Algo agradável neste mundo é andar pela marginal, sobretudo neste princípio do ano, em que metade da cidade de Maputo está de férias. Está tudo calmo. Os dias são iguais – dias úteis, feriados e domingos. As pessoas que normalmente ganham a vida vendendo frango grelhado com batata frita e cerveja, junto à praia da Costa do Sol, trabalham a meio gás. Enfim… é como se todas as mágoas e tristezas se perdessem momentaneamente mar adentro.

O sol caminhava decididamente para o poente, quando na minha rotina pela Avenida 10 de Novembro – Avenida da Marginal, dei por mim profundamente mergulhado numa música que calhou estar a rodar àquela hora na Antena Nacional da Rádio Moçambique.

É uma composição da autoria de Alexandre Langa, o homem de Ndavene (Chibuto), com o título “Ukensiwa ufile”, que numa tradução livre para a língua portuguesa quer dizer “reconhecido após a morte”. É, na verdade, um desafogo sobre o tratamento pouco digno que, na sua opinião, a sociedade reserva aos músicos, em particular, e aos artistas, no geral.

E nessa composição, “Kid Munyama, Alexandre Langa foi carinhosamente tratado, cita exemplos de músicos do seu tempo, cuja gratidão foi a título póstumo – Alberto Machavela e Fany Pfumu –, sem imaginar que aconteceria exactamente a mesma coisa com ele.

Venho escutando reiteradamente esta canção desde a década de 1980, mas só desta vez é que julgo ter entendido o seu alcance. Aliás, através desta recordei-me também de outros temas nos quais fica evidente a frustração do homem de Ndavene sobre a sorte reservada à classe artística moçambicana na sua relação com a sociedade.

Por António Mondlhane
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