Quando a 19 de Setembro de 1969 o jovem José Mucavel subiu pela primeira vez ao palco do Centro Associativo dos Negros de Moçambique (hoje Centro Cultural Ntsindza), não se imaginava que ele prolongaria a sua carreira até assinalar os cinquenta anos.

Mas o feito consumou-se e a 19 de Setembro do corrente ano ele vai assinalar cinquenta anos de carreira. Um percurso prenhe de emoções, viagens, frustrações, sonhos, mas, sobretudo, crença na cultura. Pois, como ele mesmo defende, “a cultura é a nossa salvação como nação, como povo. É a nossa identidade”.

Para assinalar o meio século de convivência nos palcos está em preparação um espectáculo no qual Mucavel almeja juntar músicos que o marcaram, casos de Rui Veloso, Sibonguile Khumalo, entre outros. “Mas gostaria de agradecer a todos que sempre acreditaram em mim, entenderam-me e incentivaram-me. Todos aqueles que me apoiaram e nunca me deixaram cair. Falo de casos de Júlio Navarro (falecido), José Luís Cabaço, Teodato Hunguana, Altenor Pereira, ACLIN Associação dos Antigos Combatentes”.

Mucavel promete um espectáculo memorável. “Vamos tocar música de verdade”.

DO XIPAMANINE

 PARA O MUNDO

Nascido a 5 de Abril de 1950, em Chibuto, província de Gaza, Mucavel mudou-se para a então cidade de Lourenço Marques.

Vivia no bairro Xipamanine e eu queria tanto tocar guitarra. Fui para o Centro Associativo dos Negros de Moçambique. Mas para guitarra já não havia vaga. Disseram-me que só podia tocar trompete. Marcelo, trompetista dos ‘Monstros’, passou umas notas no caderno e fui alugar o instrumento no Tamele para aprender. Aliás, acabei por comprar o trompete”, conta Mucavel.

Segundo ele, os ensaios para aprendizagem foram intensos. “Ensaiava em cima da árvore das 7 às 11h00 e à noite. O resultado foi visível. Em um mês já tocava trompete porque já vinha com algumas noções de solfejo. Toquei no centro e fui ovacionado. Aliás, nessa época cheguei a ser considerado o melhor trompetista de Moçambique”, conta.

Mucavel passou a tocar no grupo “Os Escravos”, mas, por razões diversas, abandona o grupo e cria os “Psicadélicos” em 1969. “O grupo ‘Psicadélicos’ tocava soul music e cantávamos no Xipamanine e nos casamentos. Depois juntei-me ao ‘Djambu 70’. Depois saí e fui tocar com um grupo de jovens brancos chamado ‘Conceito’, onde desenvolvi outro tipo de conhecimento sobre o jazz e o blues. Ensaiávamos na então Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, hoje Presidência. Cresci bastante com esse grupo e, a partir daí, comecei a ser convocado para outros grupos. Também toquei para ‘Alta Tensão’, um dos melhores grupos que tivemos na altura”.

Mucavel foi perseguido pela PIDE. “Fui para Beira em 1973. O ‘Conceito’ fazia parte do grupo dirigido por Ivo Garrido conjunto contra o sistema. Por causa da perseguição, abandonei o grupo e fui para Beira. Lá toquei por um ano com ‘Os outros’ e tinha como colega, entre outros, Ricardo Palma Pinto. O senhor da PIDE seguiu-me e de lá fugi para Quelimane, onde também toquei com Biriba, músico local. O mesmo gajo da PIDE foi atrás de mim”, explica.

A perseguição não parava. A PIDE foi até Quelimane e, mais uma vez, Mucavel apercebeu-se e fugiu para Chibuto. “Acabei saindo de Chibuto por temer que viesse à minha casa. Fui para Chókwè, onde encontrei Plácido e Paulo Zucula. Fundámos um grupo, mas puseram-me como professor da 4.ª classe para conseguir ter salário. Lá mesmo encontrei o Comissário Mahanjane, contei-lhe a história. Ele namorou-me e entreguei-me na Frelimo”.

UM ARTISTA MILITAR

Em 1974 foram vários os jovens que deixaram tudo para trás e foram alistar-se no Serviço Militar Obrigatório. José Mucavel foi um deles. “Fomos a Nachingueia e, depois dos treinos de guerrilha, fizemos a Academia da Polícia na Tanzânia. Fiquei um ano e tive problemas de saúde por causa da água. Depois passei a fazer parte do grupo Cénico das Forças Populares de Libertação. Lá encontrei Teodato Hunguana, Matias Xavier, Felício Zacarias e muitos outros”, recorda Mucavel.

Texto de FREDERICO JAMISSE

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