O Museu da História Natural, implantado na zona da Ponta Vermelha, em Maputo, surgiu de um pequeno mostruário de animais, mas hoje possui uma rica colectânea de espécies. Entretanto,

 alguns dos animais estão a perder as suas características, necessitando-se, deste modo, de adopção de novas técnicas de conservação dos animais. Esta instituição está agora em festa pelos 100 anos de existência.

O Museu de História Natural da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) comemorou no passado dia 5 de Julho, o seu centenário de existência, cujas celebrações decorrem até ao próximo ano sob o lema “100 anos dedicados à História Natural”.

Na cerimónia central do lançamento das comemorações dos 100 anos do museu, foi enaltecido o papel institucional da UEM na preservação daquela instituição considerada como importante monumento que está a sobreviver ao longo do tempo.

No espaço dedicado às homenagens, é enaltecido o papel de várias a várias figuras, como o Prof. Doutor Travassos Dias e o Dr. Augusto Dias, que mantiveram intactos os seus serviços até hoje.

Para celebrar o centenário do prestigiado museu, foram planificadas uma série de acções. Entre elas destacam-se exposições, seminários, projecções de filmes e divulgação de trabalhos de investigação. Estas acções estão dirigidas a alunos do ensino primário e secundário, estudantes universitários, docentes, investigadores e ao público em geral.

No âmbito do centenário, destaca-se também, a apresentação dos trabalhos de investigação realizados nos últimos anos pelo Museu e a realização, em 2014, de um simpósio alusivo aos museus de história natural do mundo, como o culminar destas comemorações.

As actividades serão realizadas em parceria com as Faculdades de Ciências e de Educação, ambas da UEM, a Universidade de Aveiro e o Instituto de Investigação Científica Tropical, ambos de Portugal, que prevêem organizar também uma série de actividades comemorativas ao alongo deste ano e até Julho de 2014.

O domingo, juntando-se às celebrações agora em curso,traz hoje a história deste centenário Museu.

HISTÓRIA DO MUSEU

DA HISTÓRIA NATURAL

Os primeiros passos da criação do actual Museu da História Natural, surgiram em 1911, com um mostruário de exemplares marinhos, minerais, madeiras e produtos agrícolas, na antiga Escola Comercial e Industrial 5 de Outubro, nesse tempo localizada no espaço onde se encontra actualmente a Catedral da cidade de Maputo.

Por iniciativa do capitão Alberto da Graça, professor da antiga Escola Comercial e Industrial 5 de Outubro, este mostruário tornou-se, em 1913, num Museu Provincial. Dois anos depois, isto em 1915, o Museu Provincial é transferido para o local onde se encontra actualmente o Museu da Moeda.

Em 1932, o Museu da História Natural passou para o local onde se encontra hoje, isto na Praça Travessia do Zambeze, na Ponta Vermelha, e recebeu o nome de Museu Álvaro Castro, em homenagem ao antigo governador-geral de Moçambique.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    

“Nessa altura, as espécies que ali se encontravam eram na sua maioria frutos de oferta de estudiosos e pessoas apaixonadas pela natureza e que reconheciam a importância de se ter um mostruário de animais embalsamados para fins de exposição”, afirmou Lucília Chuquela, actual directora do Museu de História Natural.

Com a independência Nacional, em 1975, o Museu passou para a responsabilidade da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), e foi temporariamente encerrado para uma reabilitação do edifício. Um ano depois foi reaberto e baptizado com o nome de Museu da História Natural.

A invejável colecção de espécimes de natureza zoológica constituída por pássaros, mamíferos, insectos, répteis, invertebrados e peixes e a amostra etnográfica composta por 450 objectos de património cultural protegido fazem desta infra-estrutura referência no roteiro turístico da cidade de Maputo e de Moçambique.

A colecção de desenvolvimento embrionário do elefante, desde o primeiro aos 22 meses de gestação constitui, até ao momento, naqueles moldes, a única colecção a nível mundial.

Actualmente, a maior amostra do Museu é de insectos, com 17.247 espécies de formigas. É seguida de uma colecção de mil e 250 invertebrados, 10.137 aves e 200 mamíferos. A amostra menor é composta por 150 espécimes de répteis.

MUNDO ANIMAL

Na entrada principal do edifício construído no estilo manuelino (gótico português), a exposição dum leão descortina o cenário que se antevê na sala que se encontra do lado esquerdo, no rés-do-chão. Com boca aberta e exibindo dentes aguçados, o leão ali exposto pressagia a lei da sobrevivência retratada na sala adentro.

Justamente no centro do extenso salão, a conjugação da fauna e flora trazem a imagem da selva africana. Um cenário extraordinário. Um casal de elefantes com as respectivas crias na dianteira, caminha em direcção a um riacho. Ao lado destes, uma girafa vigia as suas crias que bebem da água. A mesma fonte atrai outras criaturas como búfalos e impalas. No local, uma leoa em plena caça faz de uma zebra a sua presa.

Ao redor deste cenário, vitrinas expõem outras criaturas no seu habitat. Num dos cantos, macacos-cães, gazelas, impalas, hipopótamos, e leopardos com as respectivas crias se fazem presentes. Noutro, destacam-se animais de pequeno porte como esquilos e lebres saltadoras.

Alguns destes animais se encontram em estado avançado de queda de pelos. “Existe uma necessidade de se preservar estas espécies. Muitos museus, até na África de Sul, já abandonaram a técnica de taxidermia com base no gesso, porque já não são eficazes tendo em conta as condições climáticas e os anos de existência dos animais embalsamados”, explicou a directora do Museu.

Segundo Lucília Chuquela, nas cheias do ano 2000, o Museu sofreu algumas perdas de animais devido à humidade nas salas de exposição.

Para prevenir a degradação de outros exemplares, a directora daquela instituição informou-nos que se está a criar parceria com outras instituições da mesma área, em particular com as da África de Sul, para a formação de quadros em técnicas de taxidermia com base em vidro. “Esta nova técnica vai ser uma mais-valia para a colecção do Museu, na medida em que permitirá melhor conservação dos espécimes.” 

Os visitantes são recomendados a não tocar nos animais expostos. “Precisamos de apoios para termos mais peles de animais, como o elande, o boi-cavalo e alguns búfalos”, afirmou, por sua vez, Lucas Sabão, há 38 anos, taxidermista naquela instituição.

Sabão herdou do seu pai o amor pelos bichos. Disse que seu pai, na época colonial, fez o trabalho de caça e preparação de animais ainda na altura do surgimento do Museu.

De acordo com este taxidermista, o abate de espécies não deve ser feito de forma aleatória, pois se deve ter sempre em conta o número de exemplares no seu habitat. “Na altura, não abatíamos qualquer animal para fins de exposição. Era feito um estudo e abatidos os animais maiores e de preferência machos para garantir que as fêmeas continuassem a procriar.”

Utilidade científica

 das colecções

 O domingo falou com o biólogo Almeida Guissamuno, que nos disse que, para além das espécies expostas, o Museu possui, desde o ano de 1960, outra colecção usada para estudos científicos. São réplicas das espécies expostas ao público. Estas estão guardadas como prova de existência de determinados animais num determinado local.

Existe no Museu uma base de dados que mostra onde foram colhidos.

De acordo com o nosso entrevistado, “a injecção de formalina no organismo do animal também permite que os investigadores que queiram estudar a organização dos músculos, ossos, olhos ou outro órgão, possam fazê-lo dada a conservação das características internas do animal”.

São também canalizados para o Museu animais que foram submetidos a algum estudo. “Se acaso um outro cientista quiser rever um determinado estudo, pode recorrer ao Museu para se proceder à verificação da tese”, salientou Guissamuno,que acrescentou que o Museu tem recebido cientistas de diferentes partes do mundo que lá acorrem para fazer estudos.

De acordo com Lucília Chuquela, dada a própria natureza do Museu da História Natural, para além de turistas idos de diferentes partes do mundo, este tem recebido estudantes de diferentes níveis que também ali acorrem para realizar trabalhos de investigação e visitas. “Uma das apostas desse Museu é fortalecer as diferentes funções e uma delas é a educação e a investigação, pois estas vão dar um contributo muito grande para as nossas exposições”.

O Museu de História Natural é membro de várias organizações internacionais a exemplo da WWF (World Wide Foundation), do Conselho Internacional dos Museus (AICOM) e da UCN.

TÉCNICAS DE CONSERVACÃO

A taxidermia

Para embalsamar animais de grande porte, o Museu usa a taxidermia. O processo começa com o abate, esfoliação da pele e conservação de alguns órgãos como as orelhas, crânio e membros inferiores.

Após o abate, segue-se a criação do manequim que é feito com base em rede, madeira e gesso e tendo em conta as medidas do animal abatido. Depois de construído o manequim, é revestido com a pele animal e por fim costurado por baixo.

“Este trabalho exige concertação, pois uma falha nas medidas do animal acaba comprometendo completamente todo o trabalho e assim sendo a correcção é o refazer de tudo outra vez”,explica Lucas Sabão.

De acordo com este taxidermista, os mamíferos de grande porte são os mais antigos animais embalsamados naquele Museu.

O último exemplar de grande porte embalsamado pelo Museu é uma gigante tartaruga marinha que apareceu na rede dos pescadores na praia de Bilene, em 2000. Esta foi levada para o Museu pelas autoridades da agricultura da província de Gaza.

A instituição também recebeu, recentemente, uma colecção de corais, fruto de um trabalho de investigação levado a cabo em Pemba, na província de Cabo Delgado.

Solução de formalina

Do rés-do-chão, uma escada leva ao primeiro andar onde se encontram duas salas de exposição. Na ala esquerda, se encontra a sala de répteis e insectos.

O Museu possui no momento 150 espécies de répteis em exposição pública desde os anos de 1980.

Estes se encontram submetidos a outra técnica de conservação com base numa solução composta por água e formol: “Esta técnica de conservação visa manter as características anatómicas e ou morfológicas destes animais”, explicou Almeida Guissamuno, biólogo no Museu há mais de 30 anos.

Segundo Guissamuno, para a imersão das espécies, é usado uma concentração de cinco a 10 por cento de formol diluídos em água. “É uma solução com as mesmas características ópticas da água. Para além de cobras e lagartos, também são conservadas outras espécies comopeixes e crustáceos (camarão, caranguejos, tartarugas marinhas, lagostas)”. A mesma técnica serve para conservar alguns invertebradosterrestres como a maria-café e escorpião.

Antes da sua imersão, o animal recebe uma dose de formalina. “Este procedimento visa prevenir ou interromper o processo de deterioração dos órgãos internos do animal. Portanto, conseguimos manter condições uniformes de conservação, mantendo o animal com as características que apresentava momentos antes da sua morte”, esclareceu o biólogo.

Este líquido tem a capacidade de conservar o animal para sempre desde que se mantenham certas condições fundamentais como não ficar exposto ao sol, manter os recipientes onde estão mergulhados os animais em ambientes que não variam de temperatura. Em casos de vaporização do líquido, a solução é apenas o seu acréscimo.

Actualmente os museus naturais estão a abandonar o uso da formalina e a adoptar o uso do álcool puro pelo facto de o formol possuir propriedades cancerígenas, podendo prejudicar a saúde das pessoas que o manuseiam.

Técnica do etil-éter

Dado o seu esqueleto externo e o facto de não ter quase nenhum tecido interno, os insectos são submetidos a uma técnica de conservação com base no etil-éter, uma substância que quando colocada num frasco à temperatura ambiente, torna-se gasosa. 

Neste caso, os insectos (borboletas, baratas, escaravelhos) são capturados vivos e introduzidos num recipiente contendo o vapor de etil-éter, cuja inalação provoca a morte. No processo de inalação, o gás fica impregnado nos tecidos internos e a partir dali impede o apodrecimento do animal.

Após este procedimento retira-se o animal é colocado em caixas adequadas com naftalina para repelir o ataque de outros insectos vivos, pois depois de determinado tempo o etil-éter evapora.

Há falta cultura de visita aos museus

 - Lucília Chuquela, directora do Museu da História Natural

Lucília Chuquela, directora do Museu da História Natural, as famílias moçambicanas não têm o hábito de visitar museus. Parte considerável das crianças que para lá vai, o faz muitas vezes em excursões escolares.

“No âmbito da celebração dos 100 anos do Museu, realizamos uma feira gastronómica como uma das forma de criar atractivo para que as pessoas visitem o Museu, porque temos notado que hoje em dia aspessoas gostam de ir às feiras gastronómicas. A afluência de pessoas foi grande e nos mostrou claramente que vale a pena”.

Sempre saio com mais conhecimento

Maldine Francisco Baptista é estudante na 11ª classe. Contou-nos que já visitou o Museu por três vezes. “A primeira foi com meus familiares há alguns anos. Mas não me canso de visitá-lo, pois cada vez que cá venho, consigo sair com mais um conhecimento do mundo animal”, referiu.

Este estudante salientou ainda que de toda a exposição, a mais impressionante para ele é a dos animais selvagens. Aprendemos a respeitar os animais

Armando Rufino, estudante da 11ª classe na Escola Secundária Josina Machel, afirmou que “o contacto com o mundo animal ajuda-nos a ter sensibilidade e a respeitar os animais”. Armando reconhece que os moçambicanos não têm o hábito de visitar os Museus e isso, na sua óptica, se deve à pouca divulgação deste tipo de instituições nos meios de comunicação social.

Luísa Jorge

Fotos de Jerónimo Muianga

 

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