Texto de Jorge Rungo

Dôa e Marara, na província de Tete, fazem parte da lista de 20 distritos criados recentemente ao abrigo da Lei 26/2013 de 18 de Dezembro. Durante a semana finda, escalámos estas duas parcelas do país, onde observamos como custa começar do zero. Sem estradas, energia, água, unidades sanitárias e até habitação para os membros do governo distrital, entre outros, estes distritos recém-nascidos têm um longo caminho pela frente para começarem a gatinhar, nascer dentes, crescer, ganhar peso e se afirmarem.

 

Os distritos de Dôa e Marara são filhos de Mutarara e Changara, respectivamente, e a sua instalação formal aconteceu nos dias 22 e 24 de Julho do ano passado. Portanto, há um ano. Na verdade, o que o governo fez foi elevar dois postos administrativos para a categoria de distritos.

Na mesma senda, outros 18 postos administrativos foram aprovados no mesmo exame e o país passou a contar com 148, contra os anteriores 128 distritos. Para subir de nível, os postos administrativos foram avaliados em termos de densidade populacional, posição geográfica e necessidades básicas de desenvolvimento local.

Por outro lado, o governo entendeu que com este novo estatuto será possível dar uma melhor assistência à população, colocar fundos para o desenvolvimento e, por essa via, elevar a qualidade de vida das populações através do acesso aos serviços administrativos do Estado, água, electricidade, saúde, educação e infra-estruturas diversas.

As escolhas dentro da província de Tete recaíram sobre Dôa e Marara, distritos que se localizam longe um do outro, mas que apresentam um quadro semelhante, no que se refere às necessidades para se afirmarem como distritos de verdade. Mas comecemos por Dôa. Que dói mais.

Partimos de Tete, por estrada, em direcção ao extremo sudeste de Tete, como quem vai para Mutarara. Os primeiros cerca de 80 quilómetros (kms) são inofensivos, porque a estrada é um tapete aveludado. Sem buracos e bem sinalizada e com cobertura das diferentes redes de telefonia móvel. Chique!

Porém, chegados ao desvio para Dôa, a viagem acaba e começa a aventura. Não vale a pena meter ali um turismo de tipo Vitz, Fit, Corolla, Spacio, Mark II, entre outros do género. Aliás, naquele troço não vimos nada parecido com isso. Só viaturas com tracção às quatro rodas, camionetas, camiões e tractores porque o piso simplesmente é mau.

Aliás, nem é preciso entrevistar a população que vive ao longo daquela via para perceber o que acontece no tempo chuvoso. O piso fala por si… e como fala. Pior porque a via é feita de pedras de todos os tipos e tamanhos. De poeira então, nem se fala.

Para completar o enredo, tem pontos onde se vê claramente que ao mínimo pingo de chuva poucos podem passar. As marcas do rodado de camiões que se atolaram nas últimas chuvas ainda estão ali a avisar que “não se atrevam a passar por aqui quando começar a chover”.

Do desvio para Dôa 120 quilómetros de terra batida que se percorrem em mais de três horas de puro castigo. É difícil pensar em regressar para Dôa sabendo que aquela via continua assim. 

Mesmo tendo deixado lá grandes amigos, pois, aquela via precisa de muito mais do que uma intervenção de rotina, que equivaleria a uma maquilhagem que sai com água e sabão durante o banho.

Mas, engane-se quem pensa que a população local está desesperada por não ter uma estrada jeitosa. O governo distrital tem estado a sublinhar de forma fervorosa, nos encontros que realiza por lá, que o governo central conhece o problema e que o mesmo será resolvido. É uma questão de tempo e dinheiro. Logo que estes dois elementos se casarem, vai se passar do plano para a acção.

Aliás, durante a semana passada, o vice-ministro das Obras Publicas, Habitação e Recursos Hidricos, João Machatine, visitou a província de Tete, acompanhado por quadros superiores da Administração Nacional de Estradas (ANE), com a finalidade de rever as prioridades do sector de estradas e de água.

É que, para o caso dos novos distritos, algumas dificuldades podem ser superadas muito rapidamente. Por exemplo, a ligação entre a sede do distrito de Marara e o posto administrativo de Boroma pode ser feita em 15 minutos de carro, porque são apenas 30 kms de estrada.

Entretanto, por falta de manutenção, a estrada e a ponte desapareceram a ponto de ninguém mais se embrenhar por ali. Como resultado, qualquer assistência à população de Boroma implica dar uma volta de 145 kms passando pela cidade de Tete, o que chega a soar a ridículo. Mas é a realidade.

GOVERNAR SEM CASA PARA MORAR

Se para Dôa a viagem dói, o mesmo não se pode dizer em relação a Marara. É moleza. Vai-se e volta-se como quem foi ao fundo do quintal. De Tete para este segundo destino a estrada está asfaltada e são cerca de 50 quilómetros. É verdade que leva alguns buracões que obrigam a um exercício de perícia na condução. Mas nada que se compare à ida para Dôa. Nada mesmo.

O que alivia o sofrimento daquela população é o facto de a linha férrea Beira-Moatize atravessar a vila ao meio e a empresa Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM) ter aumentado o número de carruagens de passageiros de duas para 10. Mas, o comboio só passa por ali uma vez por semana, o que mesmo assim alivia.

Chegados a Dôa, que é uma vila intimamente ligada à estação ferroviária local, fica claro que as autoridades administrativas locais têm pela frente um monte de tarefas por cumprir para impulsionar o desenvolvimento. A começar pelo seu próprio estabelecimento, sem o qual dificilmente podem levar a cabo a sua missão.

Para azar de todos, incluindo do governo de Marara, a população parece não estar interessada em saber se os administradores dormem no chão ou numa cama confortável. Se têm carros ou andam a pé. Se comem ou se bebem. Mal eles foram apresentados, começaram a chover exigências água, energia, escolas, hospital e estradas. “O resto nós vamos fazer”, diz a população.

Para o caso de Dôa, cujo governo é dirigido por um jovem de nome Domingos Viola, a equipa do governo distrital contínua incompleta. Tem apenas o administrador, comandante distrital (que chegou há dias), secretário permanente, director de Educação e de Actividades Económicas.

Como se pode ver, falta colocar os directores da Mulher e Acção Social, e Planeamento e Infra-esfrruturas, e uma longa lista de funcionários para os diferentes serviços. Aliás, a lei manda que os distritos tenham, no mínimo, seis directores distritais para funcionarem, mas Dôa só tem quatro.

Também observamos que a procuradora distrital, por falta de casa, continua a viver na cidade de Tete e, por força de circunstâncias, deve também assistir ao vizinho distrito de Mutarara, que dista 115 kms para lá de Dôa. Deste modo, e como se pode imaginar, a procuradora passa a vida a fazer vaivéns de Tete para Dôa (cerca de 200 kms) de Dôa para Mutarara (115 kms), enfim. É puro heroísmo.

Enquanto o quadro de funcionários não fica completo, o administrador Domingos Viola procura ganhar tempo tentando organizar a casa, pois, a própria administração funciona numa pequena casa que foi recentemente reabilitada, depois de ter passado os últimos 20 anos abandonada.

Na verdade, aquele edifício era uma ruína que albergava morcegos. Aliás, os morcegos que viviam na actual administração foram se juntar a outros milhares que moram no tecto da velha casa onde funcionava o Posto Administrativo e que só tem dois compartimentos.

Viola também anda às voltas para achar residências minimamente condignas para os seus funcionários, porque, conforme vimos, a maior parte deles partilha casas arrendadas e outros vivem em minúsculos quartos duma pensão local, como é caso do comandante distrital, que chegou há dias, e procura sorrir diante das adversidades. “É um desafio que também nos honra”. Estaé a frase que todos enunciam de cor e salteado, quando estão diante de gravadores e câmaras fotográficas.

De igual modo, no distrito de Marara, o corpo do governo distrital ainda está incompleto e consta que a prioridade é resolver o problema do sector de Educação e Saúde. O resto se verá mais adiante. Os poucos que lá estão a trabalhar vivem em antigas casas de sipaios que foram recentemente reabilitadas.

O que anima nestes dois distritos é que decorrem grandes investimentos para a construção de edifícios governamentais, incluindo residências oficiais para os administradores e funcionários, e procura-se solucionar os dilemas da população na medida das condições e realidades locais.

HOSPITAL COM DUAS CAMAS

No que se refere à Saúde, a população de Dôa conta com uma unidade sanitária de tipo dois (T2) que está implantada ali mesmo na sede do distrito. Mas, este hospital só tem duas camas para internamentos. E mais nada. Pior. Não tem médico.

Aliás, os cerca de 90 mil habitantes deste distrito são assistidos por um total de 15 enfermeiros e serventes afectos às três (3) pequenas unidades sanitárias que o distrito possui até agora. E, como um azar nunca vem só, na época chuvosa o distrito se dá de caras com diarreias agudas, porque a população consome água imprópria.

Para fazer face à situação, e porque só há duas camas para internar, “improvisamos alpendres em redor do recinto hospitalar, porque só temos duas camas. Este ano tivemos 500 casos”, disse Domingos Viola.

De igual modo, em Marara houve casos de diarreias e o atendimento também foi feito assim-assim, porque as unidades sanitárias ali existentes não dão para muito. Por exemplo, o Centro de Saúde de Cachembe, que fica ali mesmo na vila, é uma casa bem velhinha, desbotada e que foi abandonada por um caçador que por ali andou em tempos que lá vão.

Felizmente, em Marara há duas unidades sanitárias geridas por missionários católicos. Numa delas existem 12 camas e na outra mais umas tantas. Outra vantagem deste distrito é ser vizinho da capital provincial, pelo que os casos mais complexos facilmente são encaminhados para lá.

ENERGIA

À semelhança de Dôa, Marara também não tem electricidade da rede nacional. Quando se definiu que todas as sedes distritais deviam estar ligadas à rede nacional de energia, estes dois distritos nem sequer estavam em gestação.

Por causa disso, nestas duas sedes distritais vive-se praticamente à luz de vela, uma vez que os geradores adquiridos não podem alimentar as vilas inteiras. O que se faz é racionalizar a corrente para serviços essenciais, que não incluem a conservação de medicamentos.

Em ambos os distritos, a luz é ligada para produzir e imprimir documentos, carregar computadores portáteis e telemóveis, assistir aos telejornais e pouco menos. Não dá para mais. Por exemplo, o administrador de Marara, Carlos Simone, mandou chamar todos os antigos combatentes do distrito para tramitar os seus expedientes.

Quando chegamos à vila, parte deles estavam ali e alguns vinham de pontos tão distantes que tinham pernoitado na vila. “Tive que chamar a todos para organizarmos a sua documentação. Assim ligamos o gerador uma única vez para fazer as fotocópias e imprimir tudo o que for necessário”, disse Carlos Simone.

À opção pelos painéis solares que até já são produzidos no país, por uma empresa na qual o Estado tem acções, via Fundo de Energia (FUNAE), as administrações de Dôa e Marara afirmam que essa alternativa já não está em cogitação, porque o governo central já aprovou o Plano Económico e Social (PES) para este ano, e lá consta que ambos terão energia da rede nacional.

Enquanto a corrente não chega, a realidade parece anedótica. Em Dôa, por exemplo, tem um gerador e estão feitas cerca de 100 baixadas, mas apenas 60 consumidores pagam pela energia que consomem. Os restantes 40 consumidores não conseguem pagar.

Quisemos saber quanto se paga e caímos de costas com a resposta. “Cada consumidor deve parar 20 (vinte) meticais. Porém, alguns não pagam e fica difícil adquirir combustível para voltar a pôr o gerador a funcionar”, disse Domingos Viola, acrescentando que, mesmo que todos pagassem, o gerador só poderia funcionar durante duas horas por dia.

À ESPERA DA PEÇA DINAMARQUESA

No que se refere ao abastecimento de água, a província de Tete anda toda ela muito mal. O próprio governador da província, Paulo Auade confirmou isso na entrevista que nos concedeu em exclusivo e diz que tudo fará para minimizar a aflição da população com a construção de pequenos sistemas de retenção de água, furos, entre outros.

Mesmo a propósito de furos, no distrito de Dôa existem 50 (lembrando que este distrito tem cerca de 90 mil habitantes), dos quais 20 estão avariados há uma temporada. Aliás, na sede do distrito, o pequeno sistema de abastecimento de água, que alimentava a vila durante umas duas horas por dia, avariou em Junho último.

Os técnicos da administração identificaram a peça avariada e procuraram ver se poderiam adquirir no mercado local. Nada. Mandaram a peça para a capital provincial, nicles. Enviaram a amostra para a capital do país, idem. A peça não existe. Procuraram no mercado internacional e souberam que a mesma só existe na Dinamarca. Uff… respiraram de alívio.

A administração iniciou démarches para trazer a peça e a resposta que recebeu é que ela só pode chegar a Dôa daqui a quatro (4) meses, ou melhor, lá para Novembro. Perante este quadro, não surpreende que ao entrar na vila seja possível ver populares a colherem água de charcos, riachos e fontes improvisadas onde o gado também vai beber.

Para colmatar este cenário, Domingos Vila afirma que este ano serão construídos os primeiros 10 furos de um conjunto de 20 planificados. Segundo ele, as obras estão adjudicadas. Para o próximo ano está prevista a construção de mais vinte, e por aí em diante.

Em relação a Marara, que é irmão gêmeo de Dôa, o cenário é praticamente igual. A população queixa-se da falta de água, mesmo tendo o rio Zambeze e outros rios menores à mão de semear. O que complica as contas do governo local é que sempre que procura construir um furo, no lugar de água, encontra carvão. “O distrito está por cima de um manto de carvão mineral”, diz Carlos Simone.

Mesmo assim, diz-se que a cobertura em termos de abastecimento de água situa-se em 63,5 por cento, mas, como um mal nunca vem só, a maior parte da água que a população acede é salobre. Para contornar esta dificuldade, sugere-se à população para fazer caleiras, enquanto se cogitam outras saídas.

Jorge Rungo
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Fotos Jorge Rungo
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