CASAMENTOS PREMATUROS: Com doze anos estava livre para relações sexuais

Felismina Jerónimo foi submetida aos ritos de iniciação aos 12 anos de idade. Os ensinamentos tiveram lugar num ambiente fechado, na casa onde vivia com a sua família: “foram dois meses trancadas na nossa própria casa. Éramos duas raparigas: eu e a minha prima”. Confinadas, foram submetidas a várias sessões de conversa: “ensinaram-nos a ter respeito pelos mais velhos, a não roubar…”. Entretanto, “ensinaram-nos também a não ter ‘medo’ de homem. Entendi, à minha saída dali, que estava preparada e ‘autorizada’ a brincar com o homem”.

O relato desta jovem, que nasceu na Aldeia de Muambula, em Cabo Delgado, há 19 anos, enquadra-se num grande debate que já polariza as atenções do país, em torno da submissão de menores aos ritos de iniciação.

No seminário realizado no mês de Fevereiro do corrente ano em Cabo Delgado, organizado pelo Gabinete da Primeira-dama, foram colocadas ideias que se contrapõem à participação de menores de idade à modalidade de ritos que os iniciam para a actividade sexual. “Antigamente, esta questão era tratada na maioridade, as crianças com pouca idade apenas aprendiam a ter respeito pelos mais velhos, entre outras questões de relevo para a vida das pessoas”, ecoaram algumas vozes de matronas participantes ao evento, que, entretanto, pediram a intervenção do Governo para o desencorajamento de práticas que comprometem o futuro das crianças, em especial da rapariga.

É que conforme foi sublinhado, ensinar questões relativas à sexualidade a menores de 18 anos abre caminho para os casamentos prematuros e gravidezes precoces, sendo este último, considerado pelo Ministério da Saúde (MISAU), um problema de saúde pública, podendo trazer consequências para a menina, sua família e para o bebé. Dados avançados pelo sector indicam que uma em cada duas mortes entre as mulheres dos 15 aos 24 anos de idade é por causa materna.No encontro de Pemba, foram apontados registos de crianças que, a partir dos dez anos, conheceram a porta do lar e o leito da maternidade. Como consequência da pouca idade, “temos assistido a mortes nos partos, pois são crianças, sem estrutura para suportar sequer a actividade sexual”, afirmou uma matrona participante ao evento.

 

Felismina Jerónimo, a nossa personagem principal, foi submetida ao casamento aos 14 anos, ainda adolescente, no entanto, “o meu caso era visto com normalidade lá na minha comunidade”.

Os seus progenitores decidiram-se pela cedência da sua criança ao lar a um “homem maduro”, comerciante sobejamente conhecido na zona: “A minha família gostou dele, porque tinha boas condições financeiras”.

 E, contra todas as expectativas, o referido genro aceitara que Felismina continuasse os seus estudos, sendo que na altura frequentava a oitava classe. Mas o tempo tratou de mostrar que as matemáticas feitas pela família estavam todas erradas: poucos meses após o casamento, “engravidei, parei de estudar”, e o que se seguiu foi um turbilhão em que se transformou a sua vida. “Quase fiquei maluca, sofri muito. Cumpri o pré-natal mas não suportava o peso do bebé. Arrastava-me ao caminhar”, relatou a jovem.

Ainda assim, contou com alguma sorte para levar a gravidez até ao fim e trazer ao mundo um rapaz. No entanto, a paga pela infeliz decisão de engravidar aos 14 anos de idade aconteceria pouco tempo depois. “Passei a sentir dores na bexiga e ao praticar relações sexuais”. O uso do documento chancelado durante os ritos de iniciação, pelos respectivos mestres, e pelos seus próprios pais fá-la conviver, até aos dias de hoje, com a dolência e o arrependimento.

Contudo, a vida deu-lhe a oportunidade de salvar a sua honra. Felismina está fora e longe daquele lar que lhe trouxe dissabores. Afinal, conforme contou, para além da dor física conviveu igualmente com a psicológica. O seu marido já não encontrava nela o mel, desprezava-a a todo momento.

Com efeito, o discernimento e o bom senso bateram, para seu gáudio, à porta dos seus familiares. Conscientes do erro cometido, retiraram-na daquele retardamento, pouco tempo após o nascimento do bebé da jovem.

O facto permite que actualmente, passados 5 anos, ela leve a vida “numa boa”. Estudar para ser enfermeira faz parte dos seus planos. Por ora, frequenta a 11.ª classe na Escola Secundária de Muidumbe e escolheu um parceiro para namorar. Apenas isto. “Ele é estudante universitário. Espelho-me nele para seguir nos meus estudos, e ele apoia-me”. Outro dos seus objectivos é intervir na sociedade como activista social. “Só não sei como fazer para o conseguir. Quero trabalhar em prol das raparigas. Impedir que elas sejam empurradas para os homens e para o lar ainda crianças”.

Apesar de ter sido impelida à actividade sexual, através dos ritos de iniciação, Felismina não desvaloriza todos os preceitos lá passados: “Tem muitas coisas positivas. Eu fiquei feliz por nos terem passado ensinamentos importantes para sabermos estar na nossa comunidade, em particular, e no mundo, em geral: a ter respeito pelo próximo, sobretudo pelos mais velhos; a não enveredar pelo caminho do crime…”. Mas, num futuro breve, pretende erguer as suas armas contra a componente que considera negativa: “alguns conselhos levam-nos sem dúvida à prática sexual ainda crianças. Ensinam-nos, inclusive, a pegar o homem, dar carinho, a agradá-lo”, referiu.AVÔ NÃO DEVE

 

PEGAR SEIOS DA NETA

Fora os ritos de iniciação, alguns hábitos foram, também, reprovados no grande encontro de Pemba. Só para exemplificar, Albino Mussuei, líder religioso, apelou ao fim de práticas que estimulam o desrespeito à rapariga: “ o avô sente-se no direito de pegar os seios das suas netas… as meninas e os demais à sua volta crescem interiorizando que o avô tem esse direito”, observou. Este e outros comportamentos colocam a menina na posição de vulnerável, concluiu.

Enquanto isso, linhas de acção da Estratégia Nacional de Prevenção e Combate aos Casamentos Prematuros são implementadas. O Conselho de Ministros aprovou a Estratégia Nacional de Combate 2016-2019, que pretende, entre várias acções, promover a mudança de normas e práticas sociais que favorecem estas uniões, para além de garantir a frequência e a permanência das crianças, em especial do sexo feminino, em escolas, e, igualmente, estimular o envolvimento das crianças de ambos os sexos na prevenção e combate aos casamentos prematuros.

O peso da gravidez precoce

Dados lançados pelo Ministério da Saúde, durante o I Seminário sobre casamentos prematuros e gravidezes precoces realizado em Pemba, no passado mês de Fevereiro, indicam que a gravidez precoce tem como consequência o parto complicado ou aborto inseguro, podendo resultar em morte materna ou morte fetal.

Na lista dos riscos de uma gravidez precoce, avança-se a perda do útero, nascimento prematuro ou desenvolvimento da fístula obstétrica, uma grave condição médica na qual uma abertura se desenvolve entre o recto e a vagina ou entre a bexiga urinária e a vagina.

Texto de Carol Banze

carolbanze@snoticias.co.mz

Editorial

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domingo, 15 outubro 2017, 00:00
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