- Ministro Alberto Nkutumula para quem “chega de mentiras”

O Ministro da Juventude e Desporto, Alberto Ntukumula, quer que a maior prova do calendário futebolístico nacional, o “Moçambola”, não continue a ser vulgarizada por clubes sem campos, sem direcções e sem dinheiro, que só perturbam o ambiente desportivo com reclamação atrás de reclamações. Quer que se torne numa prova respeitada na qual só participem clubes com condições aceites pela própria FIFA (Federação Internacional do Futebol Amador).

Para o leitor perceber a razão da “revolta” do ministro, domingo apresenta os clubes do Moçambola que não têm próprios campos. Curiosamente, correspondem a 50% dos 16 que participam na prova.

Clubes sem campos: Maxaquene, Desportivo de Maputo, Estrela Vermelha de Maputo, Desportivo do Niassa, 1º de Maio de Quelimane, Ferroviário de Nacala, Chingale de Tete e ENH de Vilanculo. Clubes com campos: Costa do Sol, Liga Desportiva de Maputo, Ferroviário de Maputo, Clube do Chibuto, Ferroviário da Beira, União Desportiva do Songo, Ferroviário de Nampula e Desportivo de Nacala.

 “Há requisitos para formar um clube. É preciso ter dinheiro. A lei estabelece que ninguém pode criar um clube sem capacidade financeira. Para ter clube é preciso ter instalações, ter campo, estádio com capacidade para cinco mil pessoas”, ministro da Juventude e Desporto, Alberto Nkutumula, em palestra ao ar livre dirigida às crianças aprendizes do futebol da Academia Brilho de Sol que funciona nas instalações do Ministério Arco Íris, no Zimpeto, em Maputo, dia 1 de Setembro.

O titular da pasta da Juventude e Desporto, que se fazia acompanhar de quadros superiores do seu ministério e de Chiquinho Conde, antigo capitão da selecção nacional, mostrou-se agastado com o que se passa na área desportiva em termos de gestão ao ponto de ter afirmado que o nosso desporto está cansado de mentiras.

 “Se não tens um campo para cinco mil espectadores não podes ter um clube, não podes participar no campeonato nacional, “Moçambola”. Tens que ter direcção, tens que ter uma série de requisitos que a própria FIFA exige e se não os tens não podes participar no campeonato. Portanto, se não temos esses requisitos não vale a pena darmos falsos voos, vamo-nos mantendo até conseguirmos ter essas condições. De mentiras nós estamos cansados.”

O ministro exortou os clubes afirmando que “ temos que ter humildade e sabermos qual é o nosso limite, naturalmente lutando para superá-lo. Dar salto maior que a perna, o fim pode ser desastroso. Estou a falar frontalmente para vocês, porque não quero vos mentir. Não façam com que estes miúdos sonhem mais do que o real.”     

PASSOS QUE MATAM O DESPORTO

Com a esperança de que sua mensagem chegaria a mais pessoas, para além das atenciosas crianças da Academia Brilho do Sol, presidida pelo jovem empreendedor desportivo Jonas Nhaca, Nkutumula advertiu que o nosso desporto está sendo morto pelo fenómeno de falsos voos.

“Uma coisa é certa, é preciso não voar mais do que as asas. Estamos a ter um fenómeno que me parece que vai matar o nosso desporto. Queremos dar um passo maior que a nossa perna. Queremos ir para o campeonato provincial, queremos ir para o campeonato nacional, queremos ir para o Moçambola, mas sem termos as condições necessárias para nós participarmos nesse campeonato. Isso não pode ser”, disse, perante olhar dos petizes que o tinham de perto pela primeira vez.

Para o ministro, se queremos colher a fruta que precisamos, primeiro temos que semear. Reconhece que somos fracos na formação.

- Vamos nos focar no projecto de formação, porque o grande problema do nosso desporto está na formação. Nós estamos agora a querer arrancar frutos em árvores que já não dão frutos. Ninguém quer semear. Não há tempo para semear, não há paciência para regar. Está aqui a semente, vamos aproveita-la, vamos semeá-la, vamos rega-la. Estes vão ser o futuro das nossas selecções, porque muitos poderão mudar para outras modalidades, tal como eu fui de futebol, artes marciais, natação, voleibol, atletismo, mas parti de algum sítio. O mais importante é ter paciência.

Alberto Nkutumula sossegou aos miúdos do Brilho do Sol, que podiam acreditar que também fosse seu ministro.

“Estou aqui com uma pessoa que foi um grande jogador de Moçambique, Chiquinho Conde. Quando eu era menino não largava o rádio para o relato dos golos de Chiquinho. Quem quer ser como Chiquinho? Quem quer jogar nos Mambas? Não é para jogar pelos e Mambas e perder, é para jogar e ganhar! Vocês são bons? Hão-de ser melhores? Vim aqui porque me convidaram e não podia vir para cá sem trazer uma pessoa que é uma referência para a nossa juventude, referência para os nossos atletas. É o “mister” Conde. O grande jogador. Terminou a carreira mas não abandonou o futebol. Agora está a formar outros jovens, que são bons como ele foi, até melhores que ele. Esse deve ser a natureza do campeonato, a pessoa deve tornar as pessoas que treina melhores que ele”, relatou.

Como que a dizer que gostou do que viu na Academia Brilho de Sol, o ministro garantiu que sempre haverá ajuda aos que ajudam os outros.

 “Vocês devem aproveitar muito bem esta oportunidade que a vida vos está a dar para se tornarem os melhores jogadores de Moçambique, mas também para se tornarem os melhores estudantes deste país, porque jogar sem estudar vos vai fazer perceber que a enxada e a pá pesam mais que a bola que têm nas mãos. E a fome pesa muito mais. Aproveitem a caneta e a bola à vossa disposição para se tornarem bons jogadores e bons estudantes, porque nós queremos que saiam daqui directores, ministros, governadores, presidentes, donos de clubes e de equipas.”  

Felicitou os treinadores pelo tempo e paciência. Aos mentores da Academia e a direcção do Ministério Arco-íris, que abriga crianças órfãs e abandonadas, incluindo bebes, que mereceram a visita, o ministro fez questão de vincar “nós queremos felicita-los, primeiro por terem permitido futebol aqui. Vimos que é um grande apoio, um grande esforço para que nós tenhamos estes meninos internados, com alimentação diária, com equipamentos, sabido que é coisa muito cara. Vamos fazer algo para que tenham mais apoios para que este projecto não morra.”

Jogar futebol

é a melhor profissão

- Chiquinho Conde às crianças do Brilho de Sol

Depois de agradecer ao ministro por lhe ter proporcionado a oportunidade de estar diante de crianças “que gostam de praticar futebol”, como referiu, Chiquinho Conde falou da sua experiência como jogador.

 “Já fui jogador. Alguns só me conhecem como treinador do Maxaquene. Eu comecei como vocês estão a começar, aliás, vocês têm muitas melhores condições que as que eu tinha quando comecei. Eu comecei com bolas de trapo lá no bairro (Esturo, na cidade da Beira), não tinha camisola, nem bolas de futebol como vocês as têm. Hoje vocês são privilegiados. Espero que, primeiro, não se dissociem da formação escolar, que é muito importante.”

 O antigo capitão dos Mambas, primeiro jogador moçambicano que legalmente ingressou no futebol profissional europeu, advertiu aos petizes da Academia Brilho do Sol que nem todos poderão ter a sorte de se tornarem craques do futebol.

“Nem todos poderão ser grandes craques no futuro, mas que, pelo menos, se formem homens para a sociedade. Faço votos para que tenham humildade de respeitar os vossos treinadores, porque eles também passaram por uma carreira profissional, embora não tenham chegado muito longe, mas têm uma grande experiência. Eles devem ter muita sensibilidade em treinar crianças. Trabalhem arduamente, porque não existe melhor profissão que ser jogador de futebol. Se pudesse jogar até aos sessenta anos, eu estaria a jogar futebol.”

Texto de Manuel Meque
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