“Vão ser castigados, ou melhor, estão a ser”, afirma um cidadão interpelado numa das inúmeras patrulhas que estão a ser feitas nos bairros suburbanos dos municípios de Matola e Maputo. E 

acrescenta: “estamos preparados para tudo. Para o crime violento, mas também para os pilhas-galinha e os ladrões de celulares. Vamos limpar tudo”.

 

Os bairros foram agora tomados por uma onda de voluntarismo que se instalou nas pessoas sejam médicos, engenheiros, professores, jornalistas, pilotos, marceneiros, pedreiros, carpinteiros, chapeiros, serralheiros, mecânicos, canalizadores, vendedores ambulantes ou desempregados Cada um quer proteger o que tem e que certamente muito lhe terá custado adquirir.

 

 Semana finda, por exemplo, em Nacala, três ladrões encontraram a morte à bala. É o troco dos populares cansados de ver os seus bens roubados e seus familiares violados sexualmente e/ou engomados a face e as nádegas pelos meliantes.

Até perece que retrocedemos para o velho oeste americano, onde os ganadeiros exaustos de ver as suas reses roubadas formaram os comités de defesa, vulgo vigilantes, para dar caça aos ladrões de gado. Muitos bandidos (ou não) acabaram enforcados.

Agora, em Maputo - província e cidade - e outros pontos do país estão em forja os Comités de Vigilância Popular (CVP). É quase a reedição dos GVPs (Grupos de Vigilância Popular) que foram formados após a proclamação da independência nacional em 1975, que obedeciam a um comando central, para saber quem é quem, não fosse o diabo tecê-las.

Os novos comités de vigilância, cujos membros, doravante, nesta reportagem, chamaremos vigilantes, não necessitaram de qualquer orientação central para emergirem. A motivação foi ou é a actual situação em que se reportam assassínios, roubos, violações sexuais que, de repente, tomou conta de Maputo e não só.

Enquanto a onda de criminalidade não diminuir, os vigilantes, doravante, terão de trabalhar de dia e de noite. De dia, onde ganham o salário para o seu sustento e das respectivas famílias, e a noite no bairro, onde a recompensa será o de ter certeza que nada de mal aconteceu à sua família ou outro elemento da vizinhança.

Os meliantes dos nossos tempos, face à impunidade, marcam com um X as casas onde vão assaltar nos próximos dias; colocam panfletos nas principais vias públicas a anunciarem a próxima série de assaltos que vão realizar nos bairros. Roubam, preferencialmente, tudo: plasmas, lap-top, sofás, geleiras, telemóveis, panelas, máquinas de costurar, carros, arroz, açúcar, e, depois disso, relata-se, ligam o ferro eléctrico e se põem a engomar os membros da família.

Atente-se para o que um desses grupos fez na semana passada, no distrito da Manhiça, província de Maputo.

Um empresário moçambicano de nome Magid Jossub foi assassinado na madrugada da última segunda-feira, na sua residência. Fontes próximas indicam que o assassínio foi brutal, na medida em que, após um tiro no peito, os malfeitores espancaram a vítima até à morte com um ferro de engomar na zona da cabeça. A esposa do empresário foi mantida trancada num quarto, enquanto a filha do casal de dez anos de idade assistia a tudo. Consta que no dia anterior ao assassinato, Magid jossub terá cambiado um valor significativo de meticais para dólar para compras na África do Sul.

 

Trauma psicológico

As crianças começam a sofrer os primeiros efeitos nocivos da onda de medo que se instalou no seio da população. Ao longo da semana finda foram incontáveis os casos em que os pais ficaram sem vocabulário quando os filhos, regressados da escola, questionaram se os bandidos também iriam violentar, roubar e assassinar (aqui) no bairro.

É que na escola, durante o recreio ou na saída, as crianças comentam tudo o que vêem na televisão ou ouviram das conversas entabuladas entre vizinhos, pais, tios ou meros conhecidos. Há casos de crianças que já não brincam e que nem sequer querem ver ferros de engomar à sua frente.

Derivado desta onda de violência sem igual, muitos pais e encarregados de educação não sossegam por terem os filhos de tenra idade, entre 13 e 15 anos, senão menos, a estudarem no curso nocturno. Aliás, aqui, sem que tenham havido uma orientação de qualquer autoridade, as aulas já terminam por volta das 21 horas, para toda a gente voltar para casa e integrar os comités de vigilância.

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