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          "Ora, não há mediador onde apenas uma pessoa está envolvida, mas Deus é apenas Um” – Gálatas 3:20

          Justamente quando completava nove anos de idade, etapa da vida que termina a infância e começa a adolescência, vi-me na contingência de transformar-me em pastor de onze cabritos que o meu falecido pai herdara como resgate (ou alvíssaras) pelo assassinato da sua irmã por um seu energúmeno cunhado, um verdadeiro retardado mental que tirou a vida a sangue frio à minha tia porque não lhe dava filhos, tendo sido deportado para São Tomé e Príncipe donde nunca mais voltámos a ouvir falar dele até aos dias de hoje. Fiquei encarregado de conduzir aquela manada de quadrúpedes durante onze inesquecíveis meses, pois parar na planície (libalane/marisoni) obrigava-me a apreender regras para poder pastorear os meus animais junto dos outros, cuja ordem era ditada e mantida pelos mais crescidos que tinham nos mais novos os seus “moços de recados”, obrigando-nos a fazer aquelas tarefas chatas para as quais nem sempre havia necessidade nem urgência para realizá-las. As lutas eram diárias e consistiam em pugilatos baratos sem categorias de pesos, atiçados e estimulados pelos chefes da pastorícia que além de ter nessas contendas o seu passatempo predilecto, afirmavam que as lutas serviam para endurecer os corpos dos novatos, (ku kulisa m’midi ya va fana). Na luta, valia tudo e os “pugilistas” rebolavam no chão empoeirado, mordiam-se e arranhavam-se cada um tentando defender-se como podia, e, quando a luta chegava ao rubro sem se vislumbrar nenhum vencedor/vencido, os cobardes chefes vestiam a pele de “mediadores”, quais “bons samaritanos”, separando “afavelmente” os lutadores, decidindo depois qual devia ser o vencedor. Impunham que houvesse sempre um vencido ao qual devia “vassalagem” ao triunfante ao pé de quem o vencido devia prostrar-se e venerá-lo de joelhos humilhando-se, “Ku khoza”. Durante a contenda os “pugilistas” não podiam parar antes da decisão dos “chefes mediadores”, que invariavelmente começavam, por seu turno, a “esborracharem-se” quando não se entendiam na eleição do vencido “versus” vencedor. Vieram-me à lembrança essas cenas “sertanejas”, olhando para as exigências apresentadas pelo “patrão da RENAMO” de só poder dar ordens aos seus homens para pararem de matar os seus irmãos incautos quando a “elite social” escolhida por ele para fazer parte do grupo dos mediadores fosse aceite pelo Governo. Não entendo que mensagem nem estratégia quis transmitir ao povo moçambicano ao escolher somente a Igreja Católica Apostólica Romana, mas duma coisa o povo moçambicano nunca se vai esquecer: ou pretende reeditar o passado em que o padre colono benzia as armas antes de saírem ao combate e fazia a extrema-unção aos mortos; ou considera que as outras (religiões, igrejas ou seitas) simplesmente são umas “párias sociais”, que não prestam para nada. Também pode ser uma forma de lançar cambulhada aos religiosos para se odiarem deitando abaixo o movimento ecuménico que está crescendo cada vez mais depressa. Todos nós sabemos que o ódio pode comprometer a saúde física e emocional das pessoas, pois ele (oódio) é parceira do medo, meio mais eficaz para manipular o Homem. Essa do “patrão da RENAMO” manipular as igrejas é um golpe baixo. Mas o povo está de olho, conforme nos diz uma velha canção que a FRELIMO ensinou ao povo moçambicano: “Não vamos esquecer o tempo que passou”. E mais, “Unidade, Trabalho e Vigilância”. Estamos de olhos bem abertos nessas mediações!

          Kandiyane Wa Matuva Kandiya
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