valor.

            A CAMINHADA NA IGREJA

            Antes da sua eleição como bispo em que paróquia estava a servir?

            Até à minha eleição era pároco da Igreja de Maciene e até ao momento respondo por ela. Mas tenho outro padre lá a substituir-me e sempre nos comunicamos.

            É filho de pais que professam a Igreja Metodista Unida e se torna crente no seio da Igreja Anglicana. Quando é que essa mudança se opera?

            Aos dois anos de idade, uma tia minha pediu ao meu pai que me libertasse para que fosse viver com ela. Ela professava Igreja Anglicana. Foi por essa via que começo a minha caminhada na Igreja Anglicana. Vivi com ela até os meus 15 anos.

            Foi com ela que passou a sua infância?

            Sim. Vivi até aos 15 anos com a minha tia. Quando terminei a 4ª classe, voltei para continuar os estudos no centro da Igreja Católica de Homoine.

            Este facto não deixou os seus pais desconfortados?

            Não. Na minha família, rezar na Igreja Anglicana ou na Igreja Metodista Unida não fazia muita diferença. Estas igrejas eram as dominantes naquela altura.

            A sua educação foi sempre ligada a missões religiosas?

            Sim. De 1ª a 3ª classe fiz na Igreja Católica local. Foi um percurso longo, porque tinha a primeira A e B e depois a segunda rudimentar e elementar. A 4ª classe fiz na escola da Igreja Católica de Homoíne. Depois disso é que passei para Maciene, onde se fazia a transição entre a 4ª classe e o 1º ano do ciclo preparatório. Nessa altura era quarta classe, depois admissão no ciclo preparatório e só depois Liceu. E depois do ciclo preparatório, fui estudar no colégio da Nossa Senhora de Conceição de Inhambane, actual Escola Secundária Emília Daússe, onde fiz o ensino liceal.

            Esteve para entrar na tropa colonial portuguesa, facto que comprometeria os seus estudos. Como se safou?

            Pois, eu estava inscrito e fui elegível para a tropa. Mas me safei porque graças a Deus sucedeu a revolução em Portugal, a 25 de Abril de 1974, que inverteu o cenário lá em Portugal e consequentemente aqui. Por essa razão, não houve mais necessidade para tal. Portanto, do mês Julho até Dezembro, o nosso bispo Dom Daniel de Pina Cabral preparava a mim e mais colegas para irmos para o Seminário Teológico de Tanzania. Portanto, em Janeiro de 1975, rumo para o Seminário Teológico de São Marcos, uma instituiçao filiada à Universidade de Maquerere, na Tanzania.

            Após regressar ao país para que paróquia foi encaminhado?

            Voltei da Tanzania em Fevereiro de 1978. Fui ordenado diácono em Fevereiro de 1979, e fui colocado na Igreja Anglicana de São Tiago de Choupal, (agora Bairro 25 de Junho, em Maputo).

            TRABALHADOR DA MABOR DE MOÇAMBIQUE

            Consta-nos que experimentou outras áreas profissionais antes de se tornar padre.

            Sim. Trabalhei um ano na extinta empresa de fabricação de pneus, a Mabor de Moçambique, num departamento denominado Técnica de Tempos, onde fiquei encarregue primeiramente, de traduzir de inglês para português os manuais de fabrico de pneus e mais tarde fui responsável em ensinar os operários a técnica de fabrico de pneus, tendo em conta os padrões de tempo e que permitisse um fabrico em série e trabalho programado. Fiquei muito envolvido nesse trabalho e fiz muitas amizades.

            A escolha para seguir a religião foi por influência donde estudou?

            Foi uma escolha consciente, mas dentro de um contexto de família e da igreja. Eu me lembro que meu pai sempre orava nas manhãs e no fim do dia pelo nosso encaminhamento. Falava de filhos de outros crentes que ganharam bolsas de estudo e se formaram fora do país através da Igreja Anglicana. Lá, na nossa comunidade, os padres anglicanos vinham rezar missas e instruir. A partir desse ambiente religioso, comecei a desenvolver o desejo de ser padre. Cada vez mais que conheço a Deus e seu povo, fico cada vez mais confirmado que este é o meu caminho.

            Quando é que foi ordenado padre?

            Fui ordenado padre em Janeiro de 1980, na Igreja Anglicana de São Cipriano. E em Abril do mesmo ano, já tinha uma paróquia que era a de Santo Estevão e São Lourenço. Ao mesmo tempo tive a missão de ser responsável por um trabalho denominado missão aos marinheiros. Fiquei aqui cerca de 18 anos.

            Que apoio concreto prestavam aos marinheiros­?

            Era um trabalho pastoral que a igreja vinha dando junto aos marinheiros que atracavam no nosso porto. Essa foi uma das portas do meu contacto com o mundo.Quando um navio chegasse era necessário que se fosse dar as boas vindas, mostrar onde estão os correios, como se adquire os selos. Se quisessem ir à igreja aos finais de semana, devíamos levá-los, pois vários barcos nessa altura passavam muito tempo atracados no porto.

            Centro de apoio a crianças de rua

            Foi mentor do projecto de criação de um centro de apoio a crianças de rua. Quer falar-nos desse projecto?

            Enquanto estava na paróquia de Santo Estêvão e São Lourenço também desenvolvi várias actividades. Iniciei o projecto de um centro de reabilitação da criança de rua. Fomos um dos grupos pioneiros de cuidados de menores de rua em Maputo. Integramos muitas crianças às suas famílias. Demos formação profissional e o que nos traz felicidade é que alguns foram para frente e até continuaram os estudos e licenciaram-se apartir daquele centro.Foi um projecto que durou quase 25 anos.

            Como surgiu essa iniciativa? 

            Naquela altura, por causa da abertura do supermercado Interfranca, na 24 de Julho, muitas crianças se aglomeravam naquela zona. Eu vivia próximo a Interfranca e a igreja também estava próxima daquele estabelecimento comercial. Durante o dia, os petizes brincavam por ali e de noite vinham dormir na minha varanda, ou na porta da igreja. Isto aconteceu durante muito tempo. Um dia pensamos o que fazer com elas. …Mandávamo-las embora? …chamavamos a Policia? Então, decidimos criar assim um centro que pudesse dar uma vida condigna a elas.

            Como sobreviveu o centro esse tempo todo?

            Iniciamos a actividade com meios da paróquia. Assim, alguns crentes decidiram ajudar-me e passaram a cozinhar nas suas casas e ofereciam uma refeição por dia. Depois vieram outras organizações que prestaram apoio à iniciativa como foi o caso da Unicef e outras. A partir dali, iniciamos com a criação de escolas comunitárias que iam até à 6ª classe. Isto porque a partir de 1986, as escolas registavam enchentes e algumas crianças perdiam vagas.

            …e esta iniciativa veio a apoiar as crianças que ficavam por fora.

            Sim. Começamos com este trabalho mesmo sem autorização do Governo para leccionar, porque era triste ver filhos de crentes e não só a ficarem sem estudar. Nas comunidades, quando fôssemos rezar as missas, os crentes diziam: padre as nossas crianças estão sem o que fazer, ajude-nos.

            Depois formalizamos a nossa actividade e em paralelo a esta criamos outras escolas de formação nas províncias. A diocese encarregou-me pela área de educação na congregação.

            Actualmente a Escola Secundária de São Cipriano é uma referência na área de ensino. Já se pensou em potenciar ou criar uma escola superior ou técnico-superior?       

            Já pensamos. O que está a faltar são recursos para investir. A Escola Anglicana consegue recursos, mas esses são para a manter o funcionamento actual. Em algum momento, tínhamos pensado que uma parceria com a Universidade Eduardo Mondlane (UEM) seria muito boa. Mas não foi possível e ela apenas aluga algumas salas, pois a utilização que nós estamos a fazer da escola é pequena. Mas a nossa prioridade no momento é o ensino técnico-profissional. As pessoas precisam de saber-fazer.                                                                          

            Luísa Jorge

            Fotos de Carlos Uqueio