Ninguém vai acordar os mortos

No seu estilo característico, Donald Trump, o Presidente norte-americano, deu um passo atrás e assinou um documento que suspende, ainda que temporariamente, a transferência da embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém, em Israel, o que sucede após ter inaugurado, em Maio, uma nova instalação diplomática na cidade santa.

 

A confirmação desta determinação de Trump já foi transmitida pela Casa Branca e a maioria dos países, incluindo os Estados Unidos, mantém as respectivas embaixadas em Telavive.

A medida tardou a chegar. É tomada após a morte de dezenas de palestinianos e ferimento de milhares durante os confrontos envolvendo o povo árabe e o Exército de Israel no território de Jerusalém, disputado por ambos.

Mesmo assim, o recuo de Trump já foi aplaudido pelo embaixador palestiniano nas Nações Unidas, Hussan Zomlot, que declarou que a decisão do estadista americano se reflecte no amplo consenso internacional sobre a resolução do conflito israelo-árabe e, cito, “dá uma chance para a paz”.

Conforme escrevi neste espaço, há três semanas, os palestinianos opõem-se à transferência da capital de Israel de Telavive para Jerusalém, pois reivindicam a parte leste desta cidade, actualmente sob domínio de Israel, como a capital do seu futuro Estado.

Refira-se que esta zona foi anexada por Israel em 1967 e o actual governo israelita, liderado pelo Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, opõe-se a uma divisão da cidade.

Mais do que o adiamento da transferência da embaixada americana, o importante foi ver Donald Trump admitir que a continuação do desenvolvimento de colonatos em território palestiniano ocupado não é “boa para a paz”.

Este posicionamento abre novo espaço para as negociações de paz nos próximos seis meses, acalenta esperanças e enaltece quem admite o erro e recua.

Contudo, uma coisa é certa: a perda de confiança compara-se a um nó. Quando se solta não se amarra mais no mesmo ponto, deixando sempre um pedaço para trás.

Com isto quero dizer que Trump perdeu a confiança dos palestinianos e dificilmente conseguirá recuperá-la como mediador do conflito israelo-árabe, pois quis ser árbitro ao mesmo tempo que pretendia ser jogador.

Por outras palavras, o processo de paz convidará outros actores, estando, obviamente, reservado papel especial à Organização das Nações Unidas (ONU) que devem ter uma importante palavra a dizer neste tão complicado dossier.

Como sempre defendi, a intolerância e o unilateralismo devem ser substituídos por consensos entre árabes e israelitas, sob umbrela do Direito Internacional e com o acompanhamento da ONU.

É certo que se esperam tempos de relativa paz nos próximos dias. O movimento radical Hamas poderá refrear os ânimos. O povo palestiniano, no geral, poderá suspender a intifada.

Entretanto, dezenas de palestinianos foram mortos e milhares foram mutilados durante o período que Washington decidiu transferir a sua embaixada para Jerusalém.

Sublinho: ninguém terá a capacidade de trazer a vida de volta aos falecidos. Ninguém conseguirá apagar a dor dos que ficaram mutilados para sempre.

Esse é o mal de todas as guerras.

Por Bento Venâncio

 
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