Televisão, anúncios de preservativos e (im)prudência

A comunicação é preponderante para a existência do ser humano. Através dela adquirimos conhecimento, partilhamos informações, exteriorizamos pensamentos e sentimentos.

 

A mensagem é tecida à medida da intenção do comunicador; lançada tendo em conta o destinatário, o meio. Pode transportar consigo uma carga metafórica e persuasiva. E por falar em persuasão direcciono desde já a minha prosa à questão dos anúncios de preservativos exibidos na televisão cá da nossa praça.

Mergulho no campo da publicidade que, cada vez mais, se destaca pela criatividade e pelo refino nas combinações linguísticas, sonoras, cromáticas e em outros artifícios, numa busca por resultados profícuos, que levem o público-alvo a aderir a um determinado produto ou serviço.

Só para exemplificar, num passado não muito longínquo, impressionou-me a mestria na criação do preservativo J 24 para a televisão.

Ainda que seja um exercício melindroso falar da utilização da camisinha em público, tendo em conta a existência de destinatários não ideais (crianças e adolescentes), expostos a essa informação, vénias minhas vão para os jogos metafóricos, sensoriais e imagéticos ali utilizados, que distanciam a capacidade analítica e interpretativa de uma pessoa de pouca idade, da relação entre o objecto ali publicitado com um acto sexual.

Se não vejamos: de forma objectiva, apenas se exibe um rapaz e uma rapariga que se avistam num ambiente de cavaqueira. Os outros elementos ali arrolados, que sugerem a prática de sexo, somente são percebidos pelo telespectador maduro, que conhece os seus meandros e suas especificidades associáveis através do agigantar de uma sombra, que pode ser interpretada como o desejo masculino pelas sensações carnais.  

Mas o mesmo já não pode ser dito da publicidade do preservativo Prudence, que exibe um homem se direccionando, de forma expectante, a uma mulher cheia de curvas e de lábios desejosos de um envolvimento carnal. O encontro é simplesmente esclarecedor. As duas figuras embalam-se em beijos ardentes, típicos do momento sexual, deixando qualquer um, criança e adulto, esclarecido em relação à utilização do preservativo.

Sendo impossível ficar alheia ao atrevimento, venho questionando aos meus botões do que nos vale tanta lábia solta, quando emitimos discursos socialmente correctos, se aos nossos olhos têm passado actos que nos contradizem?

Um líder religioso, por mim entrevistado para este jornal, alertou para o facto de a sociedade se mostrar díspar quanto à observância de valores morais; bem como para falta de referências.

Por este motivo, socorro-me do pensamento do Outro, que sabiamente nos alerta para o seguinte: “o que fala semeia; o que escuta recolhe”, ou seja, as referências por nós expostas, boas ou más, serão recolhidas pelos mais novos.

Por Carol Banze

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