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            19.10.201Banco de Moçambique

            Neidy da Luz Virgínia Ocuane, de 1.68 metros, é basquetebolista das camadas de formação do Clube dos Desportos da Costa do Sol. Brilhou no Afrobasket sub-16 recentemente realizado em Maputo, e foi considerada a Jogadora Mais Valiosa (MVP), prova na qual Moçambique ficou em terceiro lugar. Começou a jogar em 2007, na Escola Primária do Jardim, na capital do país, de forma curiosa. Apela aos gestores do desporto nacional para apostarem mais na formação.

            Quem é Neidy Ocuane?

             Neidy é uma jovem de 16 anos de idade, divertida e que gosta muito de conversar, sobretudo nos tempos livres. Está sempre com vontade de aprender mais sobre o mundo. Gosta de praticar básquetebol e estar com a família.

            De que forma entrou para o basquetebol?

            Comecei a praticar basquetebol em 2007, na Escola Primária do Jardim. Lembro-me que um dia apareceu na escola um treinador convidou todos os alunos para a prática de basquetebol. Depois de reflectir, achei que não podia tomar nenhuma decisão sem que antes falasse com os meus pais. Já em casa, contei a minha da possibilidade de iniciar com treinos de basquetebol. Ela aceitou. 

            E depois?

            Formamos uma equipa escolar que depois se juntou ao Costa de Sol. Éramos um grupo de 100 alunos, mas alguns foram abandonando até restarmos apenas quatro jogadoras.

            Antes pensara praticar esta modalidade?

            Confesso que foi mesmo por curiosidade, pois queria perceber o que era o basquetebol. Acabei ficando… Ainda me lembro que nos primeiros meses, depois de termos aceite o convite, sentava com os meus colegas e nos perguntávamos se valia a pena seguirmos a formação ou não.

            Porquê?

            Sentíamos que, como crianças, era difícil estar na escola e no treinamento de basquetebol, sem deixar de ajudar nos trabalhos de casa. Quando abracei o básquete tinha 10 anos de idade. Mesmo depois de ter sido autorizada, chegou uma certa altura em que os meus pais reclamavam das minhas ausências nos encontros da familiares e diziam, de forma aborrecida “ultimamente tu não ficas em casa, estás sempre a jogar básquete”.

            Queriam que desistisses?

            Zangavam-se mas eu não desistia. Mais tarde acabaram concluindo que o básquete me fazia bem e começaram a apoiar-me, passaram a assistir os meus jogos. Ultimamente sempre que tenho uma competição vão assistir. O que me dá mais tranquilidade e confiança. Portanto, eles já encaram o básquete de forma aberta e serena.

             E como vai o seu desempenho escolar?

            Quando comecei a jogar básquete estava na sétima classe. Nessa altura sabia que, para além de jogar, tinha que me preocupar com os estudos, porque é a escola que me vai dar mais-valia na minha vida. Isso quer dizer, que sempre consegui conciliar as duas partes, razão pela qual sempre fui a melhor aluna da turma. Actualmente estou na 11ª classe.

            Já joga para os seniores? 

            Desde o ano passado que jogo para juvenis e juniores, em simultâneo. Próximo ano farei os escalões de juniores.

            É fácil jogar para dois escalões?

            Sim, é fácil. A equipa constituída por juvenis é a mesma que joga para juniores, então é um conjunto que já se conhece. Isso traz uma mais-valia para o grupo, porque conseguimos colher mais experiência, uma vez que nas provas dos escalões de juniores jogamos com pessoas mais velhas, temos mais rodagem. E assim vamos crescendo juntas e isso transmite-nos mais firmeza no alcance dos nossos objectivos.

            Depois da sua brilhante prestação no torneio Afrobasket, é possível que venham convites para jogar noutros clubes. Estaria em condições de trocar de clube?

            Ainda não é o momento para abandonar o Costa de Sol. Sinto que ainda estou num processo de formação. Tenho ainda muito por aprender. Preciso de melhorar muito em alguns aspectos. Não digo que noutros clubes não possa melhorar mas me sinto bem quando estou com o meu actual técnico e no Costa do Sol.

            HÁ LACUNAS NA FORMAÇÃO

            Como avalia o basquetebol nacional?

            O basquete moçambicano ainda está em processo de desenvolvimento. Nos escalões de formação temos muitas lacunas. Sentimos que não há apoio das pessoas que gerem a modalidade. Em consequência disso ressentimo-nos da falta de material, como bolas, cordas, entre outras coisas que podem permitir que os nossos sonhos sejam concretizados. Há vezes que nos falta até água. Precisamos de ter bases para o futuro da modalidade. Precisamos de material.

            De onde deve vir esse apoio?

            De todas as partes ligadas ao basquetebol nacional, assim como do Governo. Estamos apostados em ver a modalidade evoluir mais, então, é preciso que os indivíduos que estão na fase de formação tenham apoio para estarem motivados a continuarem a trabalhar.

            REFLEXO DE TRABALHO ÁRDUO

            No recente Afrobasket, realizado na cidade de Maputo, foi considerada a Jogadora Mais valiosa. Que significou para si?  

            Os troféus dão mais motivação de continuar. O mister sempre nos disse que não é o troféu que nos faz boas jogadoras, mas sim o trabalho árduo de cada dia. Enquanto continuarmos a treinar os resultados virão; então este troféu serviu para incutir em mim mais confiança para a conquista dos meus objectivos.

            O que o troféu mudou na sua pessoa?

            Até ao momento não mudou muita coisa. É claro que há muitas pessoas que não me conheciam e quando me encontram na estrada me saúdam, isso é muito positivo. Confesso que não esperava ser uma das melhores da prova, uma vez que havia muitas e boas jogadoras. Mas acredito que é reflexo do trabalho que o conjunto vem fazendo no dia-a-dia. Durante a preparação para o Afrobasket tivemos vários momentos difíceis. As vezes não tínhamos campo para treinar. Diz-se que onde há muitas dificuldades tem de haver bons resultados para fazer valer aquele sofrimento. É verdade! Passamos dificuldades mas nunca desistimos dos nossos sonhos.

            O que mais condicionou a vossa preparação?

            A falta de apoio no que diz respeito ao acesso dos campos para treinos. Alguns clubes não nos deixavam treinar nos seus campos. Não digo que com os campos faríamos algo melhor, mas naquele momento era importante ter campos disponíveis para a nossa preparação.  

            Quais foram os momentos positivos marcantes nos seis anos da sua carreira desportiva?

            Um dos momentos positivos da minha vida foi em 2011, ano em que pela primeira vez fiz parte duma selecção. Foi nos Jogos Escolares, realizados na província de Maputo, onde com muita determinação conseguimos ocupar a primeira posição.

            E negativo?  

            Foi no jogo contra o Mali… se tivéssemos conseguido ganhar aquele jogo teríamos garantido a nossa presença no Mundial do próximo ano. Foi um momento inesperado. As jogadoras de Mali eram mais altas, fortes e com capacidade de fazer todas as jogadas que precisassem.

            Em conversa com uma ex-atleta esta dizia que era preciso que as nossas selecções apostassem nas jogadoras com estatura alta. Concorda?

            É possível alcançar grandes objectivos com jogadoras com estatura baixa, assim com estatura alta, mas precisamos de reforços. É preciso juntar um pouco de talento. Não digo que as jogadoras de baixa estatura não têm talento, são as que correm muito e no básquete precisa-se de indivíduos que correm muito, então, acho que cada um, independentemente da sua altura, tem algo para dar durante o jogo.