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          19.10.201Banco de Moçambique

          A minha ligação pessoal com colegas e camaradas das então diversas colónias portuguesas inicia-se com a Casa dos Estudantes do Império, a CEIA CEI traiu os objectivos dos seus fundadores fascistas e colonialistas nos anos quarenta. 

          Caetano, quando dirigia a Mocidade Portuguesa, criara a instituição, para apoiar os filhos dos colonos que, com família e amigos em Portugal na realidade pouco se interessaram por ela.

           Muito diferente para os negros, mestiços e goeses com parcas ou nulas ligações na dita metrópole e que começam a chegar à Universidade e instituições superiores após a II Guerra Mundial.

          A CEI torna-se mau grado o pecado original da sua nascença, numa escola de patriotismo, de solidariedade entre os estudantes africanos, um centro de educação política, uma base conspirativa, um meio de aproximação e confraternização com os colegas portugueses. Fizeram-no Agostinho Neto, Eduardo Mondlane, Amílcar Cabral, Mário de Andrade, Marcelino dos Santos, Gualter Soares, Francisco José Tenreiro, Noémia de Sousa, Miguel Trovoada, Alda Espírito Santo, Vasco Cabral, Aquino de Bragança e tios meus, o Orlando Costa, Fernando Reis e Lima, que bem sofreram nas mãos da PIDE.

          A PIDEpor diversas vezes tentou sufocar e destruir a instituição. Espiava-nos constantemente. Nomeou diversas Comissões Administrativas, compostas por funcionários do regime e destituindo as direcções eleitas.

          Hélder Martins, em 1960-61, presidia a Assembleia-Geral da penúltima direcção eleita e encabeçou a nossa resistência, apoiada por todas as associações estudantis portuguesas. O Ministro Adriano Moreira, desejoso de melhorar a imagem do país e não querendo aparecer como perseguidor dos estudantes das colónias quando eclodiam as guerras coloniais, restaurou a legalidade. Esta sobreviveu pouco tempo. Em 1963, o regime extinguiu todas as associações. Na última direcção da CEI encontrava-se o José Óscar Monteiro, como Vice-Presidente.

          Um médico de origem angolana que nada nos cobrava, o Dr. Arménio Ferreira, há poucos anos desaparecido, desempenhou, para todos nós, um papel essencial. Regularmente assistia-nos e, quando necessário, enviava-nos a colegas seus que nos recebiam gratuitamente. Sob o pretexto das consultas que dava duas vezes por semana, vinha à Casa dos Estudantes do Império para nos cuidar do corpo e também do espírito. Ele educava-nos politicamente e emprestava-nos para ler o Avante, e livros, desde os Subterrâneos da Liberdade de Jorge Amado, até às obras de Marx, Engels e Lenine. Creio que nunca ninguém se esqueceu de lhe devolver os livros e revistas e muito menos houve qualquer fuga de informação para a PIDE.

          Aí entrei, já na segunda metade dos anos cinquenta, conheci, privei e aprendi de tantos camaradas e amigos de Angola, Paulo Jorge, Carlos Ervedosa, Costa Andrade, Edmundo Rocha, Gentil Viana, Luandino Vieira, os irmãos Luís e Mário Almeida, Américo Boavida, Carlos Pestana, Bento Ribeiro, Rui de Sá, Juju, Africano Neto, Daniel Chipenda, França, Onambwé, Pedro Gomes, Eduardo Macedo dos Santos para falar de companheiros de Angola, o Tomás Medeiros de São Tomé.

          Nessa época havia e sempre houve poucos moçambicanos. Fernando Vaz, Rui Baltazar, Helder Martins, Luís Polanah, mais velhos que eu e da minha geração o Jorge Rebelo, Fernando Ganhão, José Óscar Monteiro, José Júlio de Andrade, Joaquim Chissano, Pascoal Mocumbi, Mariano Matsinhe, Mário Machungo, Ana Simeão Neto, Percy Freudenthal, Jorge Amado e um ou outro de quem não recordo os nomes. Quase todos se juntaram à causa da libertação da pátria. A CEI difundiu através das suas edições, doBoletim Mensagem, das Antologias de Luís Polanah, Alfredo Margarido os nossos autores. Saímos da clandestinidade cultural a que nos votava o colonial-fascismo. Publicou-se Craveirinha, António Jacinto, Kalungano.

          Gostaria que os PALOP cuidassem dos locais da CEI na Avenida Duque de Ávila em Lisboa, um património histórico que Jorge Sampaio quando presidente do município de Lisboa entregou aos nossos cinco Estados. Creio que importa valorizarem-se espólios e que nas novas gerações de africanos que estudam e vivem em Portugal, assim como na juventude portuguesa, se mantenha viva uma parte da nossa história de resistência, de promoção da cultura dos nossos países e, sobretudo, no renovar da seiva para as raízes, se garanta um crescer do futuro das relações amizade e vivências entre a África, que representamos e Portugal que também significa a Europa.

          Gostaria de sublinhar um facto, que me parece de sobremaneira importante, hoje que tanto se fala de sociedade civil e de organizações-não -governamentais.

          Nenhum dirigente associativo recebia qualquer tipo de salário ou benefício material. Todosarriscavam perseguições constantes, a menos grave (?) detenções em vésperas de exames ou até durante os exames. Ninguém capitulou, ninguém traiu, fora o prestígio e respeito dos colegas e da sociedade, zero de benefícios.

          Ao recapitular estes dados para recordação e também para estímulo das novas gerações a todos abraço,

          Sérgio Vieira

          P.S. Desconheço em que manual, país, experiência descobriram os lunáticos da democracia a ideia peregrina da paridade.

          Ao consagrar-se em democracia o princípio do voto universal para todos os cidadãos, estabelece-se a diferença entre a minoria e a maioria. Responsabiliza-se a maioria pela governação e a minoria pela fiscalização da acção governativa. Pressupõe-se a hipótese e não a obrigatoriedade que maioria de hoje se torne amanhã minoria. Determina-se que nos parlamentos exista uma participação representativa dos eleitos, assegurando quer a sua contribuição, quer o respeito devido à minoria.

          Paridades não passam de aberrações antidemocráticas, porque negam o papel da maioria, repudiam a decisão dos eleitores. Quando esta paridade vai ao ponto de negar o direito e dever de todos participarem na defesa da pátria, ordem e segurança públicas atingimos a loucura demagógica. Logicamente dever-se-ia na demência requerer paridade nos órgãos sociais das empresas! Bonito.

          Por favor, criem hospícios para os dementes e para isso o meu abraço,

          SV

                 R.P.S. Dizem documentos oficiais americanos difundidos quiçá ilegalmente, que os EUA forneceram armas químicas ao Iraque para a confrontação com o inimigo iraniano. Agora que se fala de uma nova guerra para punir a Síria pelo alegado uso dessas armas, há que saber se elas mudam de maldade consoante o utilizador. Disse o Presidente Obama que agirá nos melhores interesses dos EUA, quais não sabemos, onde ficam os interesses do povo da Síria ignoramos. Hollande em França não quer seguir a sensatez de Chirac e menos ainda do Parlamento britânico.

          Um abraço à Paz e à lógica,

          SV